Entrevista | Adrian Younge – “Este álbum é um sonho, é o ápice da minha capacidade”

Entrevista | Adrian Younge – “Este álbum é um sonho, é o ápice da minha capacidade”

Adrian Younge volta a reafirmar sua posição como um dos nomes mais inventivos da música contemporânea com o lançamento de Younge, seu novo álbum instrumental, lançado em 17 de abril pelo selo Linear Labs. Concebido como uma obra orquestral pensada a partir da lógica do hip hop, o disco funciona como um manifesto artístico: é cinema sonoro, soul psicodélico e composição sinfônica fundidos em uma mesma linguagem. Gravado inteiramente em fita analógica e executado com uma orquestra de 30 músicos, o trabalho se apresenta como a obra mais ambiciosa da carreira do músico norte-americano.

O grande mérito de Younge está justamente na forma como o artista transforma referências do passado em algo vivo e contemporâneo. Inspirado por mestres como Lalo Schifrin, David Axelrod e Ennio Morricone, Younge constrói um álbum de tensão cinematográfica constante, em que cordas, metais e seções rítmicas se alternam entre momentos de explosão e respiro. Faixas como “Portschute” e “Visual Assault” resumem bem a proposta do disco: composições modulares, com atmosfera setentista, mas desenhadas para dialogar com a cultura do sample e com a estética do hip hop moderno. Mais do que uma homenagem, o álbum soa como uma reinterpretação autoral da tradição, revelando um artista em pleno domínio de sua linguagem.

Ao longo da carreira, Adrian Younge construiu uma trajetória singular entre a produção musical, a composição e o trabalho como multi-instrumentista. Autodidata, ele ganhou notoriedade com a trilha de Black Dynamite, em 2009, e consolidou sua assinatura sonora em discos como Something About April e em colaborações marcantes com nomes como Ghostface Killah, Roy Ayers e Ali Shaheed Muhammad, seu parceiro no projeto Jazz Is Dead. Sua música sempre transitou entre soul, jazz, funk e hip hop, com forte influência da cultura do vinil e da gravação analógica.

Outro capítulo fundamental de sua carreira está nas trilhas sonoras, especialmente no aclamado trabalho para a série Luke Cage, da Marvel, que ajudou a inserir a estética do hip hop dentro do universo dos super-heróis na televisão. Esse olhar cinematográfico volta com força em Younge, álbum que talvez represente a síntese definitiva de tudo que o artista construiu até aqui: a fusão entre o produtor moldado pelo sample, o compositor de trilhas e o instrumentista apaixonado pelo som orgânico. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Younge fala sobre o conceito do novo álbum, a influência da música brasileira e o impacto de suas trilhas sonoras na construção do disco.

Este álbum parece mergulhar na sonoridade do início dos anos 1970. Como foi a proposta criativa dele?

É o começo dos anos 1970, de 1968 a 1973, para ser mais específico. E eu sempre quis fazer um disco que representasse isso, entende?

Então, para mim, este álbum é realmente a realização de eu me tornar o compositor que sempre quis ser para as pessoas. E também mostrar que um compositor de hoje ainda pode fazer esse tipo de música, essa soul psicodélica cinematográfica, que era feita há 50 anos.

Foi por isso que senti que era importante mostrar que ainda podemos fazer essa música, mas pensando no amanhã, sem apenas tentar soar como todo mundo ou reciclar sons antigos.

Você acredita que a linha entre música orquestral e hip hop praticamente desapareceu hoje com o uso de muito samples eletrônicos?

A conexão entre as duas sempre existiu. Alguns dos maiores samples da história do hip hop vieram de gravações orquestrais. A música orquestral, sozinha, muitas vezes soa muito branca e distante da musicalidade negra. Mas quando você traz soul, quando traz jazz, você sente outra energia.

E é justamente essa energia diferente que eu queria ouvir no álbum. Também é essa energia que costuma ser sampleada no hip hop. A conexão está lá. O hip hop é underground, é sujo. A música orquestral normalmente tenta ser limpa. Quando ela ganha sujeira, ela se torna hip hop.

Um desafio para você: Existe uma faixa que melhor representa o conceito do álbum?

Sim, “Portschute”. Ela foi inspirada pelo Portishead, especialmente pela música “Sour Times”.

Essa faixa usou um sample de Lalo Schifrin, e há um instrumento específico nessa música, o marxophone, que eu também utilizei no novo álbum. Quis mostrar como o Portishead, que sampleou Lalo Schifrin, me inspirou, e criar uma música que devolvesse essa influência.

O nome “Portschute” vem de um antigo nome da cidade de Portishead. Essa faixa representa muito bem a minha jornada como um cara do hip hop que se apaixonou pela música antiga através de bandas como o Portishead.

O que este disco revela sobre você como artista que trabalhos anteriores talvez não mostrassem?

Boa pergunta. Eu gosto de dizer que vim do sampler para a sinfonia. Em 1996, comecei sampleando discos, e logo percebi que estava mais inspirado pelos discos que sampleava do que pela música que fazia com eles.

Então comecei a aprender instrumentos sozinho e a comprar livros para estudar escrita orquestral. Isso me levou ao ponto de me tornar um compositor vencedor do Emmy.

Este álbum é o ápice da minha capacidade, onde posso escrever partituras, reunir todos em uma sala e tocar ao vivo com uma orquestra de 30 músicos. Era um sonho que eu tinha quando era jovem, e finalmente consegui realizá-lo em um álbum instrumental.

Com tanta tecnologia, por que a gravação em analógico ainda é tão essencial para sua identidade artística?

O analógico é o melhor som já criado, e o digital tenta emular isso. Eu me vejo como a coisa real.

Quando estou em uma loja de discos, me vejo próximo dos artistas cujos discos estou observando, porque gravamos da mesma forma. Não fazemos mil tomadas para encontrar a perfeita.

Entramos no estúdio sabendo que temos um trabalho a fazer, fazemos isso juntos, cometemos erros e mantemos esses erros. A combinação dessa perspectiva com o calor e a beleza do som analógico é, para mim, o que um disco deve soar.

Você é um artista completo e isso me deixa com uma dúvida: Quando você inicia um novo projeto, pensa primeiro como compositor, produtor ou multi-instrumentista?

Todos ao mesmo tempo. Não existe um primeiro. No caso de Younge, passei cerca de uma semana escrevendo a música no papel.

Mas, enquanto escrevo, já penso no que vou fazer no baixo, em como a bateria deve soar, no ritmo. Tudo começa com caneta e papel, mas já vem acompanhado de toda a estrutura sonora.

Você já trabalhou com artistas brasileiros lendários. O que mais o fascina na música brasileira?

A diáspora negra aqui é muito única. Nos Estados Unidos, criamos um som diferente, em parte porque historicamente nossos ancestrais não puderam trazer seus tambores e instrumentos africanos.

Ai foi diferente. Por isso, vocês têm ritmos derivados da diáspora que nós não temos. Existe uma conexão muito única entre a inspiração do Brasil e a dos Estados Unidos.

Compartilhamos jazz, soul e samba ao longo dos anos. Quando venho ao Brasil, é a minha versão favorita da nossa história. É a minha versão favorita desse som africano que vem sendo incubado por anos. É algo com que me conecto espiritualmente, difícil de explicar, mas é real. É por isso que amo tanto a música brasileira.

Mesmo sem ser um trabalho de trilha-sonora, eu ouço sua música e ela é muito cinemática. Quanto o seu trabalho com trilhas sonoras influenciou a criação deste novo álbum?

Para ser honesto, a música de cinema sempre foi uma grande inspiração para mim. Trilhas sonoras são meu tipo favorito de música acima de qualquer outra coisa.

Mas este álbum, por ser instrumental, me forçou a contar histórias com melodias e acordes, em vez de palavras. Por isso ele soa ainda mais cinematográfico. E eu adoro isso.

O trabalho em Luke Cage foi um marco na sua carreira. O que ele representou artisticamente?

Esse projeto, para mim e para meu parceiro Ali Shaheed Muhammad, representou levar o hip hop para dentro do universo Marvel. Isso nunca havia sido feito. E, por causa disso, se tornou atemporal. Temos muito orgulho desse trabalho.

Há planos para retornar com Luke Cage na temporada 3 de Demolidor. Ele já foi visto no set de filmagem e parece até que será o prefeito. Agora que o personagem está voltando, há planos de você voltar ao universo Marvel?

Olha, honestamente, ainda não ouvi nada sobre isso, mas todos os dias estou esperando uma ligação, cara. Vamos ver o que acontece. Obrigado por perguntar.