Entrevista | Draconian – “Tínhamos muita coisa escrita pensando na Lisa, mas ela deixou tudo ainda melhor”

Entrevista | Draconian – “Tínhamos muita coisa escrita pensando na Lisa, mas ela deixou tudo ainda melhor”

O Draconian retorna ao Brasil no próximo dia 16 de maio para apresentação única no Carioca Club, em São Paulo. O show marca a nova passagem da banda sueca pelo país após a apresentação sold out realizada em 2023 no La Iglesia, casa que acabou combinando perfeitamente com a atmosfera sombria e melancólica construída pelo grupo ao longo de mais de três décadas de carreira.

Desta vez, o Draconian desembarca em meio à divulgação de In Somnolent Ruin, oitavo álbum de estúdio que será lançado oficialmente amanhã, 8 de maio, via Napalm Records. A noite ainda contará com abertura da norte-americana Emma Ruth Rundle, conhecida pelo trabalho que mistura dark folk, ambient, post-rock e doom.

Formado na Suécia em meados dos anos 1990, o Draconian se consolidou como um dos nomes mais respeitados do gothic/doom metal contemporâneo graças à combinação de riffs lentos, clima depressivo e o contraste entre vocais guturais e femininos etéreos. A banda nunca apostou em excesso de técnica ou velocidade. Seu diferencial sempre esteve na construção de ambiente, algo perceptível desde trabalhos clássicos como Arcane Rain Fell até discos mais recentes como A Rose for the Apocalypse, Sovran e Under a Godless Veil. A formação atual também representa uma reconexão com a essência clássica do grupo, especialmente após o retorno da vocalista Lisa Johansson, novamente dividindo os vocais com Anders Jacobsson.

In Somnolent Ruin

Ouvimos In Somnolent Ruin e te contamos em primeira mão o que esperar do álbum. O novo trabalho praticamente reafirma tudo aquilo que transformou a banda em referência dentro do gothic doom metal. O álbum mergulha em atmosferas densas, melodias arrastadas e estruturas que alternam delicadeza e brutalidade de maneira extremamente natural.

Desde a abertura com “I Welcome Thy Arrow”, o disco transmite uma sensação quase cinematográfica, sustentada por teclados soturnos, guitarras pesadas e o contraste vocal que continua sendo a principal assinatura do grupo. O retorno de Lisa Johansson não funciona apenas como elemento nostálgico. Sua presença recoloca o Draconian em um território emocional que remete diretamente aos discos mais celebrados da carreira.

O novo álbum também chama atenção pela produção mais orgânica e menos polida em excesso, algo que reforça ainda mais o peso emocional das composições. Faixas como “The Face of God”, “Cold Heavens” e “Misanthrope River” trabalham sentimentos de isolamento, espiritualidade e desesperança sem soar repetitivas ou previsíveis.

O Draconian continua operando dentro da mesma identidade construída nos últimos 30 anos, mas consegue evitar a sensação de estagnação justamente pela maneira como desenvolve dinâmica e atmosfera. Existe um equilíbrio muito forte entre o lado contemplativo e os momentos mais pesados, aproximando o álbum de nomes clássicos como My Dying Bride e Paradise Lost, mas sem perder personalidade própria.

Mesmo sem reinventar o estilo, In Somnolent Ruin surge como um dos trabalhos mais consistentes da discografia do Draconian. O disco mantém a essência melancólica da banda, mas adiciona sensação de maturidade e coesão raramente alcançada dentro do doom metal contemporâneo. O resultado é um álbum que não busca hits imediatos ou refrões acessíveis. Pelo contrário: funciona quase como uma experiência contínua de imersão emocional. Em uma cena onde muitas bandas do gênero acabaram se tornando previsíveis, o Draconian ainda consegue transformar tristeza, peso e contemplação em algo genuinamente envolvente.

E para trazer ainda mais detalhes sobre o novo álbum e o show no Brasil, o Blog N’ Roll conversou com Anders Jacobsson que falou sobre o retorno de Lisa, a expectativa de retorno ao Brasil e qual seria o local perfeito para os humanos habitarem.

Como surgiu o processo criativo de In Somnolent Ruin?

O ponto de partida foi “Misanthrope River”, que originalmente tinha sido escrita para Under a Godless Veil, mas não se encaixava naquele álbum. O Johan sentiu isso na época, e ele estava certo. Então decidimos guardar a música para o próximo disco. Só que demorou muito até realmente chegarmos ao momento de fazer esse álbum acontecer.

O verdadeiro começo veio em 2022, quando a banda começou a encontrar estabilidade novamente. Havia muita incerteza. A pandemia tinha mudado tudo, algumas pessoas tinham prioridades diferentes e nós nunca tivemos a chance de promover Under a Godless Veil adequadamente porque a turnê foi adiada várias vezes. Então foi um período muito turbulento emocionalmente.

E como foi a troca de formação com a saída da Heike e o retorno da Lisa?

Tudo o que queríamos era manter o Draconian funcionando. Quando sentimos que as coisas começaram a se estabilizar e que o retorno da Lisa Johansson faria sentido, o processo criativo realmente começou. No início ela voltaria apenas para os shows ao vivo, mas acabou acontecendo naturalmente. A própria Heike Langhans sentiu que fazia sentido a Lisa retornar. Ela queria focar mais nos outros projetos dela e apoiou muito esse álbum.

É muito difícil escrever músicas quando a banda está emocionalmente instável. Então o processo só avançou quando sentimos que o caos estava diminuindo. Mesmo assim demorou anos. Houve procrastinação, atrasos e várias mudanças até chegarmos ao resultado final.

E o que mudou no processo criativo de vocês ao longo desses anos?

Hoje o Draconian funciona de maneira muito diferente dos primeiros anos. Antigamente ensaiávamos juntos antes de gravar. Agora trocamos demos e arquivos à distância. O Johan me envia ideias, eu escrevo letras, devolvo para ele e assim seguimos trabalhando.

Bem, o Johan tinha ideias para cerca de 20 músicas, então tivemos que sentar e decidir quais realmente fariam sentido dentro do álbum, não apenas musicalmente, mas também conceitualmente. Isso só aconteceu no ano passado. E o processo continuou mudando até os últimos dias. Eu ainda alterava coisas no mesmo dia em que terminei meus vocais. Muitas ideias nasceram já dentro do estúdio.

A dinâmica vocal mudou com o retorno da Lisa Johansson ou foi como retornar aos velhos tempos?

Sim e não. Acho que algumas partes já foram escritas pensando nela, porque a Lisa possui uma extensão vocal diferente da Heike. Isso naturalmente cria outras possibilidades dentro das músicas.

Mas a principal diferença desta vez foi a maneira como gravamos o álbum. Nos discos anteriores com a Lisa, sempre trabalhávamos em estúdios tradicionais, com produtores e longe de casa. Agora gravamos tudo no home studio do Johan. Isso mudou completamente a dinâmica do trabalho.

Então deu tempo dela participar do processo de composição?

Sim. Quando a Lisa entrou no processo de demos e gravações finais, ela trouxe as próprias ideias e acabou elevando várias partes das músicas. Nós já tínhamos muita coisa escrita pensando nela, mas ela conseguiu deixar tudo ainda melhor.

O que o público brasileiro pode esperar dessa nova fase ao vivo? Pode adiantar algo do setlist?

Claro que vamos tocar músicas do novo álbum, mas pensamos muito no fluxo emocional do show. Não queríamos fazer uma apresentação extremamente longa. Desta vez montamos um setlist mais conciso e mais pensado emocionalmente.

Cada música foi posicionada de uma maneira específica para criar uma experiência imersiva. O repertório passa pelos anos 2000 até o material mais recente. Vamos tocar pelo menos cinco músicas novas, mas também resgatamos faixas que não tocávamos havia sete ou oito anos.

Então o set será bem diferente da última passagem?

Queríamos algo mais progressivo, mais conectado emocionalmente. Tentamos não repetir exatamente o mesmo show da última vez que estivemos no Brasil. Estou muito confiante de que os fãs brasileiros vão gostar bastante desse novo formato.

E como foi essa primeira experiência da banda no Brasil?

Foi algo que eu nunca vou esquecer. Quando chegamos ao local do show e vimos todas aquelas pessoas esperando, parecia surreal. Por um momento parecia que eu estava em uma banda gigantesca.

Mas aí percebi que os fãs brasileiros esperavam por isso havia muito tempo. Durante mais de 20 anos víamos pessoas pedindo a banda no Brasil nas redes sociais. Isso vinha desde os tempos do MP3.com.

Então havia muita emoção acumulada naquele momento. Muitos daqueles fãs acompanham o Draconian há décadas. Foi muito emocionante e muito humilde ver aquilo acontecendo.

Eu senti uma conexão muito forte com o público brasileiro, tanto no palco quanto fora dele. Essa música existe justamente para provocar emoção, mas aquilo foi além do normal para mim. Estou muito ansioso para voltar e reencontrar essas pessoas novamente.

Você já disse que sente que não pertencemos a este mundo. Como seria um lugar ideal para a humanidade viver?

Talvez nem fosse um planeta físico. Talvez fosse um estado puro de consciência, sem limitações materiais, sem a necessidade de corpos físicos. Eu realmente acredito que existe algo além disso. Acredito que nossa alma existe para nos lembrar de que viemos de outro lugar. Essa visão sempre esteve presente no Draconian desde os primeiros demos.

O próprio título In Somnolent Ruin fala sobre isso. Sobre estarmos adormecidos. Enquanto estivermos presos apenas ao materialismo e à matéria, continuaremos limitados. Para mim, a experiência humana é apenas uma fase de uma jornada maior. Sempre senti como se tivéssemos sido deixados em algum lugar alienígena. E sinceramente não acredito que teríamos esse tipo de consciência e questionamentos se fôssemos apenas carne, sangue e matéria.

Então, além da filosofia, isso é também uma crítica social…

Vivemos em um mundo onde as pessoas são constantemente ensinadas de que nada pode mudar, que a ganância e a escuridão fazem parte da natureza humana. Eu não acredito nisso. Acho que existe muito mais potencial dentro de nós do que imaginamos.

É por isso que arte e música são tão importantes. Elas conectam as pessoas em um nível muito mais profundo. Pegamos tristeza, amor e dor e transformamos isso em algo construtivo.

Serviço

Draconian + Emma Ruth Rundle em São Paulo

Data: 16 de maio de 2026 (sábado)

Horário: 17h (abertura da casa)

Local: Carioca Club

Endereço: Rua Cardeal Arcoverde, 2899 – Pinheiros, São Paulo – SP

Venda on-line: fastix.com.br/events/draconian-emma-ruth-rundle-em-sao-paulo