CHRIS RITCHIE
Você já se perguntou por que escuta a música que escuta? Ou por que acredita no que acredita? Neste artigo, não vamos discutir gosto musical, religião ou estilo de vida, mas consciência de classe e dignidade para todos, o fulcro da mensagem do hardcore.
Ao refletir sobre a evolução e o papel da música popular hoje, quando a polarização das opiniões e o poder dos tecnocratas na aniquilação do pensamento crítico é tão evidente quanto indesejável a quem preza a capacidade cognitiva humana e a justiça social, me perguntei por que a clara e objetiva mensagem política do hardcore tem um alcance limitado aos fãs do gênero, sem chegar à maioria dos oprimidos que, conhecendo-a, poderiam compreender melhor sua condição de existência, aprender a reivindicar seus direitos constitucionais e votar em candidatos com competência e planejamento para garanti-los; também me perguntei como a potência de manifesto antissistema do hardcore pode ser subjugada por gêneros que comunicam quase que somente platitudes, submissão ou lascívia, gêneros a que, independente de gosto ou escolha, em uma espécie de tirania sonora, estamos expostos em salas de espera, supermercados, bares, transportes, passeios etc. ou dentro de casa, a depender dos vizinhos. O que está por trás do alcance de massa e aceitação de gêneros musicais como o sertanejo universitário, o gospel neopentecostal e o funk proibidão, por exemplo, em detrimento do hardcore? Ou da música clássica, que se aprofunda nas emoções e, portanto, seria um meio para a autopercepção? Ou mesmo do glorioso samba, esse gênero que contém a alma brasileira?
Quem já pensou a respeito do assunto poderia concluir que a resposta está na própria pergunta: o princípio do pão e circo para controle da população, que destitui a complexidade humana com a premissa de que basta não passar fome e estar se divertindo para aceitar e/ou defender a autoridade que governa sua vida, não importando a qualidade desse poder. Ou seja, o que está por trás do produto massificado é o que interessa a quem domina a indústria cultural, os meios de comunicação, hoje majoritariamente tecnológica, e os meios de produção para conservar e aumentar seu lucro e seu poder. E, para tanto, é necessário manter a população acrítica, anestesiada, desmobilizada, individualizada, obediente a estímulos controladores e ignorante de sua força como maioria, por exemplo, quando não existe negociação ou o diálogo falha, na organização de um boicote a um serviço, um produto ou um governo. Sobre esse poder, Patti Smith canta, desde 1988, People have the power to redeem the work of fools (O povo tem o poder para se redimir da ação dos idiotas).
Para responder às perguntas aqui colocadas, é possível argumentar que o hardcore, com sua bateria em bombardeio, as guitarras rasgadas e os vocais gritados ou guturais, afastaria quem busca paz de espírito. Este, porém, é o ponto nevrálgico da música hardcore: se nem os monges do Tibet conseguem ficar zen diante do poder que esmaga sua cultura, como você vai encontrar paz em meio ao abuso e à injustiça de um sistema que promove manobras para favorecer uma elite econômica que, por sua vez, apoia esse sistema desde que o Brasil é um país? Para ilustrar a impossibilidade de se alcançar essa paz, segue um trecho do poema em prosa de Marcelino Freire, cuja apresentação por uma Naruna Costa revoltada é consoante com a voz do hardcore:
“A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Taí uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.”
A paz referida no poema é a paz de cemitério, a paz que persegue, pune e mata quem não se adequa ao sistema instalado. Já a paz da justiça se faz com enfrentamento embasado, com reflexão crítica, com estudo e preparo, onde a palavra é uma arma potente de destruição do sistema opressor, portanto, a música que se propõe a acompanhá-la deve ser um arsenal – sem espaço para suavidade, a não ser por ironia ou sarcasmo. O hardcore é sinônimo de protesto, denuncia os esquemas, conclama à revolta e à reflexão, escancara todo tipo de manipulação. Não existe eufemismo no hardcore, ele é brutalmente sincero ao expor os abusos e apresentar as soluções para que cessem: uma atitude ética firme e consistente.
Em Mídia, música de abertura do álbum 400% (1995), a banda Sociedade Armada avisa:
A mídia é o veículo de divulgação de regras que a sociedade te obriga a seguir. Se você quer ser famoso, estrelinha do sistema, terá que se vender se quiser subir. Por isso nós gritamos: cuidado com a mídia, por isso somos livres, no agir e no pensar. Por isso nós gritamos: cuidado com a mídia. Tocar é nossa forma de protestar. Cuidado com a mídia, não se deixe influenciar. Cuidado com a mídia, eles querem te enganar.
Enquanto Dead Fish dá o recado sobre A Inevitável Mudança:
A narrativa vinda do colonizador tingiu de branco nossa história e sem escrúpulo omitiu e apagou o outro lado da moeda, mas cada dia mais janelas vão se abrir e a diversidade vai brilhar ao Sol (…) Do ponto cego da história brotam vozes de resistência e de luta . Quando o oprimido finalmente se expressa o resto, [a gente] cala e escuta, tirando aqueles que nunca querem ouvir, fecham os olhos e sonham com aquilo que nunca mais será.
Do mesmo modo, no Riot Grrrl, movimento dos anos 1990, a raiva, esse sentimento genuíno de alerta quando nossos limites são desrespeitados, na voz de Kathleen Hanna do Bikini Kill ou Corin Tucker do Heavens to Betsy, também traduz a revolta das mulheres que denunciam e não aceitam padrões comportamentais e estéticos do patriarcado. Leslie Gore mostrou sua assertividade com You don’t own me na TV (1964), abrindo caminho para a expressão da raiva contra a violência e os controles que o patriarcado insiste em despejar sobre as mulheres. Embora leis de proteção e cotas venham sendo criadas, a violência persiste e se reinventa, dos deepfakes à sofisticação de estratégias para o tráfico humano, e jovens como Sofia Isella, Die Spitz, The Mönic, Wet Leg, Amyl and the Snifers, entre outras, seguem cantando com a raiva e a assertividade necessárias à sobrevivência e à plenitude do feminino, denunciado objetificação, controle ou reivindicando espaço. A seguir, um trecho de Lobotomia, de The Mönic:
Vão te medicar dentro da caixa. Como vai pensar com lobotomia? É distopia e você de gola rolê. Não dá mais. Lá vem (não dá mais) você (pra domesticar) cobrando por um mundo justo (pra domesticar) desde que não seja aos seus custos. Dói demais perceber, não ter paz, entender dói demais, não ter, já nascemos pra perder.
Dos primórdios da música, surge uma reflexão atual
A música é uma prática humana primeva de coletividade, não necessariamente ritualística, supõe-se que tenha começado como uma manifestação pelo prazer de mover o corpo coletivamente em um só ritmo, um só pulso, o prazer de ser parte de um conjunto – o prazer de pertencer entre iguais. Embora a flauta de ossos seja o mais antigo instrumento musical rastreável paleontologicamente, os instrumentos de percussão são anteriores, não precisavam ser talhados – eram qualquer coisa que pudesse marcar uma cadência: pedras, troncos ocos, o próprio corpo.
Embora a evolução de ambas seja paralela e interdependente, a expressão musical é anterior à linguagem verbal, era somente ritmo, uma cadência monótona, previsível e, como o coração que escutamos desde o ventre materno, indicadora de que estamos conectados a e somos afetados por um corpo, um sistema, ou uma força exterior, maior e mais potente que o indivíduo isolado; a prática de uma atividade coletiva e simultânea reúne os corpos em um conjunto, gerando conforto. Somos permeáveis ao som e a partir dele nosso corpo produz respostas imediatas. Esse primórdio essencialmente mundano da música e da dança, com a evolução do pensamento humano junto ao avanço da linguagem verbal, foi ampliado em complexidade, sofisticação e variedade a ponto de hoje poder conferir um perfil de crença, personalidade e estilo de vida de um indivíduo a partir de suas preferências musicais.
A segmentação em grupos conforme gêneros de música se origina com a estratificação da sociedade, quando o acesso à música, que acompanhava a evolução social, se tornou quase que exclusivo às cortes, aos exércitos e às igrejas, elitizando-a, tornando-a um instrumento de poder e status social, e a capacidade de compor ou tocá-la um negócio. Nesse sentido, o papel dos artistas de rua, sem vínculo com os poderes, artistas independentes que se apresentavam fora dos espaços controlados, vai além do entretenimento e da ostentação de poder, são eles que, como a religião, o exército e o governo, mantém o tecido social entre as classes minimante coeso, mas, diferente deles, que o exercem pela força do dogma, ordem ou lei, a conexão se estabelece pelo prazer ancestral coletivo entre os iguais. Há de um lado o ímpeto do artista em se realizar, sem amarras, sem censura; do outro a carência de voz participativa do povo que o assiste, muitas vezes incauto da própria necessidade. Essa combinação de elementos torna a realização artística independente provocadora, incômoda e essencial ao questionamento da realidade.
Por isso você deve saber por que e como a música que você escuta chegou aos seus ouvidos, o que ela quer que você acredite, como ela espera que você se vista, dance ou se comporte. Por fim, pergunte-se quem se beneficia direta, objetiva e materialmente com a música que você consome e o modo de vida a ela atrelado. Você deseja conceder-lhes esse privilégio?
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Playlist das músicas e bandas citadas
You don’t own me – Lesley Gore (1964)
People have the power – Patti Smith (1988)
Rebel girl – Bikini Kill (1992)
Stay Away – Heavens to Betsy (1994)
Mídia – Sociedade Armada (1995)
Inevitável Mudança – Dead Fish (2019)
Guided by Angels – Amyl and the Snifers (2021)
Above the neck – Sofia Isella (2024)
Lobotomia – The Mönic (2025)
Hair of Dog – Die Spitz (2025)
Catch these fists – Wet Leg (2025)
Referências
- Ódio à música, Pascal Quignard, editora Rocco, 1999
- Dialética do esclarecimento, Teo Adorno e Max Horkheimer, 1947 ADORNO, Theodor Dialética Do Esclarecimento (livro) : Samara Minsk : Free Download, Borrow, and Streaming : Internet Archive