Os gigantes do math rock e do midwest emo estão de volta. O American Football lançou o aguardado LP4, um trabalho que mergulha nas complexidades da maturidade e nas “duras realidades da vida” sob uma perspectiva de meia-idade. Com uma sonoridade mais encorpada e camadas rítmicas profundas, o novo álbum reafirma a posição do grupo como arquitetos de uma melancolia sofisticada, equilibrando a precisão técnica que os consagrou com uma entrega emocional ainda mais direta e visceral.
Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, o baterista e trompetista Steve Lamos abriu o jogo sobre o processo de criação no estúdio e a busca por uma sonoridade autêntica. Lamos revelou como a parceria com o produtor Sonny DiPerri foi fundamental para reconstruir sua confiança atrás do kit, resultando em performances que ele considera as mais honestas de sua carreira até hoje. Entre compassos quebrados e melodias de trompete, o músico descreve o novo disco como um retrato fiel de quem a banda é no momento.
Um dos pontos altos da conversa foi o clima de celebração em torno das colaborações de peso no álbum, que conta com nomes como Brendan Yates (Turnstile) e Beth Orton. Steve detalhou como a banda deu liberdade total para que esses artistas deixassem suas marcas, transformando as faixas em diálogos orgânicos entre diferentes gerações do rock alternativo. O resultado é um disco que, embora denso, encontra momentos de alívio em faixas mais solares, como o single Wake Her Up.
A conexão com o público brasileiro também ganhou destaque no papo. Mesmo a milhares de quilômetros de distância, Lamos descreveu a recepção dos fãs na América do Sul como “mágica” e confessou que a banda está ansiosa para retornar. Ele relembrou a última passagem por São Paulo e expressou o desejo genuíno de explorar outras cidades brasileiras na próxima turnê.
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O material de divulgação do LP4 menciona que o American Football enfrentou realidades duras da vida sob uma perspectiva de meia-idade. Como o seu processo criativo na bateria e no trompete refletiu esse clima mais denso e introspectivo deste novo disco?
Uau, essa é uma ótima pergunta, eu agradeço. Uma perguntinha fácil para começar, né? Nossa, sabe, acho que estamos todos mais velhos, fazemos isso há muito tempo e acho que a única razão para continuar é fazer música nova que pareça, sabe, autêntica de alguma forma.
Não sei se entramos nessas músicas pensando deliberadamente: “Ah, vamos fazer um hino adulto” ou algo assim, mas acho que todos querem fazer música que soe sincera ou autêntica. Algumas dessas músicas vieram de partes de bateria que eu talvez estivesse… eu amo ir para a garagem e fazer barulho, e às vezes penso “ah, gostei desse barulho”, gravo e tento desenvolver algo. Então algumas faixas foram geradas assim.
O trompete é meu amigo e meu inimigo; sempre que crio uma melodia nele, eu o trato como — em inglês dizemos frenemy [amigo-inimigo], certo? — trato o trompete como meu frenemy. Uma dessas melodias o Mike [Kinsella] escreveu para mim, mas no “meu estilo”, e foi impressionante. Eu pensei: “Meu Deus, é exatamente o que eu teria tocado”. No final da música chamada Wake Her Up, ele escreveu aquela melodia e eu fiquei tipo… foi estranho ter algo escrito por outra pessoa que fosse tão certeiro. Mas a primeira música, a do meio chamada Patron Saint of Pale e a última são especiais para mim, porque todas vieram de levadas de bateria que eu tinha guardadas há muito tempo. No fim, acho que só queremos criar coisas interessantes; se as acharmos interessantes, esperamos que pareçam sinceras para as outras pessoas.
Trabalhar com o produtor DiPerri trouxe um som mais encorpado, mais “carnudo” para o álbum. De quais formas a colaboração dele influenciou a maneira como você estruturou as camadas rítmicas desta vez?
Puxa, outra ótima pergunta. Eu não conhecia o Sonny. O Mike e o Nate conheceram o Sonny quando eu saí do American Football por um tempo para lidar com outras coisas. Eles o conheceram para trabalhar no disco do Lies [projeto paralelo]. Então o Mike e o Nate fizeram um disco juntos, em dupla. E quando voltamos, eles disseram: “Ei, ele é ótimo, né? É muito fácil trabalhar com ele”. E eu não o conhecia. No fim das contas, ele trabalhou em discos que eu conhecia, só não sabia que era ele.
É difícil expressar o quanto gostei de trabalhar com ele. Ele também é baterista e está muito interessado, durante a gravação, em takes que soem autênticos. Mesmo que não sejam perfeitos, há alguns erros neste disco. Eu os ouço e penso: “Ah, cara…”. Mas foram erros que, espero, façam parte de algo maior; eu não quis descartar a performance.
Tudo pareceu muito… esse foi o disco que mais pareceu com o primeiríssimo álbum, talvez até melhor que o primeiro no sentido de que me senti muito confiante. Me senti bem com o que estava fazendo, me senti pronto para gravar. E acho que isso transparece.
Eu amo este disco, talvez seja o meu favorito. E espero que as pessoas gostem. Elas têm todo o direito de não gostar, eu entendo. Mas já disse isso antes: se alguém pedisse “ei, me toque uma coisa que represente quem você acha que é como baterista”, eu daria este disco com certeza. Porque acho que este soa mais autêntico em relação a quem eu sou no momento.
Talvez pela maturidade que você construiu na sua carreira.
Espero que sim. E disse ao Sonny também: senti que, depois que saí, tinha perdido um pouco da confiança. Não me sentia eu mesmo atrás da bateria. E acho que ele foi muito encorajador. Foi muito significativo para mim ele dizer: “Ei, apenas confie em si mesmo, não fique preso dentro da sua própria cabeça”. Às vezes eu ficava frustrado e ele dizia: “Ei, vá fazer uma pausa”.
Estávamos perto do oceano. Eu estava contando para a última pessoa com quem falei: estávamos em um estúdio com vista para uma baía linda. Então eu podia sempre descer de manhã e colocar os pés nas ondas. Eu não moro perto da água; moro em Denver, que fica a mil milhas de qualquer oceano. Não vou esquecer isso tão cedo. Foi muito bom sentir um pouco de confiança e pensar: “tudo bem ser mais velho e experiente, né? Maduro”.
Experiente.
Isso, exatamente.
Wake Her Up está sendo descrita como uma das músicas mais pop da carreira do American Football. Como foi a experiência de equilibrar compassos complexos e o estilo math rock clássico do American Football com algo tão direto e melódico?
Fico feliz que você tenha mencionado essa. Eu amo essa música. Sinto que ela é uma carta de amor ao The Cure e ao The Smiths, especialmente. Acho que todos na banda, mas o Mike e o Steve [Holmes] em particular, são superfãs de Smiths.
O barato ali foi tentar criar algo que fosse cativante, porque o Smiths e o Cure escrevem músicas que grudam. São divertidas, interessantes, estranhas e tristes, mas são boas. E eu gosto dela como um contraponto às músicas mais estranhas, como aquela primeira faixa que mencionei com baterias peculiares; traz variedade. Não queríamos que o disco todo fosse aquela coisa desorientadora, mas as músicas acabaram sendo assim. Amo essa faixa como um momento de alívio.
Mas ela também é sombria, as letras são bem densas e poéticas. Então, novamente, acho que é como Cure ou Smiths: uma melodia pop, mas com letras que te fazem pensar “hum, tem muita coisa acontecendo aqui”. Obrigado por perguntar dessa.
Imagina. Ela tem muitas camadas.
Sim, concordo totalmente.
O álbum traz vários convidados, desde o Brendan Yates (Turnstile) até a Wisp. Como baterista, como você adaptou seu estilo para dialogar com essas vozes e energias distintas em cada faixa?
Vou ser honesto com você: minhas faixas foram gravadas primeiro. Então, essas pessoas que foram generosas o suficiente para se juntar a nós é que tiveram que lidar com o que já estava lá. Estou sendo sincero! Mas diria que os caras, quando convidam alguém, convidam com uma ideia específica do que a pessoa vai trazer.
A Beth [Orton], nós conhecemos há 30, talvez 35 anos. Acho que o Mike e o Nate a convidaram tipo: “queremos que você faça a sua coisa, o que você faz de melhor combina com essa personagem”. Eu não acho que nenhum de nós conhecia a Wisp pessoalmente, mas o Sonny tinha trabalhado com ela, e a voz da Natalie é tão icônica e interessante. Foi a mesma coisa: “ei, o que você faz, apenas faça”. E de alguma forma isso nos ensina.
Sinto que, nesta banda em particular, as músicas nos ensinam ou nos dizem o que querem às vezes. E o Brendan, como eu disse antes, tem uma voz única. Ele disse “estou por perto, vou aí”. E eles deixaram ele fazer o que queria. E não só deixaram, como ficou um milhão de vezes melhor. Soa totalmente como ele de um jeito que acho que não tínhamos visualizado. É sobre convidar as pessoas certas e confiar nelas.
A Hayley [Williams] no disco passado foi assim… ela fez acho que um take e foi perfeito. Trazer as pessoas e dizer “por favor, faça o que você faz”. E de alguma forma a música se torna todos nós juntos. Acho que essa é a melhor resposta.
Recentemente houve uma listening party global do LP4 que incluiu o Brasil. Você acompanhou o feedback dos fãs brasileiros? O quanto esse entusiasmo de um país tão distante influencia a sua percepção do alcance da American Football hoje?
Eu não vi muito o feedback sobre o evento na América do Sul, para ser sincero. Mas eu direi, e disse isso a outro entrevistador hoje, que a América do Sul em geral, e o Brasil em particular, é uma magia para nós. Quando temos a sorte de visitar, espero que possamos voltar, porque o entusiasmo é palpável.
É difícil colocar em palavras. Você precisa entender o quão velha é parte dessa música. Essa música é mais velha que muitos dos fãs e foi criada no meio do nada, em uma cidadezinha minúscula em Illinois, uma “nada-ville”, sabe? E a ideia de que ela percorreu milhares de quilômetros pelo mundo até pessoas muito mais jovens é fascinante, doce e nos deixa humildes.
É uma honra fazer parte da música e ver que ela é maior do que qualquer pessoa ou banda. Espero que, quando pudermos tocar para vocês, isso transpareça: estamos honrados de estar lá. Mal posso esperar para voltar, porque é mágico aí embaixo.
E o material de imprensa menciona novas datas para a “No Feeling World Tour”. O que você pode nos dizer sobre negociações ou o desejo da American Football de finalmente trazer esse novo show ao Brasil?
Não posso dizer nada sobre a América do Sul ainda porque não sei de nada, mas posso dizer que, na primeira oportunidade, nós iremos. Como eu disse, é muito especial para nós. Estivemos em São Paulo da última vez, mas gostaria de ir a várias cidades, justamente porque foi uma experiência tão emocionante. Estou ansioso por isso.
Sim, você vai se surpreender com o quanto as cidades são diferentes.
Eu adoraria. Adoraria passar um tempo de verdade aí. Espero que possamos fazer acontecer.