A Nova Twins viveu uma passagem histórica pelo Brasil no último fim de semana. Na sexta-feira (4), Amy Love e Georgia South abriram o Palco Mundo do Rock in Rio 2026, encarando a difícil missão de iniciar a programação do maior palco do festival. A dupla britânica apostou na intensidade de seu rock pesado e conseguiu movimentar principalmente quem estava próximo à grade, onde chegou a se formar uma roda de mosh.
Formada em Londres em 2014, a Nova Twins é composta pela vocalista e guitarrista Amy Love e pela baixista Georgia South, amigas desde a adolescência. A trajetória ganhou força com “Who Are the Girls?”, de 2020, mas foi “Supernova”, lançado dois anos depois, que colocou definitivamente a dupla entre os principais nomes da nova geração do rock britânico. O disco foi indicado ao Mercury Prize e rendeu duas nomeações ao BRIT Awards. Desde então, Amy e Georgia passaram por turnês com nomes como Muse, Evanescence e Foo Fighters e chegaram ao terceiro álbum, “Parasites & Butterflies”, em 2025, trabalho produzido por Rich Costey que levou a banda ao primeiro lugar da parada britânica de álbuns de rock e metal.
Dois dias depois do Rock in Rio, a Nova Twins seguiu para São Paulo e viveu uma situação completamente diferente no Cine Joia. Como atração principal do É Tudo Delas, que também recebeu The Mönic e MC Taya, a dupla realizou seu primeiro show como headliner no Brasil e na América do Sul. A proximidade da casa permitiu enxergar melhor uma das características mais impressionantes da banda: a decisão de reproduzir ao vivo boa parte das texturas eletrônicas presentes nas músicas, especialmente por meio da extensa cadeia de pedais utilizada por Georgia no baixo. Enquanto ela transforma o instrumento em fonte de graves, distorções e efeitos que por vezes ocupam até o espaço da guitarra, Amy alterna vocais limpos, rap, voz de cabeça e screams com precisão, carisma e uma presença de palco que ajuda a explicar por que a Nova Twins avançou tão rapidamente dos clubes para alguns dos maiores palcos do rock mundial.
Antes da apresentação explosiva, Amy e Georgia conversaram com o Blog N’ Roll no Cine Joia.
Há seis anos, vocês criaram o Voices for the Unheard, que também teve um papel importante na criação do Alternative Music Awards e do MBO. Como esse projeto começou e qual é a importância de usar a plataforma da Nova Twins para lutar e abrir portas para outros artistas?
Georgia South: Começamos o Voices for the Unheard durante a pandemia, quando o movimento Black Lives Matter ganhou força. Naquele momento, estávamos nos sentindo muito impotentes e pensamos que uma maneira de tentar fazer alguma diferença seria dentro da nossa própria comunidade, no mundo da música. Então decidimos criar uma playlist.
Encontramos muitos artistas alternativos incríveis ao redor do mundo, começamos a entrevistá-los no Instagram e conversávamos sobre suas experiências dentro do rock. Foi incrível ouvir o que pessoas de países completamente diferentes estavam vivendo. Todo mundo se identificava com as experiências dos outros e compartilhava dificuldades semelhantes por ser uma pessoa preta fazendo música pesada dentro da indústria.
Foi muito importante poder conversar, compartilhar essas experiências e divulgar essas músicas. Nosso público e o público desses artistas começaram a descobrir novas bandas. Depois de algum tempo, sentimos que queríamos expandir o Voices for the Unheard e torná-lo ainda maior.
Uma coisa que me impressionou ao assistir vocês ao vivo é a quantidade de sons eletrônicos que, na verdade, vem da guitarra e do baixo. Como vocês desenvolveram essa combinação de pedais e efeitos para criar todos esses sons organicamente no palco?
Georgia South: Para mim, começou simplesmente indo a uma loja de instrumentos em Londres. Existe uma rua famosa chamada Denmark Street, onde há várias lojas de guitarras, pedais e todo tipo de equipamento. Eu ia até lá e experimentava os pedais sem saber exatamente o que encontraria.
Com o tempo, você começa a criar uma coleção e aquilo se transforma em uma espécie de laboratório. Gostamos da ideia de fazer tudo manualmente ao vivo. Não temos guitarras ou baixos gravados em backing tracks durante o show, então tudo o que você ouve desses instrumentos está vindo dos nossos pedais.
Às vezes, as coisas dão errado, mas isso é música ao vivo. Pode ser emocionante para o público e estressante para nós, mas também torna o show mais interessante, porque cada apresentação pode ser diferente e você nunca sabe exatamente o que vai acontecer. Por exemplo, minha pedaleira não funcionou direito no Rock in Rio porque havia muitas luzes. A interferência no palco estava insana. Mas isso é música ao vivo. Gostamos de experimentar e explorar o som dessa maneira.
Vocês acabaram de fazer história no Rock in Rio como a primeira banda de rock liderada por mulheres negras a tocar no Palco Mundo. Além disso, é um festival transmitido para todo o país, com milhões de pessoas acompanhando. O que esse momento significa para vocês? E, depois dessa experiência, já pensam em voltar para fazer mais shows no Brasil e na América do Sul?
Amy Love: Foi realmente incrível. Quando alguém nos contou que éramos as primeiras, ficamos muito surpresas. Mas também é incrível pensar que, esperamos, meninas que se parecem conosco estavam assistindo e podem se sentir inspiradas ao perceber que também podem fazer a mesma coisa.
E definitivamente queremos voltar ao Brasil. Tivemos momentos incríveis aqui. Foi uma viagem muito curta, ficamos apenas seis dias. Estávamos no Rio e acabamos de chegar a São Paulo, mas com certeza queremos voltar.
Durante muito tempo, muita gente do nosso público dizia: “Venham para o Brasil, venham para São Paulo”. E nós sempre respondíamos que realmente queríamos vir. Finalmente recebemos o convite para o Rock in Rio e pensamos: “Uau, depois de tantos anos, finalmente estamos indo!”. Então não queremos demorar tanto para voltar. Definitivamente voltaremos. Estamos nos divertindo muito e mal podemos esperar pelo show desta noite. Vai ser incrível.
Vocês falaram desses seis dias no Brasil. Fora dos shows, o que conseguiram fazer por aqui? Deu tempo de conhecer algum lugar ou experimentar a comida brasileira?
Georgia South: Sim. Fomos ao Pão de Açúcar e pegamos o bondinho até o topo. A vista era linda. Vimos o Cristo Redentor, foi maravilhoso. Também fomos à praia, passamos por Ipanema e Copacabana. Desculpe se estou pronunciando tudo errado! [risos]
Também fomos a um clube incrível na Lapa. Foi ótimo, uma das melhores noites de todas. E experimentamos algumas comidas também.
Amy Love: Estamos gostando muito das caipirinhas. São muito boas! E também daqueles pãezinhos de queijo… Eu sempre esqueço o nome.
(Alguém da produção fala Pão de Queijo).
Amy Love: Isso! É maravilhoso. É delicioso. Estou comendo uns cinco por dia! [risos] Eu adoro queijo, então achei delicioso.
E o português? Quais palavras vocês aprenderam até agora? Tem alguma que estão usando o tempo todo?
Georgia South: Muito obrigada (risos)
Amy Love: “Oi” também (risos)
A colaboração de vocês com o Bring Me the Horizon se tornou a música mais ouvida de vocês no Spotify. Qual foi o impacto dessa parceria na carreira? E, se pudessem escolher uma mulher para uma nova colaboração, quem seria?
Amy Love: Foi uma oportunidade incrível. Aconteceu durante o lockdown, quando Oli Sykes apareceu nas nossas DMs do Instagram e disse: “Temos uma música. Vocês gostariam de participar?”. E ficamos pensando: “Ok… isso está acontecendo mesmo?”. Éramos uma banda muito menor naquela época, então foi incrível ver uma banda tão grande quanto o Bring Me the Horizon entrando em contato conosco.
Gravamos nossas partes separadamente porque, obviamente, estávamos no lockdown. Fizemos tudo no nosso home studio. Depois, quando as restrições acabaram, saímos em turnê com eles e finalmente pudemos tocar aquela música todas as noites. Foi muito emocionante tocar em arenas.
Foi a nossa primeira turnê desse tamanho, tocando em arenas, então realmente mudou muitas coisas para nós. Apresentou a Nova Twins ao público do Bring Me the Horizon e também a uma parcela maior da imprensa alternativa. Foi incrível e somos muito gratas a eles por terem nos dado aquela oportunidade tão cedo na nossa carreira.
Georgia South: E, pensando em uma nova colaboração, gostaríamos de trabalhar com o The Warning. Elas são incríveis. Girl Power! Seria uma loucura.
Aqui no Brasil, ainda falamos muito sobre machismo, inclusive dentro do rock. Vocês são duas mulheres ocupando espaço em uma cena que historicamente foi muito dominada por homens. Quais foram os maiores desafios que enfrentaram? E isso mudou desde o início da banda?
Georgia South: Acho que um dos maiores desafios que enfrentamos é o sexismo. Pessoas, especialmente homens, não nos levando a sério por causa da maneira como nos vestimos ou da nossa aparência. Simplesmente fazem suposições sobre a maneira como tocamos.
Já disseram que não estávamos realmente tocando, que estávamos apenas fingindo. Que não estávamos tocando instrumento nenhum, o que é uma loucura.
A maior mudança que percebemos foi uma diversidade maior nos line-ups dos festivais. Quando começamos, muitas vezes éramos praticamente as únicas mulheres em um line-up inteiro de um festival de rock. Hoje existe muito mais diversidade, o que é incrível.
Mas ainda gostaríamos de ver mais mulheres nas posições principais dos line-ups, avançando até se tornarem headliners, porque isso ainda falta. É muito raro ver mulheres como headliners dos grandes festivais. Esse é o próximo passo que precisamos alcançar.
Vocês já receberam elogios de artistas como Amy Lee e Tom Morello. Quando artistas que vocês respeitam reconhecem o trabalho de vocês, ainda existe aquele momento de pensar: “Uau, isso está realmente acontecendo?”
Amy Love: Sim, com certeza. Somos grandes fãs de música, então é sempre incrível quando um artista que teve uma carreira tão longa e extraordinária nos dá um conselho, demonstra apoio ou simplesmente reconhece o nosso trabalho. É muito legal porque traz uma sensação de reconhecimento, especialmente dentro de uma indústria que nem sempre está a serviço da música. Muitas vezes, está a serviço do dinheiro.
É por isso que sempre dizemos que somos uma “banda de artistas”. Os próprios artistas normalmente dizem: “Sim, isso é muito legal”, mas a indústria funciona de uma maneira muito diferente. Nem sempre é sobre o amor pela música. Muitas vezes, tudo acaba se tornando uma questão financeira.
Existem muitos artistas incríveis que acabam passando despercebidos por causa disso. Ou não recebem apoio suficiente e não conseguem lançar seus álbuns porque as questões financeiras acabam segurando tudo.
Por isso, é muito importante que as bandas se apoiem e mantenham a música relevante. Precisamos manter a música ao vivo relevante e evitar que tudo se transforme em um sistema robótico. Nós precisamos de música. Música faz bem para a alma.
Para terminar, gostaria que cada uma escolhesse três álbuns que tiveram um grande impacto na vida de vocês. Quais seriam?
Georgia South: Três álbuns… O primeiro provavelmente teria que ser “Seeing Sounds”, do N.E.R.D. Depois, “Innervisions”, do Stevie Wonder. Para o terceiro, ficaria entre “Ego Death”, do The Internet, e “My One and Only Thrill”, da Melody Gardot. Esse último por uma questão sentimental.
Amy Love: Eu escolheria “Secrets”, da Toni Braxton, porque minha mãe sempre escutava esse álbum. Ela cantava muito essas músicas.
Também escolheria o álbum homônimo do New York Dolls. Esse disco foi muito importante para mim. Eu o ouvia muito quando tinha 16 anos. Alguém me apresentou o álbum e eu pensei: “Isso é muito legal. Quero fazer música que soe e tenha essa sensação”.
E depois teria que escolher alguma coisa de Destiny’s Child ou Beyoncé antes da fama (risos). Pela independência, pela atitude, sabe? Acho que seriam esses três.