Bad Religion entrega aula de punk rock para pais e filhos em São Paulo

Bad Religion entrega aula de punk rock para pais e filhos em São Paulo

Bad Religion 2026

Já se passaram quase 30 anos desde a primeira vez que assisti ao Bad Religion no Brasil. De lá para cá, houve mudanças na formação (principalmente na bateria), muitos cabelos brancos e diferentes formatos de show (de festivais a casas de diversos tamanhos). O que impressiona, no entanto, é como a banda jamais perde o gás. Seja na primeira ou na décima vez, o show continua sendo parada obrigatória para quem ama punk, hardcore e suas vertentes.

Setlist atemporal do Bad Religion

O aspecto mais interessante da apresentação é notar como o repertório soa atual. Das 1h20 de show, o arco temporal foi de Recipe For Hate, que abriu a noite, até o hino American Jesus, responsável pelo encerramento.

  • Recipe For Hate: Escrita originalmente para “comemorar” o falso aniversário de 500 anos do descobrimento da América, a letra resume: “our history as it’s portrayed / it’s just a recipe for hate” (Nossa história como é retratada / É apenas uma receita para odiar). Em tempos de novas tensões e ameaças na América Latina, a banda mostra que o problema é estrutural e antigo.
  • Them and Us: Vinda do álbum The Gray Race (1996), disco que provou a relevância da banda após a saída de Brett Gurewitz, a música trouxe um alerta sobre a coexistência humana. Embora Greg Graffin tenha revelado em sua biografia, Punk Paradox, que a composição nasceu de um momento íntimo de colapso familiar, a “roupagem” punk a transformou em uma crítica contundente à sociedade e às decepções nos relacionamentos humanos.

Aula de história (com distorção)

Essa atualidade explica a comoção de muitos pais na pista premium do Espaço Unimed. Era visível a presença de crianças e adolescentes acompanhando seus responsáveis para assistir a uma verdadeira aula de história ministrada por um PhD em Zoologia (Greg Graffin).

Graffin conduz o espetáculo amparado pelo peso das guitarras de Brian Baker e Mike Dimkich, além dos backing vocals viscerais do baixista Jay Bentley. O baterista Jamie Miller, no grupo desde 2016, completa a cozinha com precisão absoluta.

Estatísticas e ausências no set do Bad Religion

Dos 17 álbuns de estúdio, a banda visitou 12 deles. The Gray Race foi o grande protagonista da noite, com cinco faixas.

  • A grande falta: Generator. O público insistiu, gritou, mas não foi atendido. Vale notar que a música não apareceu em nenhum setlist desta turnê sul-americana.

American Jesus para fechar o arco

Para selar a atemporalidade, American Jesus (1993) fechou o set. A música, que nasceu como resposta à Guerra do Golfo (sob o comando de Bush pai), permanece dolorosamente precisa ao descrever o imperialismo norte-americano, independentemente de quem ocupe a Casa Branca.

Como citado na biografia Do What You Want, o Bad Religion vive uma espécie de déjà vu constante. A obra relata que figuras como fundamentalistas e negacionistas climáticos sempre encontram eco no poder, tornando as letras de 30 anos atrás tão urgentes quanto as de hoje. O Bad Religion não suporta a ideia de que uma única nação possa determinar o futuro do mundo.

Enquanto os integrantes deixavam o palco, Jay Bentley resumiu o espírito da noite com um discurso direto: “A mudança depende de vocês. Só vocês podem mudar o mundo.”