Já se passaram quase 30 anos desde a primeira vez que assisti ao Bad Religion no Brasil. De lá para cá, houve mudanças na formação (principalmente na bateria), muitos cabelos brancos e diferentes formatos de show (de festivais a casas de diversos tamanhos). O que impressiona, no entanto, é como a banda jamais perde o gás. Seja na primeira ou na décima vez, o show continua sendo parada obrigatória para quem ama punk, hardcore e suas vertentes.
Setlist atemporal do Bad Religion
O aspecto mais interessante da apresentação é notar como o repertório soa atual. Das 1h20 de show, o arco temporal foi de Recipe For Hate, que abriu a noite, até o hino American Jesus, responsável pelo encerramento.
- Recipe For Hate: Escrita originalmente para “comemorar” o falso aniversário de 500 anos do descobrimento da América, a letra resume: “our history as it’s portrayed / it’s just a recipe for hate” (Nossa história como é retratada / É apenas uma receita para odiar). Em tempos de novas tensões e ameaças na América Latina, a banda mostra que o problema é estrutural e antigo.
- Them and Us: Vinda do álbum The Gray Race (1996), disco que provou a relevância da banda após a saída de Brett Gurewitz, a música trouxe um alerta sobre a coexistência humana. Embora Greg Graffin tenha revelado em sua biografia, Punk Paradox, que a composição nasceu de um momento íntimo de colapso familiar, a “roupagem” punk a transformou em uma crítica contundente à sociedade e às decepções nos relacionamentos humanos.








Aula de história (com distorção)
Essa atualidade explica a comoção de muitos pais na pista premium do Espaço Unimed. Era visível a presença de crianças e adolescentes acompanhando seus responsáveis para assistir a uma verdadeira aula de história ministrada por um PhD em Zoologia (Greg Graffin).
Graffin conduz o espetáculo amparado pelo peso das guitarras de Brian Baker e Mike Dimkich, além dos backing vocals viscerais do baixista Jay Bentley. O baterista Jamie Miller, no grupo desde 2016, completa a cozinha com precisão absoluta.
Estatísticas e ausências no set do Bad Religion
Dos 17 álbuns de estúdio, a banda visitou 12 deles. The Gray Race foi o grande protagonista da noite, com cinco faixas.
- A grande falta: Generator. O público insistiu, gritou, mas não foi atendido. Vale notar que a música não apareceu em nenhum setlist desta turnê sul-americana.
American Jesus para fechar o arco
Para selar a atemporalidade, American Jesus (1993) fechou o set. A música, que nasceu como resposta à Guerra do Golfo (sob o comando de Bush pai), permanece dolorosamente precisa ao descrever o imperialismo norte-americano, independentemente de quem ocupe a Casa Branca.
Como citado na biografia Do What You Want, o Bad Religion vive uma espécie de déjà vu constante. A obra relata que figuras como fundamentalistas e negacionistas climáticos sempre encontram eco no poder, tornando as letras de 30 anos atrás tão urgentes quanto as de hoje. O Bad Religion não suporta a ideia de que uma única nação possa determinar o futuro do mundo.
Enquanto os integrantes deixavam o palco, Jay Bentley resumiu o espírito da noite com um discurso direto: “A mudança depende de vocês. Só vocês podem mudar o mundo.”