Estreia do Balance and Composure em São Paulo prova que algumas esperas valem cada segundo

Balance and Composure no Cine Joia, 2026

Tinha algo diferente no ar desde cedo. Às 15h em ponto de sábado (16), o Cine Joia, em São Paulo, já pulsava por tanta expectativa acumulada. Anos de pedidos, comentários e “come to Brazil” espalhados pela internet finalmente ganhavam forma com o Balance and Composure. ​Antes da tão aguardada estreia do Balance and Composure em São Paulo, quem abriu os trabalhos foi a Bullet Bane, entregando um show intenso e presenteando o público com duas músicas inéditas do novo álbum, que chega no dia 29. Energia alta, público cantando junto e aquela sensação de que algo especial estava se formando. Na sequência, Pedro Lanches surpreendeu muita gente: uma verdadeira descoberta para boa parte da plateia, que rapidamente comprou a proposta e entrou no clima. ​Mas era quando as luzes baixavam de novo que o Cine Joia realmente prendia a respiração. ​Quando o Balance and Composure subiu ao palco, ficou claro: a espera tinha sido longa demais para ser morna. Desde os primeiros acordes de Restless, a recepção foi de arrepiar. Ovacionados antes mesmo de começarem e celebrados a cada pausa, os músicos pareciam sentir o peso e o carinho daquele momento. Jon Simmons foi sincero logo de início: disse que estava doente e pediu desculpas. Mas se aquilo era um vocalista “debilitado”, fica difícil imaginar o seu 100%, já que a entrega no palco foi total. >> LEIA ENTREVISTA COM BALANCE AND COMPOSURE ​Reflection, Parachutes e Back of Your Head vieram em uma sequência que deixou nítido que aquela não seria uma noite contida. Quake transformou a pista em movimento constante. Em Any Means e Cut Me Open, o público já não estava apenas assistindo, os gritos mostravam a intensidade de quem vivia cada verso. ​E aí veio o que já é marca registrada dos shows com a assinatura da New Direction Productions: a ausência de grades. O espaço entre palco e público vira território livre. Stage divings aconteciam o tempo todo, com corpos sendo erguidos, devolvidos e sustentados. Mosh pits abriam e fechavam como ondas. Gente pulando, se abraçando e cantando olho no olho. ​Tiny Raindrop e Notice Me fecharam a noite com aquele sentimento agridoce de quem esperou demais e, de repente, se vê no fim. Mas ninguém saiu frustrado, pelo contrário, a sensação coletiva era de que cada segundo valeu a pena. ​Depois de anos de silêncio, o Balance and Composure não apenas tocou em São Paulo: eles foram abraçados como se nunca tivessem ido embora, deixando o palco sob pedidos de “come back soon”. E talvez seja isso que torna algumas esperas tão especiais. Quando finalmente acontecem, você entende que não era apenas hype, mas sim destino, e uma comunidade fiel de fãs que soube aguardar o momento certo. Setlist 1. Restless 2. Reflection 3. Parachutes 4. Back of Your Head 5. Void 6. Quake 7. Any Means 8. Cut Me Open 9. Body Language 10. Cross to Bear 11. Postcard 12. Stonehands 13. I’m Swimming 14. Tiny Raindrop 15. Notice Me

Rodox encerra jejum de 22 anos em Santos com Arena Club lotado e bênção do Charlie Brown Jr.

Rodox em Santos 2026

Foram mais de 22 anos de separação entre o Rodox e Santos, mas, com o retorno recente da banda liderada por Rodolfo Abrantes, o público caiçara enfim pôde assistir a uma apresentação do grupo. Na noite de sexta-feira (15), o Rodox se apresentou no Arena Club lotado. A noite teve direito a dois integrantes da formação clássica do Charlie Brown Jr. na plateia: Marcão e Pelado, que foram celebrados por Rodolfo no palco como “a maior banda de rock do Brasil”. O momento foi emblemático e fechou um ciclo: foi em Santos, afinal, no M2000 Summer Concerts de 1994, que um jovem Chorão ficou na grade do show de Rodolfo e o entregou a primeira fita da banda santista. Confesso que a primeira fase do Rodox não me atraía quando lançaram os dois primeiros álbuns, no início dos anos 2000. Muito provavelmente por infantilidade da minha parte, eu era adolescente, e por não entender o real motivo do fim do Raimundos da forma que conhecíamos. >> LEIA ENTREVISTA COM RODOLFO ABRANTES (RODOX) O documentário Andar na Pedra, dirigido e roteirizado por Daniel Ferro (disponível no Globoplay), ajudou muito a quebrar essa resistência com o Rodox, pois humanizou o “vilão” do fim dos Raimundos. Rodolfo realmente precisava romper com aquele momento, foi necessário ir para outro extremo e viver uma nova vida até encontrar o atual equilíbrio. Santos, inclusive, testemunhou suas dores mais profundas, como a tragédia de 1997 no lançamento de Lapadas do Povo, ferida que quase o fez abandonar a música e que só começou a cicatrizar após o abraço acolhedor dos familiares das vítimas na cidade. Ver o Rodox ali, décadas depois, é a prova de que o tempo cura. E quem ganha com isso são os fãs. Afinal, quem aqui não gostaria de ver um grande ídolo, que muitos perderam para a overdose, vivo até hoje, fazendo shows e sendo feliz? Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Blog n' Roll (@blognroll) No palco, o Rodox ao vivo entrega uma energia absurda, reflexo de um reencontro que começou despretensioso para 2026, mas que virou um renascimento criativo com promessa de disco de inéditas. Rodolfo segue com muita atitude, cantando bem e acompanhado por um timaço: Fernando Schaefer (baterista de uma cacetada de bandas), Patrick Laplan (baixista original do Los Hermanos) e Pedro Nogueira (guitarrista do Wacky Kids, uma das melhores bandas de hardcore melódico do Brasil). O guitarrista Victor Pradella, que foi sideman na fase musical de Rodolfo após o término do Rodox, também compõe o time na tour. O time que acompanha Rodolfo, inclusive, também é muito festejado pelo vocalista. Após pedir palmas para Chorão, Champignon, DJ Bob e Canisso, todos com muitos elogios, o frontman disse que é importante homenagear os amigos em vida também. O setlist, idêntico ao de todas as apresentações da atual turnê e sem espaço para novidades, passeia pelos dois álbuns da banda, deixando de fora apenas faixas muito datadas: foram nove canções do disco homônimo e sete de Estreito, além de dois covers (Exodus, de Bob Marley, cujo álbum Kaya é uma das grandes influências da vida de Rodolfo, e Alive, do P.O.D.). Para quem ainda tem resistência ao grupo, recomendo dar uma chance às ótimas faixas apresentadas nessa tour, como De Costas Para o Mar, Beach Punx, Foi Bom Esperar, De Uma Só Vez, Dia Quente e Olhos Abertos. Diferente de boa parte dos shows da banda, Rodolfo não pulou nos braços do público durante Alive. Mas a faixa contou com a participação especial de Wander Ruas, vocalista da banda Alva, responsável pela abertura do show, que já havia cantado também Olhos Abertos. O líder do Rodox preferiu terminar a apresentação no palco, deixando claro que o que era para ser apenas uma turnê curta de reencontro já virou um plano para o ano inteiro, para a alegria dos fãs que não o abandonaram mesmo após tantos anos. Setlist Segue a linha De costas para o mar Cego de Jericó Mais e mais Incinerador Beach Punx Horário nobre Foi bom esperar De uma só vez Iluminado Dia quente Inflexível 1000 megatons Olhos abertos BIS Quem tem coragem não finge Três reis Exodus (Bob Marley cover) Alive (P.O.D. cover)

The All-American Rejects abandona nostalgia e aposta em reinvenção em novo álbum “Sandbox”

Depois de 14 anos sem lançar um álbum de estúdio, o The All-American Rejects retorna com Sandbox, disco que abandona qualquer obrigação de funcionar como uma simples cápsula do tempo dos anos 2000. A banda, atração da primeira edição do I Wanna Be Tour, até poderia ter seguido o caminho mais seguro e recriado a fórmula radiofônica de Move Along ou When the World Comes Down, mas escolheu fazer exatamente o contrário. O quinto álbum de estúdio do grupo nasce como uma tentativa clara de reconstrução artística, refletindo uma banda mais velha, mais introspectiva e consciente de que nostalgia sozinha já não sustenta relevância em 2026. O próprio Tyson Ritter chegou a comentar recentemente que o objetivo não era apenas fazer o público “se sentir jovem novamente”, mas tentar “dizer algo agora” e criar conexão no presente. O que esperar de Sandbox? Essa mudança aparece imediatamente na sonoridade. Sandbox reduz drasticamente o protagonismo do pop punk acelerado e dos refrões explosivos que definiram a identidade comercial da banda. Em vez disso, o álbum mergulha em uma estética mais atmosférica, cheia de texturas lo-fi, sintetizadores discretos, guitarras menos agressivas e estruturas menos previsíveis. O disco soa muito mais próximo de um indie alternativo melancólico do que daquele emo pop radiofônico que dominava MTV e trilhas adolescentes nos anos 2000. Ainda existem melodias familiares e momentos que remetem ao DNA clássico da banda, mas agora tudo parece filtrado por uma abordagem mais madura e menos imediatista. Tyson Ritter acaba sendo o centro emocional do álbum. Se antes suas letras eram marcadas por sarcasmo, relacionamentos turbulentos e refrões feitos para multidões cantarem juntas, aqui o vocalista assume uma postura muito mais vulnerável. Em músicas como For Mama (clipe acima) e Green Isn’t Yellow, ele explora temas ligados à exaustão emocional, amadurecimento e desgaste pessoal sem tentar transformar tudo em um grande hit de arena. Há um tom contemplativo constante no disco, como se a banda estivesse processando os próprios anos de afastamento enquanto tenta entender qual ainda é o seu lugar dentro da música alternativa atual. A faixa-título talvez seja a melhor representação disso tudo. Sandbox usa referências à infância e ao conceito simbólico de uma caixa de areia para discutir relações humanas, isolamento e conflitos emocionais. Existe uma nostalgia evidente, mas ela não aparece romantizada. O álbum inteiro parece tratar o passado como algo inevitável, porém insuficiente para responder às crises do presente. É justamente essa visão que distancia o disco de tantos retornos oportunistas de bandas daquela geração. Álbum equilibra experimentação com identidade própria Musicalmente, Sandbox funciona melhor quando consegue equilibrar experimentação com identidade própria. Faixas como Get This ainda preservam parte da pegada melódica clássica do grupo, trazendo hooks mais acessíveis e uma energia mais próxima do antigo The All-American Rejects. Já músicas como King Kong apontam para um território mais pessoal e introspectivo. Ritter revelou que a faixa nasceu da decisão de deixar Los Angeles e retornar para Oklahoma, usando a composição como reflexão sobre superficialidade, fama e autodestruição. Ao mesmo tempo, o álbum também apresenta algumas irregularidades. Em certos momentos, a tentativa de soar moderno parece excessiva, quase como se a banda estivesse tentando se encaixar dentro da estética indie contemporânea em vez de simplesmente deixar as músicas respirarem naturalmente. Algumas faixas soam mais densas do que realmente precisariam ser, e a produção às vezes prioriza textura e ambientação em detrimento de impacto emocional imediato. Parte dos fãs já demonstra essa divisão, principalmente entre quem esperava um retorno mais explosivo e direto. Mas talvez justamente aí esteja o maior mérito de Sandbox. O disco nunca soa preguiçoso ou automático. Diferente de muitos retornos recentes de bandas do mesmo período, o The All-American Rejects não parece interessado em repetir uma fórmula antiga apenas para sobreviver no circuito nostálgico. Existe um senso genuíno de reconstrução artística aqui. De volta ao jogo A banda passou mais de uma década praticamente distante do centro cultural do rock alternativo, e esse tempo claramente serviu para redefinir prioridades criativas. Tyson Ritter chegou a admitir que o grupo precisava descobrir como evoluir sem continuar “voltando a um poço que já estava seco”. A produção reforça bastante essa sensação de amadurecimento. Em vez da compressão exagerada típica do auge do pop punk comercial, Sandbox aposta em espaço, ambiência e camadas instrumentais mais sutis. As guitarras continuam presentes, mas agora dividem protagonismo com synths, linhas de baixo discretas e momentos quase contemplativos. Isso transforma o álbum em uma experiência menos imediata, porém mais interessante ao longo de múltiplas audições. No fim, Sandbox dificilmente será o disco favorito de quem esperava apenas uma continuação direta de Move Along. E talvez nem queira ser. O álbum existe justamente para romper essa expectativa. Imperfeito, irregular e ocasionalmente excessivo, o trabalho ainda assim consegue entregar algo raro em retornos tardios: propósito artístico real. O The All-American Rejects volta não para repetir o passado, mas para tentar entender quem ainda pode ser no presente.

Anônimos Anônimos estreia álbum “Acabou Sorrire” misturando indie e emo

A banda Anônimos Anônimos acaba de lançar o primeiro álbum cheio da carreira. Intitulado Acabou Sorrire, o disco chegou às plataformas pelo selo Forever Vacation Records reunindo nove faixas que consolidam a fase mais madura e coesa do quarteto paulistano. Depois de dois EPs marcados por experimentações dentro do rock alternativo, o grupo agora aposta em uma identidade mais definida, aproximando indie rock, emo, pop punk e dream pop de letras confessionais em português e referências nacionais. O trabalho também representa um novo momento para a banda dentro da cena independente. Antes do álbum, a Anônimos Anônimos passou pela Repetente Records, selo criado por Badauí e Phil Fargnoli, além de receber indicação de Clemente como revelação no programa KZG News. Agora, o grupo apresenta um repertório mais alinhado, focado em melodias diretas e letras sobre crescimento, relações pessoais, tempo e inquietações cotidianas. O título do álbum nasceu inicialmente como uma brincadeira com Acabou Chorare, clássico dos Novos Baianos, mas acabou ganhando significado próprio dentro da proposta do disco. Segundo o vocalista Flávio, o trabalho carrega uma atmosfera mais introspectiva e reflexiva, sem abandonar o lado melódico da banda. A ideia, segundo ele, é transmitir acolhimento e proximidade, funcionando mais como “um abraço” do que como um convite para a festa. A produção ficou nas mãos de Alexandre Capilé, que teve papel importante na construção da identidade final do álbum. Já a mixagem e masterização foram realizadas em parceria com Gabriel Zander. O resultado é um disco que preserva a energia dos primeiros lançamentos, mas entrega uma sonoridade mais sólida, clara e direta, reforçando o momento de afirmação da Anônimos Anônimos dentro da nova geração do rock alternativo brasileiro.

Christine Valença une Brasil e França no novo single “Sur Ton Île”

A cantora, compositora e multi-instrumentista carioca Christine Valença prepara o lançamento de seu novo single, Sur Ton Île, que chega às plataformas digitais em 22 de maio e inaugura uma nova etapa em sua trajetória autoral. Após apresentar no início do ano a faixa Coco do Recado, em parceria com a pernambucana Caetana, a artista agora amplia suas conexões musicais em uma colaboração internacional com os artistas parisienses Félicien Adam, Verso e Luazó, aproximando Brasil e França em uma composição marcada por encontros criativos, memória afetiva e experimentação sonora. Com uma trajetória que atravessa gêneros como soul, MPB, folk e pop alternativo, Christine Valença vem consolidando uma obra guiada por escrita intimista e reflexões sobre pertencimento, deslocamento e identidade cultural. Em Sur Ton Île, essas referências ganham novos contornos a partir de experiências vividas durante sua circulação pela Europa, além de um vínculo afetivo com a França que dialoga com memórias familiares ligadas a Paris. Segundo a artista, o single representa um momento de maior apropriação de seu processo criativo e serve como ponto de partida para um novo EP, previsto para o segundo semestre, impulsionado pelo desejo de explorar novas sonoridades e fortalecer a potência da música brasileira em diálogo com outros universos musicais.

Rolling Stones revivem os anos 70 em clipe tecnológico de “In The Stars”

Após o anúncio do aguardado álbum Foreign Tongues, os The Rolling Stones lançaram nesta quinta-feira (14) o videoclipe de seu single principal, In The Stars. O vídeo é uma celebração visual que une o passado glorioso da banda ao futuro da tecnologia audiovisual. Dirigido por François Rousselet (que também assinou o icônico clipe de Angry), o vídeo conta com a participação da atriz Odessa A’zion. O grande diferencial, no entanto, é o uso de tecnologia deepfake pela empresa Deep Voodoo, que recriou os Stones em sua estética clássica da década de 1970, colocando-os para tocar ao lado de artistas e dançarinos de diversas épocas e subculturas. Uma fã no set de In The Stars Odessa A’zion, estrela em ascensão em Hollywood, não escondeu o entusiasmo. “O primeiro disco que ouvi do começo ao fim foi o Tattoo You. Sou obcecada pelos Stones”, revelou a atriz. No clipe, ela atua como o fio condutor dessa jornada atemporal pelas ruas e palcos. Metropolis Studios Gravado em menos de um mês no Metropolis Studios, no oeste de Londres, Foreign Tongues marca o reencontro da banda com o produtor Andrew Watt. O disco chega em 10 de julho como o sucessor do multiplatinado Hackney Diamonds. Para os colecionadores, a banda manteve o mistério até o fim: antes do anúncio oficial, a faixa de abertura Rough and Twisted circulou em edições limitadas de vinil branco sob o pseudônimo The Cockroaches (as baratas), um apelido clássico que o grupo costumava usar em shows secretos. * Tracklist – Foreign Tongues

Entrevista | Rodox – “Santos testemunhou minha transformação. Vamos levar algo que ainda não mostrei na cidade”

Santos sempre foi uma bússola na trajetória de Rodolfo Abrantes. Foi no palco do M2000 Summer Concerts, em 1994, que ele viu sua vida mudar ao dividir o line-up com gigantes mundiais e conhecer um jovem Chorão na grade do show. Foi também na cidade que ele enfrentou seu momento mais sombrio, após a tragédia durante o lançamento da turnê Lapadas do Povo, em 1997. Agora, mais de duas décadas depois, o ciclo se fecha, e se renova. O Rodox, banda que marcou o início dos anos 2000 com uma mistura explosiva de hardcore, nu metal e letras viscerais, está de volta. O que começou como uma ideia de turnê pontual de reencontro para o segundo semestre de 2026, transformou-se em um renascimento criativo. Com a química restabelecida e a promessa de um novo álbum de inéditas, Rodolfo e seus companheiros desembarcam nesta sexta-feira (15) no Arena Club. Ainda há ingressos à venda. Nesta entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, o vocalista abre o jogo sobre as cicatrizes do passado, a energia da fase atual e o que esperar de um show que promete lavar a alma dos fãs santistas com a potência característica de uma das bandas mais emblemáticas do rock nacional. * O retorno do Rodox é pontual para esses shows ou você já pensa em gravar um álbum de inéditas? Quando tivemos a ideia de voltar com a turnê, pelo tempo todo que ficamos longe, sem nos vermos, a gente teve que se conhecer de novo, né? Por mais que existisse o carinho, tivemos que nos redescobrir. Então, a princípio, antes de tudo começar, a ideia era fazer alguns shows só de reencontro mesmo no segundo semestre. A questão é que a gente se reencontrou, cara, e todo mundo se amou. Meu, a gente está hoje muito melhor do que já foi algum dia, entre a gente, né? Então a coisa tomou outra proporção: o que era para ser só o primeiro semestre já virou o ano inteiro. E a gente só pensa em gravar músicas novas, estamos doidos para curtir esse momento. Talvez seja um reencontro do público com as músicas antigas, mas percebemos que estamos muito mais afiados. O entendimento do que a banda é e de onde queremos chegar está muito mais claro na cabeça de todo mundo. Então, sim, vai ter álbum novo. A gente quer fazer um retrato, um registro do que está vivendo hoje. Tem sons guardados da primeira fase da banda ou pretendem começar do zero? Já tem faixa nova pronta? Seria algo com composições completamente inéditas. Existem aquelas músicas que rolam na internet, como Taco Bell e Psychobilly, mas aquilo foi sobra de estúdio. Foram faixas que gravamos e achamos que não tinham muito a ver com o álbum na época, então as deixamos de fora e elas acabaram indo para a internet. Temos um carinho por elas, principalmente pelo carinho que as pessoas têm com essas músicas, mas queremos fazer algo que seja um registro deste momento da nossa vida. Como você define o som do Rodox nessa nova fase? O que você tem escutado de som e tem influenciado você no dia a dia? Uma das coisas mais legais sobre o som do Rodox é que ele é muito eclético. Não temos nem como rotular ou dizer que é uma banda de nu metal ou de hardcore, porque tem nu metal, tem hardcore, tem punk rock, tem hardcore melódico, hardcore berrado… tem ska, tem música alternativa, tem balada… Enfim, acho que quando conquistamos isso, passamos a ter uma liberdade absurda para fazer o que quisermos. Mas de uma coisa você pode ter certeza: é a energia que estamos vivendo ao vivo. Essa é uma banda de verdade, não é uma banda de estúdio que vai levar uma coisa pronta para o palco. Não, estamos fazendo aquele caminho natural de experimentar ao vivo para registrar isso depois em estúdio. Você tem uma relação muito marcante com Santos em vários sentidos. Qual é o sentimento de retornar a Santos, que foi palco de muitas alegrias e uma tristeza marcante na sua carreira? A cidade de Santos é uma daquelas no Brasil que me viram em todas as minhas fases, né, cara? Desde o começo da minha carreira, sempre estive passando por aqui. A cidade foi testemunhando a minha transformação ao longo do tempo. Então, vai ser incrível poder retornar com o Rodox agora, sendo que, ok, é uma banda que existiu há mais de 20 anos, mas é uma banda completamente nova. O que a gente vai levar para o público santista é algo que realmente ainda não mostrei em Santos. Em Santos, o Raimundos fez um dos seus primeiros shows, no M2000 Summer Concerts, em 1994. O que você recorda desse show? Tem alguma história curiosa desse show com o Rollins Band, Mr Big e Lemonheads? Eu me lembro que foi o primeiro show gigante que a gente tocou, né? Tinha um ônibus para levar a gente de São Paulo para Santos e depois trazer de volta. Ficamos em um hotel, meu… top! Tudo isso era um absurdo de novo para nós naquela época. Ver o Henry Rollins tocando, eu era muito fã dele e do som dele, e ver aquilo acontecendo ao vivo foi muito didático. Aprendi muita coisa. Lembro que caiu uma chuva terrível naquela noite, que alagou a cidade toda. E tem uma coisa muito interessante: quando eu saí do palco, foi a primeira vez que encontrei o Chorão. Ele estava ali na grade com o pessoal, ouviu o som da minha banda e me deu um CD do Charlie Brown, quando o Charlie Brown ainda era bem metal. Foi muito legal. Essas coisas não saem da memória, não. A tragédia em 1997, no lançamento da turnê do Lapadas do Povo, certamente foi um dos momentos mais tristes da sua carreira. Como foi superar a tristeza daquele momento e seguir em frente? Realmente acho que foi o pior momento da minha vida. Aquele acidente

Entrevista | The Varukers – “Vamos continuar tocando até cairmos mortos em um palco ou em algum aeroporto”

A histórica banda punk The Varukers desembarcou novamente no Brasil para uma extensa sequência de shows ao lado da banda paulista Asfixia Social. Formado em 1979, na cidade inglesa de Leamington Spa, o grupo liderado por Anthony “Rat” Martin se consolidou como um dos nomes fundamentais do D-beat e do hardcore punk mundial, influenciando gerações de bandas extremas ao redor do planeta. A nova passagem pela América do Sul reforça uma relação antiga da banda com o público brasileiro, que acompanha o Varukers desde as primeiras visitas ao país nos anos 2000. A atual turnê brasileira também celebra a conexão criada entre o Varukers e o Asfixia Social nos últimos anos. Depois de dividir palcos no Brasil em 2024 e realizar apresentações conjuntas na Inglaterra, as bandas agora seguem juntas em dez datas pelo país, incluindo festivais como Goiânia Noise, Punk no Park e Punk in Rio. O Varukers mantém viva a essência do punk britânico surgido no fim dos anos 1970, carregando letras sobre guerra, desigualdade, manipulação política e violência social, temas que seguem presentes quase cinco décadas depois da formação da banda. A agenda da turnê segue nesta terça (12) em Uberlândia, depois gira por Patos de Minas, Divinópolis, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e finaliza em São José dos Campos no domingo (17). Conhecida pela intensidade ao vivo e pela relação próxima com o público sul-americano, a banda retorna ao Brasil em um momento de renovação do interesse global pelo hardcore punk e pelas discussões políticas presentes no gênero desde sua origem. Em entrevista ao Blog N’ Roll, os integrantes Stevie e Rat falam sobre o início da cena punk inglesa, a conexão com pessoas reais para enfrentar a alienação e o carinho que eles têm pelo Brasil. Como era a cena punk britânica no começo do Varukers? Stevie – Para falar a verdade, para nós nem existia uma cena ainda, porque éramos só crianças. Descobrimos bandas como Sex Pistols, The Damned e The Rats e ficamos completamente inspirados por aquilo. O grande lance do punk naquela época era essa sensação de “a gente consegue fazer isso também”. Então começamos a tentar. Aos poucos fomos nos organizando, mas não tínhamos ideia do que estávamos fazendo. Não existia internet, não existia manual para aprender. Era tudo muito DIY. Organizávamos pequenos shows, tocávamos uns para os outros e aquilo foi crescendo naturalmente. Foi um período extremamente criativo. Quando vocês perceberam que estavam criando algo importante dentro do punk? Stevie – Demorou bastante. Acho que uns seis anos. E isso é legal porque foi um processo lento. Éramos quatro garotos de Warwick, uma cidade pequena do interior da Inglaterra, lançando discos independentes e fazendo shows. De repente começaram a chegar cartas de lugares que eu nunca tinha ouvido falar. Pessoas dizendo “comprei o compacto de vocês”, “troquei um disco e adorei a banda”. Aquilo foi surreal para nós. E então continuamos tocando, lançando discos, viajando, e percebemos que influenciávamos outras bandas. Isso é algo muito especial. O Brasil tem uma cena punk também muito rica e vocês já vêm ao país há mais de duas décadas. O que vocês conhecem sobre as bandas brasileiras clássicas? Rat – Tocamos com o Cólera em Londres há um ou dois anos e foi incrível. Também gostamos muito do Ratos de Porão. São bandas fantásticas. O Brasil sempre teve grupos muito fortes, com identidade própria, mostrando ao mundo o jeito brasileiro de fazer punk e hardcore. Nós adoramos isso. O que diferencia o público brasileiro do europeu? Stevie – O público sul-americano em geral é mais apaixonado, mais “louco” no melhor sentido possível. As pessoas vivem aquilo de coração. É algo honesto e verdadeiro. Acho que eles percebem isso em nós também. Entendem que somos pessoas reais, pé no chão, honestas no que falamos e fazemos. Rat – Se estivéssemos enganando as pessoas, elas não nos apoiariam por tantos anos. Não são idiotas. Existe uma relação muito importante entre banda e público. Sem as pessoas, a música não significa nada. Quando alguém coloca um disco do Varukers para ouvir e sente aquela agressividade e aquela raiva, quero que a pessoa sinta exatamente o que eu senti quando gravei aquilo. Você lembra dos shows antigos em Santos? Rat – Lembro sim. Foi um ótimo período. O Boca (baterista do Ratos de Porão) levou a gente para a praia depois do show, no dia seguinte. Tenho lembranças muito boas de Santos. Foi uma experiência incrível. Depois de quase cinco décadas, o que mantém o espírito do Varukers vivo? Rat – Eu (risos). Porque isso é quem nós somos. Somos pessoas normais, honestas, e fazemos isso há tanto tempo que virou parte da nossa vida. O Varukers existe há 47 anos. Está plantado no nosso cérebro, no coração e na alma. Provavelmente vamos continuar tocando até cairmos mortos em um palco ou em algum aeroporto por aí. Você acredita que a mensagem punk ainda consegue ser transmitida em um mundo cada vez mais digital e capitalista? Stevie – Hoje isso é mais importante do que nunca. Existe uma diferença enorme entre a informação que a mídia entrega e a realidade. Quando viajamos e conversamos diretamente com pessoas reais em outros países, compartilhamos experiências verdadeiras. Não é propaganda. Não é a visão manipulada que muitos governos e meios de comunicação empurram para as pessoas. Rat – Atualmente isso ficou tão descarado que eles nem tentam mais esconder. Estamos vivendo uma era de excesso de informação e desinformação ao mesmo tempo. Por isso é tão importante as pessoas se reunirem, conversarem entre si e trocarem experiências reais. Vocês imaginavam que as letras do Varukers continuariam atuais quase 50 anos depois? Rat – Isso me choca. Nunca achei que iria mudar o mundo. Sou apenas um punk raivoso que observa as coisas e grita sobre elas através das músicas. As letras do Varukers sempre foram simples e diretas, mas tentando atingir as pessoas. Temos uma música chamada “Nothing’s Changed” e ela nunca foi tão atual. O mundo ficou mais

Entrevista | American Football – “É sobre convidar as pessoas certas e confiar nelas”

​Os gigantes do math rock e do midwest emo estão de volta. O American Football lançou o aguardado LP4, um trabalho que mergulha nas complexidades da maturidade e nas “duras realidades da vida” sob uma perspectiva de meia-idade. Com uma sonoridade mais encorpada e camadas rítmicas profundas, o novo álbum reafirma a posição do grupo como arquitetos de uma melancolia sofisticada, equilibrando a precisão técnica que os consagrou com uma entrega emocional ainda mais direta e visceral. ​Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, o baterista e trompetista Steve Lamos abriu o jogo sobre o processo de criação no estúdio e a busca por uma sonoridade autêntica. Lamos revelou como a parceria com o produtor Sonny DiPerri foi fundamental para reconstruir sua confiança atrás do kit, resultando em performances que ele considera as mais honestas de sua carreira até hoje. Entre compassos quebrados e melodias de trompete, o músico descreve o novo disco como um retrato fiel de quem a banda é no momento. ​Um dos pontos altos da conversa foi o clima de celebração em torno das colaborações de peso no álbum, que conta com nomes como Brendan Yates (Turnstile) e Beth Orton. Steve detalhou como a banda deu liberdade total para que esses artistas deixassem suas marcas, transformando as faixas em diálogos orgânicos entre diferentes gerações do rock alternativo. O resultado é um disco que, embora denso, encontra momentos de alívio em faixas mais solares, como o single Wake Her Up. ​A conexão com o público brasileiro também ganhou destaque no papo. Mesmo a milhares de quilômetros de distância, Lamos descreveu a recepção dos fãs na América do Sul como “mágica” e confessou que a banda está ansiosa para retornar. Ele relembrou a última passagem por São Paulo e expressou o desejo genuíno de explorar outras cidades brasileiras na próxima turnê. * O material de divulgação do LP4 menciona que o American Football enfrentou realidades duras da vida sob uma perspectiva de meia-idade. Como o seu processo criativo na bateria e no trompete refletiu esse clima mais denso e introspectivo deste novo disco? Uau, essa é uma ótima pergunta, eu agradeço. Uma perguntinha fácil para começar, né? Nossa, sabe, acho que estamos todos mais velhos, fazemos isso há muito tempo e acho que a única razão para continuar é fazer música nova que pareça, sabe, autêntica de alguma forma. ​Não sei se entramos nessas músicas pensando deliberadamente: “Ah, vamos fazer um hino adulto” ou algo assim, mas acho que todos querem fazer música que soe sincera ou autêntica. Algumas dessas músicas vieram de partes de bateria que eu talvez estivesse… eu amo ir para a garagem e fazer barulho, e às vezes penso “ah, gostei desse barulho”, gravo e tento desenvolver algo. Então algumas faixas foram geradas assim. ​O trompete é meu amigo e meu inimigo; sempre que crio uma melodia nele, eu o trato como — em inglês dizemos frenemy [amigo-inimigo], certo? — trato o trompete como meu frenemy. Uma dessas melodias o Mike [Kinsella] escreveu para mim, mas no “meu estilo”, e foi impressionante. Eu pensei: “Meu Deus, é exatamente o que eu teria tocado”. No final da música chamada Wake Her Up, ele escreveu aquela melodia e eu fiquei tipo… foi estranho ter algo escrito por outra pessoa que fosse tão certeiro. Mas a primeira música, a do meio chamada Patron Saint of Pale e a última são especiais para mim, porque todas vieram de levadas de bateria que eu tinha guardadas há muito tempo. No fim, acho que só queremos criar coisas interessantes; se as acharmos interessantes, esperamos que pareçam sinceras para as outras pessoas. Trabalhar com o produtor DiPerri trouxe um som mais encorpado, mais “carnudo” para o álbum. De quais formas a colaboração dele influenciou a maneira como você estruturou as camadas rítmicas desta vez? ​Puxa, outra ótima pergunta. Eu não conhecia o Sonny. O Mike e o Nate conheceram o Sonny quando eu saí do American Football por um tempo para lidar com outras coisas. Eles o conheceram para trabalhar no disco do Lies [projeto paralelo]. Então o Mike e o Nate fizeram um disco juntos, em dupla. E quando voltamos, eles disseram: “Ei, ele é ótimo, né? É muito fácil trabalhar com ele”. E eu não o conhecia. No fim das contas, ele trabalhou em discos que eu conhecia, só não sabia que era ele. ​É difícil expressar o quanto gostei de trabalhar com ele. Ele também é baterista e está muito interessado, durante a gravação, em takes que soem autênticos. Mesmo que não sejam perfeitos, há alguns erros neste disco. Eu os ouço e penso: “Ah, cara…”. Mas foram erros que, espero, façam parte de algo maior; eu não quis descartar a performance. Tudo pareceu muito… esse foi o disco que mais pareceu com o primeiríssimo álbum, talvez até melhor que o primeiro no sentido de que me senti muito confiante. Me senti bem com o que estava fazendo, me senti pronto para gravar. E acho que isso transparece. ​Eu amo este disco, talvez seja o meu favorito. E espero que as pessoas gostem. Elas têm todo o direito de não gostar, eu entendo. Mas já disse isso antes: se alguém pedisse “ei, me toque uma coisa que represente quem você acha que é como baterista”, eu daria este disco com certeza. Porque acho que este soa mais autêntico em relação a quem eu sou no momento. Talvez pela maturidade que você construiu na sua carreira. ​Espero que sim. E disse ao Sonny também: senti que, depois que saí, tinha perdido um pouco da confiança. Não me sentia eu mesmo atrás da bateria. E acho que ele foi muito encorajador. Foi muito significativo para mim ele dizer: “Ei, apenas confie em si mesmo, não fique preso dentro da sua própria cabeça”. Às vezes eu ficava frustrado e ele dizia: “Ei, vá fazer uma pausa”. ​Estávamos perto do oceano. Eu estava contando para a última pessoa com quem falei: estávamos em um estúdio com vista para uma baía linda.