O SOJA lança em 31 de julho o aguardado álbum Without Surrender, primeiro trabalho de estúdio do grupo norte-americano desde Beauty in the Silence, vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Reggae em 2022. Com 14 faixas, o disco inclui “Time Won’t Wait”, parceria com Di Ferrero, vocalista do NX Zero. Lançada como single em 10 de julho, a música aproxima o reggae melódico da banda do universo do rock e do emo brasileiro, enquanto reflete sobre a velocidade do tempo e a necessidade de aproveitar o presente.
Formado em 1997, na região de Washington, D.C., o SOJA construiu uma trajetória marcada pela combinação entre reggae, rock e letras sobre questões sociais, ambientais e espirituais. Liderada pelo vocalista e guitarrista Jacob Hemphill, a banda alcançou projeção internacional com discos como Peace in a Time of War, Born in Babylon, Strength to Survive e Amid the Noise and Haste. O grupo também desenvolveu uma relação especial com o público brasileiro, onde já realizou quase 40 apresentações. No entanto, eles não tocam no país desde outubro de 2022, hiato que chegará a quatro anos em 2026.
Em sua terceira entrevista com o Blog N’ Roll, Jacob Hemphill falou com carinho sobre a relação do SOJA com o Brasil e confirmou que a banda pretende retornar ao país para a nova turnê. O vocalista também surpreendeu ao revelar sua paixão por bandas de emo e explicou como o gênero influenciou sua tentativa de tornar o reggae mais acessível a diferentes públicos. Hemphill ainda destacou a importância do poema Desiderata, apresentado a ele por seu pai e responsável por mudar sua maneira de enxergar o mundo, além de inspirar os títulos de diferentes álbuns do SOJA.
O que mudou na vida de vocês depois da conquista do Grammy? Esse reconhecimento influenciou a maneira como vocês trabalharam no novo álbum?
Não. Acho que a questão de ganhar um Grammy é que, na sua mente, você não ganhou um Grammy. Na música, a cada novo nível que você alcança, pensa: “Caramba, preciso mudar tudo. Agora estou nesse nível”. O segredo é perceber que você não pode mudar absolutamente nada.
Já se passaram cinco anos desde Beauty in the Silence. Em que momento você percebeu que era hora de começar a construir um novo álbum? O que mudou no SOJA durante esse período, que também foi marcado pela pandemia?
Sinceramente, estou escrevendo o tempo todo. Estava escrevendo hoje de manhã. Para mim, música não é: “Agora vou fazer um novo álbum”. A música simplesmente faz parte do meu dia. Quando gosto muito de uma composição, eu a levo para o SOJA e digo: “Aqui está uma música”.
Nunca escrevo com o objetivo de fazer um álbum, um videoclipe, ganhar um Grammy, alcançar determinada quantidade de streams ou visualizações. Eu simplesmente gosto de fazer música.
Vocês costumam fazer muitas colaborações nos álbuns. Isso também faz parte de uma estratégia para alcançar novos públicos ou é algo que vocês realmente consideram importante para o processo de composição e para a música?
Não fazemos isso por estratégia. A resposta é semelhante à anterior: fazemos o que consideramos melhor para a música.
Tenho uma música no novo álbum chamada “Did I Wait Too Long?”. É uma composição triste sobre um homem ou uma mulher que tratava a outra pessoa como algo garantido, porque já estava cansado da relação. Enquanto isso, outra pessoa conseguiu enxergar as qualidades que existiam nela.
Quando essa pessoa vai embora, você finalmente percebe todas as qualidades que ela tinha. Começamos a colocar algumas influências de country na faixa porque era uma história triste, sobre perder algo e nunca mais conseguir recuperar.
Maoli é um artista que mistura reggae e country. Mandamos a música para ele e perguntamos o que achava. Ele respondeu: “Adorei, já tenho uma ideia”.
É assim que o processo normalmente funciona. Quando conseguimos imaginar a voz ou as palavras de alguém em uma música, entramos em contato com essa pessoa.
O SOJA possui uma forte conexão com o Brasil e já colaborou com Marcelo Falcão e Natiruts. Agora vocês trabalham com Di Ferrero, artista muito ligado ao emo e ao rock. Como surgiu esse convite e como vocês o conheceram?
Não fui eu quem fez o convite. Pat O’Shea, nosso tecladista, escreveu a música. Então foram Pat e nosso empresário, Elliott, que conversaram diretamente com o Di. Mas fiquei muito animado porque cresci ouvindo muito emo. Posso até mostrar alguns discos para você. Faça a próxima pergunta que estou te ouvindo, vou separar alguns discos.
Nesse momento, Jacob mostra cerca de dez discos em vinil, incluindo Bleed America do Jimmy Eat World, From Under the Cork Tree do Fall Out Boy e o álbum homônimo do Portishead.
“Time Won’t Wait” fala sobre como o tempo passa rapidamente. Por coincidência, o último álbum de Di Ferrero também aborda o tempo, mais especificamente os ciclos que as pessoas atravessam a cada sete anos. Vocês sabiam dessa conexão?
Acho que foi uma coincidência muito feliz, mas não existia uma conexão planejada. Eu ouço muita música. O emo teve um papel muito importante na maneira como passei a enxergar o reggae, porque aquelas bandas pegaram o punk e o transformaram em algo que poderia chegar às massas.
Era isso que eu tentava fazer com o reggae desde o começo: torná-lo mais acessível, para que a mensagem pudesse alcançar mais pessoas. A mensagem do reggae realmente mudou minha vida. Acho que estou apenas tentando levá-la para mais pessoas.
O título Without Surrender é uma nova referência ao poema Desiderata, especialmente ao trecho “as far as possible, without surrender”?
Sim, com certeza. É o que uso para nomear todos os discos. Era algo que eu compartilhava com meu pai. Foi ele quem me ensinou a tocar e a escrever músicas. Quando fiquei bom o suficiente, ele começou a procurar professores para mim, tanto de guitarra quanto de escrita.
Desiderata era um poema que eu e meu pai compartilhávamos o tempo todo. Por isso, passei a usar versos do poema nos títulos dos discos. Quem nunca leu deveria procurar. É basicamente o segredo da vida apresentado em cerca de 60 segundos.
Ele fala sobre caminhar pacificamente em meio ao barulho e à pressa e lembrar da paz que pode existir no silêncio. Também diz para, na medida do possível e sem se render, manter boas relações com todas as pessoas.
Estou parafraseando, mas ele também fala sobre escutar até mesmo os ignorantes, porque eles também possuem suas histórias, e sobre evitar pessoas barulhentas e agressivas, porque elas são perturbações para o espírito. São várias regras para a vida.
Without Surrender é uma expressão de Desiderata, mas o álbum também fala sobre a Terra, nossa mãe, e sobre como ela está ficando mais quente, mais fria, mais seca e enfrentando tantas mudanças.
Nós estamos matando a Terra. Ela precisa pensar em todas as plantas, em todos os animais, nos pássaros, nos peixes e até nos meus cachorros. Ela não pode simplesmente ficar sentada pensando apenas em mim.
Eu já faço isso muito bem sozinho. Tudo o que faço é ficar sentado pensando em mim mesmo, porque sou humano.
Podemos dizer que Without Surrender completa uma série inspirada pelo poema? Amid the Noise and Haste começa com a ideia de viver em meio ao barulho e à pressa, Beauty in the Silence fala sobre encontrar beleza e paz no silêncio e agora Without Surrender apresenta a ideia de buscar a paz sem abrir mão de si mesmo. Esse ciclo está sendo encerrado ou ainda há mais do poema por vir?
Enquanto eu estiver vivo, haverá mais por vir. E quando eu morrer, eles poderão começar a publicar todas as coisas que ainda não foram lançadas.
O SOJA já realizou quase 40 shows no Brasil. De acordo com meu levantamento, é o país onde vocês mais tocaram fora dos Estados Unidos. Como você enxerga essa conexão tão profunda com o público brasileiro?
Acho que o Brasil vive um período de sua história em que a revolução é muito importante. As pessoas não confiam realmente no governo ou nos líderes.
Elas também não confiam necessariamente que o trabalho que realizam seja respeitado ou reconhecido. É justamente sobre isso que a música reggae fala. O reggae é sobre mudança.
Também é sobre a condição e a experiência humanas, sobre tudo o que enfrentamos nesta vida e como podemos tornar essa experiência melhor. Podemos enxergar mais semelhanças e menos diferenças quando olhamos da maneira correta.
Existe algum show ou momento específico das passagens do SOJA pelo Brasil que tenha se tornado especialmente marcante para a banda?
Existem muitos momentos. Eu estava nos bastidores da Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, quando soube que havia sido indicado ao Grammy.
Também estava no Brasil quando um amigo meu quase morreu. Foi no Brasil que pulei de um palco pela primeira vez e também quando saltei de um palco com cerca de seis metros de altura.
O maior público para o qual já tocamos fora de um festival foi de aproximadamente 11 mil pessoas, em Fortaleza.
O Brasil foi o cenário de muitas primeiras vezes para nós. Quando olho para trás e penso por que tantas coisas aconteceram no Brasil, acredito que seja porque o país está no meio de uma revolução há algum tempo. Por isso, o reggae é um gênero muito verdadeiro para os brasileiros.
Com um novo álbum, o SOJA pretende retornar ao Brasil? Podemos esperar uma nova turnê pelo país?
Sim, estamos voltando ao Brasil. É um dos nossos lugares favoritos no mundo para tocar.
Também é por isso que gravamos tantos videoclipes no país. Gravamos “Everything Changes” lá e também o vídeo com Damian. Sempre gostamos de gravar no Brasil por causa das pessoas e do público.
Depois de tantas visitas ao Brasil, existe algum artista brasileiro com quem você ainda gostaria de gravar ou dividir o palco?
Paulo Coelho. Caso ele veja esta entrevista: “Paulo, precisamos fazer uma música juntos, amigo”.
Ele talvez seja meu escritor favorito. Certamente está entre os meus três autores preferidos. Leio todos os livros dele. Acho que já li O Alquimista umas 20 vezes.