Atmosfera etérea de Katacombs abre a noite de Frank Turner em SP

A responsabilidade de abrir a noite para nomes de peso como Dave Hause e Frank Turner, no Fabrique Club, na Barra Funda, em São Paulo, na noite de sexta-feira (30), ficou a cargo de Katacombs. O projeto é a identidade artística de Katerina Kiranos, cantora norte-americana que traz em sua bagagem uma fusão cultural fascinante: nascida em Miami, ela é filha de mãe espanhola e pai grego. Com um repertório intimista, Katerina transformou o ambiente do clube antes da explosão de energia das atrações principais. Esbanjando carisma e uma qualidade vocal impressionante, ela apresentou faixas que transitam por melodias dramáticas e etéreas. O setlist incluiu Blue Beard, Fruta y Mar, Weeping Willow, Old Fashioned e Pin Pin (com exceção de Blue Beard, todas do álbum de estreia, Fragments of the Underwater), encerrando com a faixa-título de seu primeiro EP, You Will Not. A profundidade de suas canções não é por acaso. Antes de assumir os palcos, Katerina dedicou anos à escultura de móveis em osso e madeira, uma meticulosidade que ela parece ter transferido para a construção de suas melodias. You Will Not, seu trabalho de estreia, funciona como uma montanha-russa emocional, refletindo uma jornada de autodescoberta que atravessa fronteiras geográficas e gêneros musicais, algo natural para alguém que passou a vida navegando entre múltiplas culturas. No palco do Fabrique, Katacombs provou que sua decisão de sair do “quarto escuro”, onde compunha solitariamente, para compartilhar seu mundo sagrado com o público foi, sem dúvida, a escolha certa.

10 anos sem David Bowie: Seu Jorge libera live “The Life Aquatic” no YouTube

Hoje, o mundo da música completa exatos dez anos sem o inigualável Camaleão do Rock. Para marcar a data, o cantor Seu Jorge preparou um presente especial para os fãs. Ele disponibilizou, pela primeira vez de forma permanente, a live “The Life Aquatic: A Tribute to David Bowie” em seu canal oficial no YouTube. ​Até então, o público só podia acessar esse material de forma restrita ou temporária. Agora, o registro chega como um gesto definitivo de memória e respeito, celebrando um diálogo artístico que já dura mais de duas décadas. ​Do cinema para os palcos ​A conexão entre o músico brasileiro e a obra de Bowie nasceu no cinema. Em 2004, o diretor Wes Anderson convidou Seu Jorge para integrar o elenco do filme A Vida Marinha Com Steve Zissou. ​Na ocasião, Jorge criou versões em português para clássicos do britânico. Essas releituras ganharam vida própria e formaram o aclamado álbum The Life Aquatic Studio Sessions (2005). Vale destacar que o brasileiro compôs quase todas as versões, com exceção de “Starman”, que manteve a adaptação consagrada pela banda Nenhum de Nós (“Astronauta de Mármore”). ​O sucesso foi tanto que o projeto virou turnê internacional. A partir de 2016, Seu Jorge levou esse show para diversas cidades dos Estados Unidos, Europa e Austrália, provando a força dessas interpretações ao vivo. ​Intimidade de Seu Jorge com voz e violão ​A live que chega hoje ao YouTube traz esse repertório em sua forma mais essencial: voz e violão. A equipe gravou a apresentação em agosto de 2020, durante a pandemia, em uma casa em Ubatuba (SP). O cenário natural contribuiu para o clima contemplativo da performance. ​O setlist conta com 15 canções, incluindo pérolas como “Life on Mars?”, “Changes” e “Rebel Rebel”. Segundo Seu Jorge, liberar esse material agora é uma forma de honrar o legado de um criador que segue inspirando gerações. ​A benção do Camaleão ​É impossível falar desse projeto sem lembrar o reconhecimento do próprio homenageado. Na época do lançamento do filme, David Bowie escreveu um texto elogiando o trabalho do brasileiro. ​”Se Seu Jorge não tivesse gravado minhas músicas em português, eu nunca teria ouvido esse novo nível de beleza que ele soube imprimir nelas”, declarou o astro britânico.

Entrevista | Bullet For My Valentine – “Ele ainda é muito relevante, muito próximo aos nossos corações”

Vinte anos após o lançamento de The Poison, o Bullet For My Valentine encerrou um ciclo histórico em solo brasileiro. No último dia 20, pouco antes de subirem ao palco do Allianz Parque, em São Paulo, para abrir o show do Limp Bizkit, Michael Paget, Jason Bowld e Jamie Mathias conversaram sobre o peso do legado que carregam e a conexão renovada com uma nova geração de fãs. O Bullet For My Valentine, que ajudou a moldar o metalcore mundial, refletiu sobre a experiência de tocar seu álbum de estreia na íntegra pela última vez. Em um clima de celebração e respeito mútuo entre gerações do metal, os músicos destacaram a importância de manter a essência focada nas guitarras e a honra de dividir o palco com ídolos que foram cruciais para suas próprias formações musicais. >> Confira como foi o show em São Paulo Nesta entrevista, o trio abriu o jogo sobre o futuro sonoro do grupo, a “bênção” que foi o sucesso repentino nos anos 2000 e revela os discos fundamentais que definiram suas trajetórias. Confira abaixo o bate-papo completo. Qual é a sensação de ver um álbum como The Poison, que foi lançado há duas décadas, ainda ser a porta de entrada para tantos fãs? Michael Paget: É incrível, sabe? Aquele álbum se conectou com tanta gente 20 anos atrás e poder tocá-lo 20 anos depois, vendo todos esses novos fãs mais jovens aparecendo e aceitando o disco, tem sido maravilhoso. Ele ainda é muito relevante, é muito próximo aos nossos corações e temos muito orgulho dele porque fez muito pelas pessoas, a forma como ele se comunica e se conecta com elas. É muito importante para nós. Além disso, tocá-lo o ano todo em alguns dos locais onde tocamos pelo mundo e ir a lugares onde nunca estivemos antes também foi animal. Hoje é o último show, a última vez que o tocaremos na íntegra, então vai ser um estouro. Jason Bowld: É, a última vez tocando o The Poison. Vou sentir falta… até daqui a dez anos. O álbum mais recente é o homônimo (Bullet For My Valentine, de 2021)… esse som mais agressivo definitivamente combina mais com a banda? Jason Bowld: Ih, eu estaria revelando segredos, isso seria… Top secret? Jason Bowld: É, segredo absoluto. Eu não gosto de falar muito sobre como será o próximo álbum porque… Estou me referindo ao mais recente, de 2021. Michael Paget: Ah, o mais recente? Achei que era o próximo. O último foi o autointitulado (Self-titled), então o próximo vai ser ainda mais agressivo. Vai ser sempre pesado e sempre terá… vai ser simplesmente Bullet, é tudo o que gostaria de dizer, na verdade. Vai ser a cara do Bullet. O nu metal está tendo um retorno enorme. Como uma banda de metalcore, como vocês se sentem dividindo o palco com o Limp Bizkit hoje à noite? Michael Paget: Ah, é bom pra caralho, cara. Somos fãs de longa data do Limp Bizkit. Eles mudaram nossas vidas anos atrás, da mesma forma que o The Poison mudou a vida de tanta gente para nós. Ser convidado para vir e abrir para eles na América do Sul tem sido um sonho realizado. É loucura! Jason Bowld: É, muita loucura. Lugares enormes também, tem sido incrível! A energia da multidão é… não me lembro de ter visto uma banda gerar tanta energia com o público, sabe? E eles são classe pura. Pessoas de classe, músicos incríveis e, sim, eles ainda são relevantes. Mas, sabe, essa coisa do retorno do nu metal… não sei, talvez seja um retorno com algumas reviravoltas, mas na minha visão você não consegue replicar estilos que já passaram sem que pareça algo forçado. Vocês ficaram encantados com o apoio incrível e radical dos fãs brasileiros. Qual é o segredo para manter o respeito dessas lendas e, ao mesmo tempo, continuar relevante para a geração mais jovem? Michael Paget: Essa talvez seja uma pergunta para você responder, mas… acho que para nós, lá no começo, a gente explodiu muito rápido. De novo, acho que foi por causa do The Poison e de como tocamos em algo que conectou com muita gente. Não sei o que foi, mas foi uma “bênção disfarçada” para nós. Simplesmente aconteceu do dia para a noite. E acho que talvez seja porque somos focados nas guitarras; Metallica e Iron Maiden são influências muito grandes na banda também. Então acho que o encaixe foi certo e nós éramos aquela banda nova que as pessoas queriam levar em turnê. Já realizamos muita coisa, a nossa lista de desejos está bem cheia no momento, mas estamos no caminho. Só uma última pergunta: cada um de vocês poderia dizer um álbum que mais influenciou na carreira? Jason Bowld: Steal This Album!, do System Of A Down. Jamie Mathias: Master of Puppets, do Metallica. Michael Paget: Cowboys From Hell, do Pantera.

Na saideira dos grandes shows internacionais de 2025, Limp Bizkit instala o caos no Allianz Parque

O último sábado (20) marcou um encontro geracional no Allianz Parque, em São Paulo. O Limp Bizkit, um dos maiores expoentes do nu metal, provou que sua relevância em 2025 vai muito além do saudosismo. O que se viu foi uma celebração explosiva de uma sonoridade que, embora frequentemente criticada no passado, hoje é abraçada com uma energia renovada por fãs de todas as idades. Fred Durst, ostentando seu visual de “vovô do rock” que se tornou sua marca registrada recentemente, comandou a massa com a precisão de um maestro. O show não foi apenas uma sucessão de músicas, mas um espetáculo de entretenimento. Durst sabe como manipular a dinâmica da plateia, alternando entre momentos de pura agressividade sonora e interações descontraídas, mantendo o público na palma da mão durante toda a apresentação. Enquanto Fred é a voz, Wes Borland continua sendo o motor criativo visual e sonoro da banda. Com seu figurino extravagante e riffs que definiram uma era, Borland entregou uma performance impecável, lembrando a todos por que é considerado um dos guitarristas mais inventivos do gênero. A química entre os membros originais remanescentes transpareceu em cada nota de clássicos como My Generation e Rollin’ (Air Raid Vehicle). Um dos pontos altos e mais sensíveis da noite foi a homenagem ao baixista Sam Rivers, falecido recentemente. O tributo, antes do início do show, trouxe uma camada de profundidade emocional para a apresentação, equilibrando o “caos controlado” característico da banda com um respeito genuíno ao legado de um de seus fundadores. Foi um momento de união entre banda e público, transformando o estádio em um ambiente de celebração e despedida. O Limp Bizkit em 2025 é uma banda que entende perfeitamente seu papel. Eles não tentam reinventar a roda, mas sim polir a energia bruta que os tornou gigantes. O Allianz Parque testemunhou rodas de pogo insanas durante Break Stuff, provando que a geração Z e os millennials compartilham o mesmo entusiasmo pela catarse sonora proporcionada pelo grupo. Foi, sem dúvida, um dos shows mais energéticos e memoráveis do ano em solo brasileiro, incluindo até lançamento de fogos de artifício do meio da plateia. Edit this setlist | More Limp Bizkit setlists

Bullet For My Valentine substitui Yungblud com show focado em “The Poison”

Substituir um headliner de última hora é uma tarefa ingrata, mas o Bullet For My Valentine provou ser a escolha definitiva para ocupar a lacuna deixada por Yungblud na etapa latino-americana da Loserville Tour. Convocados para suprir a ausência do músico britânico, que se retirou do lineup por questões de saúde, os galeses não apenas cumpriram a tabela: eles dominaram o palco do Allianz Parque com uma autoridade que só veteranos do metalcore possuem. A conexão com o público paulistano foi instantânea e avassaladora. Antes mesmo dos primeiros acordes ecoarem pelo estádio, a pista já fervilhava com mosh pits espontâneos, sinalizando que a audiência estava pronta para uma descarga de energia pesada. O respaldo dos fãs foi o combustível necessário para que o quarteto entregasse uma performance técnica e emocionalmente carregada. Estrategicamente, a banda optou por não montar um setlist genérico de festival. Em vez de uma coletânea de hits esparsos, eles mantiveram a espinha dorsal de sua turnê de 2025: a celebração monumental dos 20 anos de The Poison. O álbum, que definiu uma era para o metal moderno, foi o protagonista da noite, sendo executado quase na íntegra. Das 13 faixas originais, dez foram resgatadas, transportando o público diretamente para 2005 com hinos como Tears Don’t Fall e 4 Words (to Choke Upon). O show ainda guardou fôlego para pérolas essenciais da discografia, como Hand of Blood e o encerramento catártico com Waking the Demon. Embora o formato reduzido do set tenha deixado um gosto de “quero mais” nos presentes, a recepção calorosa e o apoio incondicional da plateia consolidaram a passagem do BFMV por São Paulo como um dos grandes momentos do evento. Eles entraram como substitutos, mas saíram como protagonistas. Setlist Her Voice Resides 4 Words (to Choke Upon) Tears Don’t Fall Suffocating Under Words of Sorrow (What Can I Do) Hit the Floor All These Things I Hate (Revolve Around Me) Hand of Blood Room 409 The Poison 10 Years Today Cries in Vain The End Waking the Demon

Pai da turma toda, 311 entrega show repleto de hits no Allianz Parque

A presença do 311 na Loserville Tour foi muito mais do que um simples show de abertura; foi um acerto de contas histórico com o público brasileiro. Sendo apenas a segunda visita da banda ao país, a primeira ocorreu há longos 14 anos, no festival SWU em 2011, a expectativa era palpável tanto para os fãs veteranos quanto para os admiradores do Limp Bizkit, que puderam testemunhar a fonte onde Fred Durst bebeu para moldar sua própria visão musical. Em um setlist conciso de 50 minutos, o quinteto não desperdiçou um segundo sequer. Abrindo com a dobradinha de peso Beautiful Disaster e Come Original, a banda reafirmou a força de seu repertório híbrido, que funde rock, reggae e hip-hop com uma fluidez invejável. A dinâmica vocal entre Nick Hexum e Doug “SA” Martinez continua sendo um dos grandes trunfos do grupo: a dupla esbanjou vigor físico e entrosamento, dominando o palco com uma energia que desmentia o hiato de décadas longe do Brasil. Para o público da pista, as comparações foram inevitáveis. A sonoridade solar do 311 ecoou referências que vão desde o Sublime até os brasileiros do Forfun (declaradamente influenciados pelos americanos). Um dos momentos de maior coro coletivo veio com a interpretação de Lovesong, clássico do The Cure que ganhou contornos icônicos na voz de Hexum pela trilha sonora do filme Como se Fosse a Primeira Vez. O ápice técnico da apresentação ficou por conta do baterista Chad Sexton. Seu solo vigoroso transformou-se em uma celebração coletiva no palco com a “invasão” dos integrantes do Slay Squad, que já haviam dado as caras no set da Ecca Vandal, reforçando o clima de camaradagem que permeia toda a turnê Loserville. O desfecho não poderia ser diferente: uma sequência de hinos como Amber e a explosiva Down, encerrando uma performance que provou que, mesmo após 30 anos de estrada, o 311 permanece relevante, técnico e absurdamente contagiante. Setlist   Beautiful Disaster Come Original Freak Out Lovesong (The Cure) Applied Science Drum Solo (Slay Squad (+ crew) on stage before full band drum act) Amber Creatures (for a While) Feels So Good Down

Ecca Vandal estreia no Brasil misturando The Distillers com hip hop, mas deixa a desejar

Embora muitos brasileiros tenham tido o primeiro contato com Ecca Vandal apenas no anúncio da Loserville Tour, a artista sul-africana radicada na Austrália carrega uma trajetória de uma década marcada por um ecletismo radical. Com apenas um álbum de estúdio lançado, o elogiado disco homônimo de 2017, e um longo período de hiato que interrompeu sua ascensão, sua vinda ao Brasil cercava-se de curiosidade sobre como seu “caos organizado”, que funde punk rock, hip hop e música eletrônica, se comportaria em um estádio. A proposta de Ecca é fascinante: em seus melhores momentos, sua agressividade vocal remete à crueza de Brody Dalle (The Distillers), mas envelopada em batidas eletrônicas e uma estética urbana moderna. No entanto, no palco do Allianz Parque, no último sábado (20), abrindo para o Limp Bizkit, a execução esbarrou em questões técnicas que comprometeram a experiência. A escolha por um formato reduzido de banda, focada essencialmente em bateria e baixo, com alternâncias pontuais para guitarras e sintetizadores, acabou soando esvaziada. O excessivo volume da bateria engoliu as camadas mais ricas do som, tirando o peso industrial e a profundidade que tornam seu trabalho de estúdio tão impactante. Apesar dos problemas de mixagem, a presença de palco de Ecca foi inegável. O ponto alto da apresentação foi o single Cruising to Self Soothe, lançado no início de 2025. A faixa injetou uma dose necessária de energia pesada no set, permitindo que a cantora explorasse seus vocais rasgados e demonstrasse a atitude visceral que a tornou uma queridinha da crítica internacional anos atrás. Econômica nas interações para otimizar os 40 minutos de palco, Ecca Vandal não deixou de prestar sua homenagem à cultura anfitriã. Em um gesto de reverência à música pesada brasileira, apresentou-se vestindo uma camiseta do Sepultura, reforçando sua conexão com as raízes do metal e do punk. Foi um show de contrastes: uma artista talentosa e visualmente impactante, mas que ainda parece buscar o equilíbrio ideal para transpor sua complexidade sonora para arenas de grande porte.

TBT – Dez anos sem Scott Weiland: relembre o show do Velvet Revolver em São Paulo

Scott Weiland, de 48 anos, ex-vocalista do Stone Temple Pilots e do Velvet Revolver, foi encontrado morto em 3 de dezembro de 2015, dentro do ônibus de sua banda, a Scott Weiland & the Wildabouts, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos. A causa da morte foi overdose. Hoje, dez anos após a morte do vocalista, relembramos o histórico show do Velvet Revolver no estádio do Morumbi, em São Paulo, quando abriu para o Aerosmith. A apresentação rolou em 12 de outubro de 2007. Velvet Revolver prova que supergrupos podem ter alma Quando as luzes do Morumbi se apagaram para a abertura, a sensação não era de um “show de aquecimento”, mas de um evento principal paralelo. O Velvet Revolver subiu ao palco trazendo a mística de ser a “banda mais perigosa do mundo” naquele momento. Scott Weiland, magro e com movimentos serpentinos que lembravam um lagarto elétrico, comandava a frente, enquanto a silhueta inconfundível de cartola e Gibson Les Paul à esquerda arrancava gritos de “Slash” da plateia. A chuva que caía não esfriou a recepção. A abertura com Let It Roll e a pesada Do It for the Kids mostrou que, apesar da acústica do Morumbi engolir um pouco a guitarra base de Dave Kushner, o entrosamento entre baixo (Duff) e bateria (Matt Sorum) continuava sendo uma parede de concreto. A banda sabia o que o público queria. Embora as músicas autorais como Sucker Train Blues fossem bem recebidas, o estádio veio abaixo quando o passado foi invocado. Os covers do Stone Temple Pilots, Vasoline e Interstate Love Song, serviram para lembrar a todos que Weiland era uma das maiores vozes dos anos 90. Sua performance era errática e hipnótica, contrastando com a solidez da banda instrumental. Mas foi o legado do Guns N’ Roses que gerou a catarse. It’s So Easy (com Duff nos vocais rasgados) e Mr. Brownstone transformaram o Morumbi em uma máquina do tempo. Ver Slash tocando esses riffs ao lado de Duff novamente foi, para muitos, o fechamento de um ciclo aberto desde 1993. Além da nostalgia O mérito do show, no entanto, foi provar que o Velvet Revolver tinha vida própria. Fall to Pieces foi o momento “isqueiros para o alto” (ou celulares, na época começando a dominar). O solo melódico de Slash sob a garoa fina foi uma daquelas cenas cinematográficas que só estádios proporcionam. A banda também testou material novo com She Builds Quick Machines (do disco Libertad, que sairia meses depois), mostrando que ainda havia gasolina no tanque criativo. O encerramento com Slither foi a prova definitiva de força. Com seu riff arrastado e refrão explosivo, a música já soava como um clássico instantâneo, equiparando-se aos covers tocados anteriormente. Scott Weiland, regendo a massa com seu megafone, saiu de cena deixando a impressão de que tínhamos visto uma das últimas grandes encarnações do rock and roll perigoso e visceral. O Aerosmith, que veio na sequência, teve trabalho para superar aquela energia. Edit this setlist | More Velvet Revolver setlists

Entrevista | Nanda Moura – “O que aconteceu para a gente ter encaretado tanto?”

Nome consolidado no cenário do blues contemporâneo, a cantora e guitarrista Nanda Moura atravessa uma fase de profunda inquietação artística. Após levar seu talento para palcos europeus e marcar presença em grandes festivais como o Best of Blues and Rock, a artista mergulha em uma sonoridade mais visceral e provocativa com seus lançamentos mais recentes, os singles Chega e Louca. Nesta nova etapa, Nanda Moura deixa de lado as fórmulas prontas para confrontar o que chama de “caretice” dos tempos atuais, um estado de anestesia emocional alimentado pela obrigação das redes sociais e pelo domínio dos algoritmos. Com referências que vão do surrealismo de Salvador Dalí à crueza do blues de Muddy Waters, Nanda Moura propõe um retorno à autenticidade e ao erro como marcas da verdadeira humanidade. Acompanhada por nomes de peso como Nasi (Ira!) e o produtor Apollo 9, a artista prepara o caminho para seu próximo álbum, apropriadamente intitulado Deglutir, Digerir e Devolver. Em um bate-papo exclusivo para o Blog n’ Roll, Nanda Moura falou sobre o impulso criativo por trás de suas novas composições, a parceria com ícones do rock e do rap, e por que a arte continua sendo nossa maior ferramenta de resistência. Seus últimos lançamentos, Louca e Chega, trazem uma sonoridade e letras muito fortes. Louca soa quase como um grito de libertação. De onde veio o impulso para compor essa música que confronta tão diretamente a anestesia emocional dos nossos tempos? Louca nasceu de uma inquietação que começou a me incomodar muito. Essa coisa da rede social, sabe? No início, a gente fica empolgado, mas depois de um tempo ela acaba sufocando. Me sinto assim hoje: sufocada pela obrigação da rede social. O estalo final veio após visitar uma exposição sobre os 100 anos do Surrealismo. Fiquei de frente para obras de artistas como Salvador Dalí e Remedios Varo, que pintavam coisas exageradas, exuberantes e “descaralhadas” há um século. Pensei: “Caramba, os caras já eram tão loucos há 100 anos. O que aconteceu para a gente ter encaretado tanto?”. Parece que andamos em círculos; evoluímos em alguns pontos, mas retrocedemos na liberdade. Vivemos com medo do julgamento, nos mascarando na arte e nas relações. Louca é uma provocação contra esse retrocesso. Você diz que Louca é também uma declaração de princípios. O que representa pessoalmente essa busca por autenticidade que você canta na letra? É o meu momento de prezar por ser verdadeira, mais do que nunca, com o tipo de som que faço e como quero soar. Sendo bem aberta, não tem outra forma de fazer Louca se não for sendo sincera. É um grito para as pessoas, mas principalmente para mim mesma, dizendo: “Não seja medíocre, não seja careta, não se deixe misturar na multidão”. Quero que as minhas marcas de “loucura” apareçam sem eu ligar para os apontamentos alheios. É uma provocação de mim para mim mesma que acaba atingindo todo mundo. Esse single teve a produção de Apollo 9 e a coprodução de Nasi. Como foi trabalhar com eles e como essa parceria influenciou o resultado final? O Apollo é um cara muito antenado, experiente, já trabalhou com Seu Jorge, Rita Lee, Paralamas… Ele tem uma visão muito ampla e sensibilidade para entender o que queremos colocar na música. Já o Nasi tem aquela coisa visceral e crua do rock que eu adoro e que busco muito no blues. Fiz o arranjo com músicos incríveis: o Otávio Rocha (guitarra) e o César do Baixo, ambos do Blues Etílicos, e o Gil Eduardo (primeiro baterista do Blues Etílicos e ex-Erasmo Carlos). Quando o Apollo e o Nasi entraram, eles trouxeram “pitacos” que deram uma certa estranheza à música, um clima mais incômodo, pesado e provocador. Eu sou muito instintiva; quando ouvi, senti que aquele incômodo era exatamente o que a música pedia. No single anterior, Chega, você também teve o Nasi e ainda contou com a participação do Thaíde, gerando uma mistura interessante de blues, rock e rap. Como surgiu esse encontro? Eu e o Nasi já temos uma parceria estabelecida. Nos conhecemos no Best of Blues and Rock, quando ele estava gravando o projeto solo Rock Soul Blues. Ele buscava uma cantora para um dueto em Coração de Caveira (versão de Martinho da Vila) e o santo bateu na hora. Sobre Chega, queríamos fazer uma versão de I’m Be Satisfied, do Muddy Waters. Como o Nasi foi o primeiro produtor de rap no Brasil, surgiu a ideia de colocar uma inserção do gênero. Ele chamou o Thaíde, que topou na hora. Casou perfeitamente: blues, rock e rap são música negra, não tem erro. Em Chega, você fala sobre retomar o controle da própria atenção. Você acredita que a arte é uma das poucas formas de resistência contra a automatização da vida? Com certeza. E se não nos atentarmos, pode piorar. As pessoas estão muito automatizadas. Hoje nos entregamos ao algoritmo: ouvimos o que nos é sugerido e oferecido, e isso nos torna medíocres. Cadê a curiosidade de ir atrás de um assunto, de buscar conhecimento? Temos acesso a tudo, mas estamos acomodados. Procuro usar a minha linguagem, que é a música, para “cutucar” e fazer as pessoas refletirem, saindo um pouco do automático. Você é um nome consolidado no cenário do blues contemporâneo. O que você acha que falta no Brasil para o gênero ter um alcance maior ou mais comercial? Historicamente, o blues nunca foi mainstream; ele sempre esteve à margem, em um nicho. Ao mesmo tempo, é a origem de tudo: do rock, rap, soul, country, pop e jazz. Acho que falta conhecimento das pessoas sobre isso. Existe a barreira da língua, já que a língua-mãe do blues é o inglês, mas ele é um estilo universal porque comunica emoções puras, do improviso à melancolia. O caminho é ocupar espaços e mostrar como o blues conversa com os nossos elementos culturais. Para encerrar, o que vem por aí? Quais são os planos após Chega e Louca? Estou trabalhando no meu próximo álbum, que está sendo