Nickelback mostra força nos riffs e talento para refrões em Everything Under the Sun

Nickelback mostra força nos riffs e talento para refrões em Everything Under the Sun

Poucas bandas conseguiram construir uma carreira tão bem-sucedida e, ao mesmo tempo, despertar tanta antipatia quanto o Nickelback. Durante anos, o quarteto canadense foi tratado quase como uma piada por parte do público do rock, apesar de vender milhões de discos, emplacar sucessos nas rádios e lotar arenas pelo mundo. Com Everything Under the Sun, 11º álbum de estúdio, que chegou nesta sexta-feira (30), Chad Kroeger e companhia mostram que não estão particularmente interessados em convencer seus críticos. A proposta é fazer aquilo que sabem, e sabem muito bem: músicas acessíveis, guitarras marcantes e refrões que grudam na cabeça.

Quatro anos depois de Get Rollin’ (2022), o Nickelback apresenta um trabalho que transita entre diferentes momentos de sua discografia. Há espaço para o hard rock mais pesado, para o post-grunge que marcou a explosão comercial do grupo nos anos 2000 e para uma abordagem cada vez mais próxima do pop. O resultado é um disco bastante variado, embora essa diversidade também provoque algumas mudanças bruscas de direção ao longo da audição.

A abertura, aliás, pode até enganar quem espera encontrar um Nickelback mais comportado. Rattle the Cage, com participação do guitarrista John 5, atualmente no Mötley Crüe, é uma das faixas mais agressivas do repertório recente da banda. Os riffs são pesados, a bateria de Daniel Adair trabalha com intensidade e Chad Kroeger explora uma interpretação vocal mais grave e rasgada. O solo de John 5 acrescenta uma dose de virtuosismo sem transformar a música em uma demonstração exagerada de técnica.

Na sequência, a minha preferida do álbum: Bones for the Crows. Ela mantém a pressão das guitarras, mas já evidencia uma das maiores qualidades do Nickelback: a capacidade de construir refrões gigantescos. A faixa combina versos intensos com uma explosão melódica que parece feita sob medida para ser cantada por milhares de pessoas em uma arena. É justamente nesse equilíbrio entre peso e acessibilidade que a banda costuma entregar seus melhores momentos.

Entretanto, quem imaginar que Everything Under the Sun seguirá nessa direção até o final provavelmente ficará surpreso. A partir de I Already Know, o álbum começa a suavizar sua sonoridade. As guitarras continuam presentes, mas passam a dividir o protagonismo com melodias mais leves, arranjos radiofônicos e influências que se aproximam do country rock e do pop americano.

A transição fica ainda mais evidente em Leave Me Behind, que recupera a fórmula das baladas de médio andamento que ajudaram a transformar o Nickelback em um fenômeno comercial. É impossível não reconhecer a assinatura da banda. Os versos criam uma atmosfera mais contida, preparando o terreno para um refrão expansivo, daqueles que parecem familiares já na primeira audição.

E aqui está o principal mérito do disco: o Nickelback realmente sabe fazer refrões. Independentemente de a música ser pesada, romântica ou descaradamente pop, existe um cuidado evidente com a construção das melodias. Os refrões não aparecem simplesmente como uma repetição dos versos. Eles crescem, apresentam novas camadas vocais e encontram maneiras eficientes de prender a atenção do ouvinte.

If I Don’t Go reforça essa característica ao explorar uma sonoridade mais próxima do country contemporâneo. Já Make Me Love You mergulha definitivamente no território das power ballads, com uma interpretação emocional de Kroeger e uma produção que privilegia a grandiosidade. É o tipo de música que dificilmente surpreenderá quem acompanha a banda há duas décadas, mas que demonstra como o vocalista domina esse formato.

Essa previsibilidade, porém, também representa uma das limitações do trabalho. Em determinados momentos, a produção parece excessivamente preocupada em deixar tudo perfeitamente encaixado. Os instrumentos soam limpos, os vocais são cuidadosamente trabalhados e os refrões surgem exatamente onde se espera. Funciona comercialmente, mas algumas músicas poderiam ganhar personalidade com um pouco mais de espontaneidade. Não faria mal para ninguém ter alguns “Lados B” despretensiosos por aqui.

Entre as faixas que procuram escapar dessa estrutura está Chasin’ Famous, que recupera o espírito bem-humorado de Rockstar, sucesso do álbum All the Right Reasons (2005). Desta vez, o alvo é a obsessão contemporânea pela fama e pela exposição nas redes sociais. Musicalmente, a canção apresenta um groove interessante e guitarras que ajudam a impedir que a crítica social se transforme em algo excessivamente sério.

Simple Song segue outro caminho, apostando em uma mensagem de união e em uma construção quase de hino. A presença de um coral amplia a dimensão da música, embora o resultado flerte com um sentimentalismo exagerado. Ainda assim, é difícil negar a eficiência do arranjo, especialmente quando as vozes se encontram no refrão.

Uma das maiores surpresas aparece em Technicolor Steamboat. Com introdução narrada pelo ator Ryan Reynolds, a faixa apresenta violões, harmonias vocais e uma atmosfera psicodélica que pouco lembra os grandes sucessos do Nickelback. É uma experiência curiosa, com influências do folk e do rock clássico, que demonstra uma disposição para explorar caminhos menos óbvios.

Nem todas essas experiências funcionam com a mesma intensidade, mas é interessante perceber uma banda com mais de 30 anos de carreira procurando novas possibilidades dentro de sua própria linguagem.

Outro momento que chama atenção é Lift Somebody Up, principalmente pela quantidade de convidados envolvidos. Sammy Hagar, Brent Smith e Zach Myers, do Shinedown, Joe Bonamassa, Tommy Lee e Charlie Benante estão entre os músicos que participam da gravação. Apesar do elenco impressionante, a faixa não tenta transformar cada participação em um acontecimento isolado. O resultado é uma música coletiva, com espírito de celebração e uma pegada mais próxima do rock clássico.

Na reta final, Bottled Dreams mantém o clima descontraído, enquanto Last Night Was Fun encerra o álbum com uma abordagem ainda mais pop. A última faixa praticamente abandona a agressividade apresentada na abertura e aposta em uma melodia leve, de assimilação imediata. É uma escolha que resume bem a trajetória do disco: começa com o pé no acelerador, mas termina muito mais interessado em conquistar o ouvinte pela melodia do que pela força das guitarras.

Essa mudança gradual de sonoridade é, ao mesmo tempo, uma qualidade e um problema. Por um lado, demonstra a versatilidade de um grupo que consegue transitar por diferentes estilos sem perder completamente sua identidade. Por outro, quem se empolgar com o peso das duas primeiras músicas talvez sinta falta de mais momentos semelhantes ao longo do repertório.

Também é importante reconhecer que o Nickelback nunca foi exclusivamente uma banda de hard rock pesado. Desde os primeiros grandes sucessos, o grupo soube alternar músicas agressivas com baladas e composições extremamente comerciais. Everything Under the Sun apenas reforça essa característica, talvez com uma inclinação ainda maior para o lado pop.

No fim das contas, o novo álbum dificilmente mudará a opinião de quem nunca gostou do Nickelback. Não existe aqui uma tentativa de reinvenção radical, tampouco uma necessidade de provar qualquer coisa. O quarteto conhece suas qualidades, entende o público que construiu ao longo das décadas e entrega um trabalho competente, ainda que irregular em alguns momentos.

Se falta ousadia em determinadas composições, sobra habilidade para criar melodias memoráveis. E isso não deveria ser tratado como um defeito. Em uma época em que tantas bandas procuram soar complexas ou diferentes a qualquer custo, o Nickelback continua demonstrando que escrever um bom refrão também exige talento.

Everything Under the Sun pode não ser o melhor álbum da carreira dos canadenses, mas reafirma uma verdade que seus detratores muitas vezes preferem ignorar: poucas bandas de sua geração dominam tão bem a arte de transformar estruturas simples em músicas capazes de alcançar milhões de pessoas.