Existe uma expectativa quase automática quando o Queens of the Stone Age anuncia um novo álbum. Afinal, estamos falando de uma banda que ajudou a redefinir o rock alternativo nas últimas três décadas, com riffs marcantes, guitarras hipnóticas e uma personalidade musical inconfundível. Mas quem espera encontrar em Perfecth uma sequência de músicas na linha de Songs for the Deaf (2002) ou Rated R (2000) pode se surpreender.
O nono trabalho de estúdio do grupo é um dos mais introspectivos e experimentais de sua carreira. Já começa pela capa, onde primeira vez usam uma foto da banda. Musicalmente, em vez de apostar na potência e distorção das guitarras, Josh Homme prefere explorar atmosferas, melodias desconfortáveis e arranjos pouco convencionais. O resultado é um disco que conversa muito mais com David Bowie, Iggy Pop e até Rolling Stones do que com o stoner rock que apresentou o Queens of the Stone Age ao mundo.
É impossível ignorar o momento pessoal de Homme. Nos últimos anos, o músico enfrentou problemas de saúde e uma longa batalha judicial pela custódia e guarda dos filhos. Essas experiências parecem ter deixado marcas profundas em suas composições. A atmosfera sombria de Perfecth também estabelece uma conexão com Alive in the Catacombs, projeto gravado nas catacumbas de Paris.
Um Queens of the Stone Age diferente e está tudo bem
A abertura com It’s Only Love já deixa evidente essa transformação. A música começa de maneira intimista, com violão e uma interpretação vulnerável de Homme, antes de incorporar elementos que remetem a um cabaré sombrio. É uma escolha interessante justamente porque não tenta conquistar o ouvinte pela força, mas pelos detalhes.
Em Insignificant Other, o grupo recupera parte de seu groove característico, com baixo em destaque, guitarras psicodélicas e harmonias vocais. Já Where The Goth Girls At? representa uma das experiências mais curiosas do álbum, misturando elementos góticos, uma interpretação teatral e referências que remetem ao The Cure.
Particularmente, gosto quando as bandas abraçam esse lado mais estranho. A banda sempre teve uma relação interessante com o absurdo, o humor ácido e o desconforto. A diferença é que, desta vez, esses elementos aparecem menos associados à agressividade e mais próximos de uma estética cinematográfica.
A influência de David Bowie atravessa boa parte do repertório, especialmente na maneira como as músicas são construídas e na liberdade para explorar caminhos pouco convencionais. Essa aproximação também aparece em Sunday, composição originalmente desenvolvida por Homme para Post Pop Depression, de Iggy Pop.
Por outro lado, Mono representa um dos momentos mais difíceis do disco. A música mergulha em experimentações psicodélicas, sintetizadores estranhos e uma estrutura propositalmente desconfortável. Entendi a proposta, mas considero que aqui a banda exagera um pouco na desconstrução. É uma faixa que exige paciência e não necessariamente desperta vontade de ouvir repetidamente.
Entre a melancolia e os riffs
A segunda metade do álbum consegue equilibrar melhor a experimentação com composições mais acessíveis. From the Cliff apresenta uma abordagem próxima do folk, com arranjos delicados e uma interpretação emocional de Homme. Já Easy Street está entre os grandes destaques, trazendo elementos acústicos e melodias envolventes que contrastam com os momentos mais sombrios do repertório.
Phantom Limb recupera parte da identidade mais reconhecível do Queens of the Stone Age, enquanto Run Away From The Mob encerra o trabalho com uma explosão instrumental que lembra a energia característica do grupo. É quase como se Homme estivesse mostrando que ainda sabe produzir rock pesado, mas simplesmente não considera necessário fazer isso durante um álbum inteiro.
Com aproximadamente 36 minutos, Perfecth é relativamente curto, mas exige atenção. Diferentemente de Songs for the Deaf ou …Like Clockwork (2013), que apresentam momentos de impacto imediato, o novo trabalho aposta em atmosferas e melodias que crescem conforme as audições.
Não considero que seja um disco para apresentar o Queens of the Stone Age a alguém que nunca ouviu a banda. Para isso, continuaria recomendando os clássicos. Mas é um trabalho importante para compreender o momento atual de Josh Homme e um dos grandes discos do ano, com certeza.
O que mais me chama a atenção é perceber que, depois de tantos anos, ele continua inquieto artisticamente. Em vez de reproduzir fórmulas que já funcionaram, prefere desafiar as expectativas, mesmo correndo o risco de desagradar parte do público.
Fazendo uma metáfora, Perfecth não é um álbum perfeito, tampouco pretende ser. Existem momentos em que a experimentação compromete a fluidez, mas também há composições que revelam novas possibilidades para o Queens of the Stone Age.
No fim, Josh Homme já não precisa provar que sabe fazer um grande disco de rock. Agora, parece mais interessado em descobrir quantas outras coisas consegue fazer sem deixar de ser ele mesmo.