A histórica banda punk The Varukers desembarcou novamente no Brasil para uma extensa sequência de shows ao lado da banda paulista Asfixia Social. Formado em 1979, na cidade inglesa de Leamington Spa, o grupo liderado por Anthony “Rat” Martin se consolidou como um dos nomes fundamentais do D-beat e do hardcore punk mundial, influenciando gerações de bandas extremas ao redor do planeta. A nova passagem pela América do Sul reforça uma relação antiga da banda com o público brasileiro, que acompanha o Varukers desde as primeiras visitas ao país nos anos 2000.
A atual turnê brasileira também celebra a conexão criada entre o Varukers e o Asfixia Social nos últimos anos. Depois de dividir palcos no Brasil em 2024 e realizar apresentações conjuntas na Inglaterra, as bandas agora seguem juntas em dez datas pelo país, incluindo festivais como Goiânia Noise, Punk no Park e Punk in Rio. O Varukers mantém viva a essência do punk britânico surgido no fim dos anos 1970, carregando letras sobre guerra, desigualdade, manipulação política e violência social, temas que seguem presentes quase cinco décadas depois da formação da banda.
A agenda da turnê segue nesta terça (12) em Uberlândia, depois gira por Patos de Minas, Divinópolis, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e finaliza em São José dos Campos no domingo (17). Conhecida pela intensidade ao vivo e pela relação próxima com o público sul-americano, a banda retorna ao Brasil em um momento de renovação do interesse global pelo hardcore punk e pelas discussões políticas presentes no gênero desde sua origem.
Em entrevista ao Blog N’ Roll, os integrantes Biff e Rat falam sobre o início da cena punk inglesa, a conexão com pessoas reais para enfrentar a alienação e o carinho que eles têm pelo Brasil.

Como era a cena punk britânica no começo do Varukers?
Biff – Para falar a verdade, para nós nem existia uma cena ainda, porque éramos só crianças. Descobrimos bandas como Sex Pistols, The Damned e The Rats e ficamos completamente inspirados por aquilo. O grande lance do punk naquela época era essa sensação de “a gente consegue fazer isso também”. Então começamos a tentar. Aos poucos fomos nos organizando, mas não tínhamos ideia do que estávamos fazendo. Não existia internet, não existia manual para aprender. Era tudo muito DIY. Organizávamos pequenos shows, tocávamos uns para os outros e aquilo foi crescendo naturalmente. Foi um período extremamente criativo.
Quando vocês perceberam que estavam criando algo importante dentro do punk?
Biff – Demorou bastante. Acho que uns seis anos. E isso é legal porque foi um processo lento. Éramos quatro garotos de Warwick, uma cidade pequena do interior da Inglaterra, lançando discos independentes e fazendo shows. De repente começaram a chegar cartas de lugares que eu nunca tinha ouvido falar. Pessoas dizendo “comprei o compacto de vocês”, “troquei um disco e adorei a banda”. Aquilo foi surreal para nós. E então continuamos tocando, lançando discos, viajando, e percebemos que influenciávamos outras bandas. Isso é algo muito especial.
O Brasil tem uma cena punk também muito rica e vocês já vêm ao país há mais de duas décadas. O que vocês conhecem sobre as bandas brasileiras clássicas?
Rat – Tocamos com o Cólera em Londres há um ou dois anos e foi incrível. Também gostamos muito do Ratos de Porão. São bandas fantásticas. O Brasil sempre teve grupos muito fortes, com identidade própria, mostrando ao mundo o jeito brasileiro de fazer punk e hardcore. Nós adoramos isso.
O que diferencia o público brasileiro do europeu?
Biff – O público sul-americano em geral é mais apaixonado, mais “louco” no melhor sentido possível. As pessoas vivem aquilo de coração. É algo honesto e verdadeiro. Acho que eles percebem isso em nós também. Entendem que somos pessoas reais, pé no chão, honestas no que falamos e fazemos.
Rat – Se estivéssemos enganando as pessoas, elas não nos apoiariam por tantos anos. Não são idiotas. Existe uma relação muito importante entre banda e público. Sem as pessoas, a música não significa nada. Quando alguém coloca um disco do Varukers para ouvir e sente aquela agressividade e aquela raiva, quero que a pessoa sinta exatamente o que eu senti quando gravei aquilo.
Você lembra dos shows antigos em Santos?
Rat – Lembro sim. Foi um ótimo período. O Boca (baterista do Ratos de Porão) levou a gente para a praia depois do show, no dia seguinte. Tenho lembranças muito boas de Santos. Foi uma experiência incrível.
Depois de quase cinco décadas, o que mantém o espírito do Varukers vivo?
Rat – Eu (risos). Porque isso é quem nós somos. Somos pessoas normais, honestas, e fazemos isso há tanto tempo que virou parte da nossa vida. O Varukers existe há 47 anos. Está plantado no nosso cérebro, no coração e na alma. Provavelmente vamos continuar tocando até cairmos mortos em um palco ou em algum aeroporto por aí.
Você acredita que a mensagem punk ainda consegue ser transmitida em um mundo cada vez mais digital e capitalista?
Biff – Hoje isso é mais importante do que nunca. Existe uma diferença enorme entre a informação que a mídia entrega e a realidade. Quando viajamos e conversamos diretamente com pessoas reais em outros países, compartilhamos experiências verdadeiras. Não é propaganda. Não é a visão manipulada que muitos governos e meios de comunicação empurram para as pessoas.
Rat – Atualmente isso ficou tão descarado que eles nem tentam mais esconder. Estamos vivendo uma era de excesso de informação e desinformação ao mesmo tempo. Por isso é tão importante as pessoas se reunirem, conversarem entre si e trocarem experiências reais.
Vocês imaginavam que as letras do Varukers continuariam atuais quase 50 anos depois?
Rat – Isso me choca. Nunca achei que iria mudar o mundo. Sou apenas um punk raivoso que observa as coisas e grita sobre elas através das músicas. As letras do Varukers sempre foram simples e diretas, mas tentando atingir as pessoas. Temos uma música chamada “Nothing’s Changed” e ela nunca foi tão atual. O mundo ficou mais perigoso. Achei que a humanidade aprenderia alguma coisa depois de tantas guerras e tragédias, mas parece que tudo ficou ainda mais insano. Enquanto existir ganância, sempre existirão guerras, conflitos e injustiças.
Como vocês enxergam o crescimento da extrema-direita e do fascismo nos últimos anos?
Rat – Nós vamos continuar combatendo isso da mesma forma que sempre fizemos. Não damos voz para esse tipo de pensamento. Viajar pelo mundo nos ensinou que as pessoas são iguais em qualquer lugar. Todo mundo enfrenta dificuldades parecidas. O problema são essas pessoas fechadas em suas bolhas, julgando tudo sem conhecer nada. A única maneira de enfrentar isso é se conectando com pessoas reais, saindo pelo mundo, conversando e entendendo diferentes realidades. Todo esse discurso de extrema-direita é uma grande bobagem. Nunca vamos concordar com racismo ou qualquer forma de injustiça. O punk nunca deveria esquecer disso.
Existe alguma banda que abriu shows do Varukers e depois se tornou enorme?
Biff – Em janeiro fizemos uma turnê com o Napalm Death na Europa, e eles são um ótimo exemplo. Muitos anos atrás eles abriam shows do Varukers em lugares como o Mermaid, em Birmingham. Quando você está na estrada por tanto tempo, acaba vendo seus contemporâneos crescerem também. E isso é muito legal. Nós adoramos ver outras bandas conquistando espaço. Não existe ego nisso. Só queremos fazer o melhor show possível e ver todo mundo aproveitando a experiência.