Entrevista | Charlie Starr (Blackberry Smoke) – “O sul que eu cresci tem uma bela cultura”

A região Sul dos Estados Unidos historicamente é lembrada pelo modelo da grande propriedade de terras e da monocultura. Ao contrário do que vigorou no Norte, o trabalho escravo com negros prevaleceu por lá. E isso explica muito da desigualdade presente na terra de republicanos e democratas até hoje. No entanto, a música sempre foi um fator muito positivo. O Blackberry Smoke chama a atenção para isso com o recém lançado álbum You Hear Georgia. Celebrando seu vigésimo aniversário como grupo este ano, Blackberry Smoke continua a incorporar o rico legado musical da Geórgia com sua nova gravação, honrando o povo, os lugares e os sons de seu estado natal. Com a parceria do produtor Dave Cobb (Chris Stapleton), amigo de Geórgia, You Hear Georgia faz homenagem ao profundo respeito da banda por suas raízes. “Não é muito sobre amar a Georgia, mas sobre a opinião que as pessoas têm de quem é do Sul dos EUA. É uma música feita para que as pessoas nos entendam. Nós amamos Georgia, tanto que nunca pensamos em mudar para Los Angeles ou Nova York. O Sul que cresci tem uma bela cultura, ótimas música, uma comida muito boa e pessoas incríveis”, comenta o vocalista e guitarrista Charlie Starr. “Não julgue um livro pela capa. Você não pode acreditar em tudo que lê. Essa é a mensagem da música”. Charlie Starr, vocalista e guitarrista do Blackberry Smoke Sem problemas com rótulos Questionado se o rótulo de southern rock incomoda, Starr disse não ter problemas em receber rótulos. “Eu não acho que isso nos incomode. Poder colocar rótulos nas coisas parece deixar as pessoas mais confortáveis para entender conceitos. Isso não incomoda a gente, ainda mais se as pessoas nos colocam como uma banda de southern rock por sermos livres. Porque todas as bandas do Sul, dos anos 1970, eram completamente diferentes, mas sempre livres em seus estilos”. O vocalista conta que o álbum é “sobre a vida”. Starr cita o single Ain’t The Same como uma das histórias marcantes transformadas em canções. “Essa é muito especial. É inspirada em um amigo meu que sofre de estresse pós-traumático. Ele passou por coisas muito difíceis, e isso me fez refletir sobre como ele enfrentou os problemas. E eu sei que muitas pessoas passam por isso, mas não conseguem ajuda e precisam tentar lidar sozinhos com os problemas. Ainda bem que existem muitas organizações que ajudam soldados que sofrem com isso. Foi daí que veio a ideia da música”. Diferentemente de muitas bandas, o Blackberry Smoke não teve grandes empecilhos para manter a produção intacta durante a pandemia. “Nós decidimos gravar em um local onde todos fossem se sentir confortáveis. E fizemos isso em um estúdio em Nashville. Foi bem tranquilo manter o distanciamento um do outro”. Sem Brasil, mas com shows nos EUA Agora, com a situação da pandemia já controlada no país, Starr celebra a possibilidade de excursionar pelos Estados Unidos. “Isso vai ser um desafio, mas nós temos feito shows. Estamos tocando em diversos estados dos EUA que já estão liberados. Muitas pessoas estão sendo vacinadas, os números estão caindo, e os públicos vão aumentando”. Starr, que cita Exile On Main St, do Rolling Stones, Physical Graffiti, do Led Zeppelin, e Rocks, do Aerosmith, como os grandes álbuns de sua vida, afirma que gosta de ir atrás de artistas novos. “Gosto bastante das novas coisas, mas não curto pop. Um dos artistas que costumo ouvir é Jason Isbell. É difícil dizer, porque tem muita música nova que não me chama atenção, mas meus filhos adoram. Eu amo música boa”. Muito mais do que uma banda de rock, o Blackberry Smoke também mantém uma pegada social ao longo da carreira. Em resumo, a banda arrecadou cerca de US$500 mil em prol de pesquisas sobre câncer infantil. “É importante ajudar quando se pode, não importa quem você seja. Nos encontramos em uma posição em que podemos ajudar. Tem uma organização de caridade que nós ajudamos, que trabalha com pesquisa para cuidar de crianças com câncer. A ideia veio de um membro da banda, que enfrentou uma situação dessas com a filha. E todos da banda entenderam que era uma boa causa, então passamos a doar o dinheiro que ganhamos com nosso meet and greet ao longo dos anos para essa instituição”. *Entrevista, transcrição e texto por Caíque Stiva e Lucas Krempel

Entrevista | FSnipes – “Nós somos como pequenos pedaços do todo”

Misturando cores e formas mais do que diferentes e inspirando-se de Belchior até Beatles, o músico F.Snipes, alter-ego de Felipe Medeiros, lançou o seu álbum de estreia. O projeto chamado de Safra Sativa, não por engano, carrega em sua capa diversas mensagens subliminares e um som perfeito para conquistar os apaixonados por punk rock melódico. As dez faixas foram compostas durante o período de pandemia. O artista conta que a ideia inicial era lançar alguns singles ao longo de 2020. Assim, surgiu o primeiro EP com quatro músicas e depois, o processo de criação não parou mais. Com tantas canções lançadas e inseridas no portfólio do músico, ele decidiu que era o momento ideal de montar um álbum completo para o público. “Sou muito old school em relação aos álbuns. Adoro pegar um trabalho e entender ele como um todo, não somente como pedaços separados. Por isso eu achei que valia muito a pena usar esses singles que estavam sendo lançados para montar o primeiro disco”, diz o artista. O projeto foi produzido pelo também músico de Porto Alegre, Davi Pacote. O produtor estava em um trabalho remoto, criando músicas em casa, no estúdio montado com os próprios instrumentos. Com a parceria de Felipe, que soltou a criatividade, nasceu um ritmo frenético entre as composições e gravações de ambos. “Para mim foi muito interessante tentar levar para o mundo essas coisas que eu estava criando. O negócio deu certo, a energia bateu com o trabalho do Davi e continuamos, tanto é que de lá para cá gravamos praticamente todo mês uma ou duas músicas, o que é um nível de produção bem legal”, conta. Mensagens subliminares E logo ao bater o olho na capa do novo projeto, é impossível não visualizar o universo lúdico e colorido criado pelo designer de Maceió, Cristiano Suarez. Você pode até não notar a princípio, mas o desenho artístico é cheio de mensagens subliminares e figuras que representam o alto astral do disco. F.Snipes foi quem esboçou o projeto cheio de imagens significativas e transformou a capa em algo nada comum ou mesmo fácil de compreender inicialmente. O artista queria de fato criar uma viagem visual e aflorar a criatividade do público, para que pudessem desvendar as mensagens escondidas. “Cada elemento tem a ver com coisas pessoais. Cada figura presente ali conseguiu traduzir o contexto do álbum todo. Tem um pedaço da minha história, por mais que o público não perceba ou não entenda no começo, o resultado final é incrível”, diz. E se o assunto é polêmico ele trata logo de desmistificar e quebrar tabus. Tudo começa pelo próprio nome do álbum: Safra Sativa. Em referência a Cannabis, consumida no processo criativo do projeto, a planta medicinal foi utilizada justamente nos momentos de criação das letras e melodias das músicas. Com sentimentos e vivências, o músico que mora em Miami, consome o óleo com propriedades terapêuticas para transcender a arte que o habita. “Uma das mensagens subliminares da capa é que estamos em um balão jogando esse óleo em uma língua, o que representa a viagem do projeto. Então aquele universo acontece dentro de uma boca, recebendo o que consumo para criar. Outro detalhe é o personagem com a luneta procurando um sol, elemento este presente no meu primeiro EP. Ou seja, tudo está conectado. Você vai conhecendo e se identificando aos poucos”, revela. Sobre o álbum O artista se preocupou extremamente ao lançar o disco, tentando trazer com responsabilidade o que o público poderia entender e absorver do conteúdo final, principalmente no período de pandemia. Segundo ele, a energia já está muito pesada, e a ideia é afugentar os maus pensamentos que se espalharam durante este momento delicado, para no final trazer luz a quem ouvisse o álbum. “Eu tentei fazer músicas que levassem leveza e alegria para a vida das pessoas. Eu tenho essa preocupação em transmitir mensagens de maneira positiva e elevar a vibração de quem está ouvindo para algo melhor”. Esse cuidado não foi baseado apenas nas músicas, mas também no visual do projeto. O grande complemento artístico da obra do lado de fora, interagiu com as composições de dentro do encarte. E não dá para disfarçar, o propósito era esse mesmo, levar energia e aumentar a frequência de quem consumisse o trabalho, seja escutando ou mesmo observando a beleza do conteúdo exterior, de maneira quase mística. “Foi muito espiritual, eu não sou religioso, mas tenho um interesse muito grande em descobrir a questão da evolução como ser humano. Qual o nosso propósito aqui e como a gente pode ser melhor para o mundo? E principalmente tentando me entender como uma peça em meio a uma sociedade. Nós somos como pequenos pedaços do todo”, reflete. Contudo, é sempre muito difícil para um artista definir a música favorita dentro de um projeto. Cada canção é como um filho, gerado a partir de histórias e vivências diferentes, uma qual tão especial quanto à outra. No caso do Felipe, não poderia ser diferente. Se em outras bandas ele sempre havia uma música predileta, dentro de Safra Sativa a escolha é muito difícil, tamanha a paixão no momento de compor. Contextos diferentes Cada faixa é um enredo e contexto diferente, mas ainda assim, após refletir por longos segundos, o artista conclui que a primeira das dez canções, é a que escolheria se precisasse, e o motivo é ainda mais romântico do que poderíamos imaginar. “Cada uma das músicas me toca de uma maneira diferente. É difícil definir só uma, mas se tivesse seria 7 de julho. Não porque ela seja especial, mas me abriu portas. Eu escrevi como presente de aniversário de namoro para minha esposa. Queria dar uma coisa diferente, no fim, era uma inspiração para mim e um presente maravilhoso, como uma lembrança para nós dois”. Alter ego E o F.Snipes pode até ter se mostrado agora, mas o Felipe está na estrada há muito tempo. Músico desde os anos 90, ele sempre participou de criações e composições das bandas que

Typhoons, terceiro álbum de estúdio do Royal Blood, chega ao streaming

O Royal Blood lançou, nesta sexta-feira (30), o terceiro álbum da carreira, Typhoons. Os quatro singles do projeto, Trouble’s Coming, Typhoons, Limbo e Boilermarker, apresentados anteriormente dão a sustentação para essa produção de alto nível. Quando Mike Kerr e Ben Thatcher se sentaram para conversar sobre como fazer um novo álbum, eles sabiam o que queriam alcançar. Em resumo, envolveu um retorno consciente às raízes deles, para quando fizeram música influenciada por Daft Punk, Justice e Philippe Zdar of Cassius. Ademais, também exigia uma abordagem de volta ao básico, semelhante ao que havia tornado o álbum da estreia auto-intitulado tão emocionante, visceral e original. Fora dos singles, o álbum explode em um estilo de tirar o fôlego e não os deixa prisioneiros quando as fortes batidas metálicas de Who Needs Friends atingem um pico visceral de maneira precoce. O Royal Blood ainda faz referência à nova gama de influências ao implantar vocais ferozes em Million & One e evocando o som de um hiperagressivo Prince em Mad Visions. >> Confira entrevista exclusiva com Mike Kerr Posteriormente, termina com um surpresa final na forma de uma balada austera de piano All We Have Is Now, um lembrete vulnerável e revelador de viver o momento. Aliás, os sentimentos desprotegidos dessa música dão ao álbum um final redentor. Seja direta ou alusivamente, o projeto se concentra em explorar o outro lado do sucesso que eles experimentaram. Vem da compreensão de que o sucesso é muito mais complicado do que parece e de que ter tempo para recuperar a perspectiva de vida é uma mercadoria preciosa que se torna cada vez mais difícil. Mudanças na vida pessoal A situação exigia reflexão e mudança, que Kerr encontrou em Las Vegas. Ele engoliou um espresso martini e declarou ser o último drink. Logo depois, descobriu que a recém-descoberta sobriedade teria um impacto positivo na própria criatividade e na vida como um todo. Contudo, essa nova abordagem se manifestou na decisão da dupla de produzir a maior parte de Typhoons por conta própria. Posteriormente, já estabelecido como favorito dos fãs durante os shows de 2019, a versão de Boilermaker foi produzida pelo vocalista do QOTSA, Josh Homme. Logo depois das duas bandas terem se conectado pela primeira vez quando Royal Blood os apoiou em uma grande turnê norte-americana. Enquanto isso, o vencedor de vários prêmios Grammy, Paul Epworth, produziu Whoo Needs Friends e contribuiu com a produção adicional de Trouble’s Coming.

Entrevista | Lucas Scandura – “Queria que a poesia viesse como uma faixa”

Escrever certo em linhas tortas é a especialidade do artista Lucas Scandura. Retornando a nostalgia dos compactos dos anos 1950 a 1970, o cantor lançou recentemente o single Eu Não Sou de Perdão, um tango criado e gravado em parceria com o quarteto instrumental Escualo Ensemble e que vem acompanhado da poesia Sinfonia de Silêncio. A obra faz parte do projeto de compactortos do artista, relembrando o Lado A e B dos discos antigos, aqueles que fizeram a infância e adolescência de muita gente. Com uma linguagem totalmente autoral, o artista trouxe a própria assinatura neste projeto, na tentativa de mostrar a identidade de um cantor-autor pra lá de excêntrico. Por ter vindo do cinema, e não da música, ele entrega um trabalho performático e cheio de novos conceitos. “Usei esse subtítulo cantautorto tentando dar uma ideia do que sou. Um cantautor, e como vários que existem na música brasileira, é o cara que escreve, compõe e canta, mas que não é necessariamente um instrumentista ou um super cantor”, explica. Durante o processo de criação das faixas recheadas de letras e mensagens ecléticas, o artista teve a ideia de lançar algo novo, e que mesmo relembrando os discos antigos, não tivesse exatamente a mesma proposta. Misturando canção e poesia, nasceram os chamados compactortos e que já prometem um total de seis lançamentos em 2021. “A diferença é que nos antigos compactos o lado A era uma música que o artista trabalhava comercialmente e o lado B era alguma coisa mais alternativa. No meu caso não tem essa distinção, as duas faixas conversam entre si”, diz. Projeto audiovisual O videoclipe do novo single foi feito no Espaço Itaú de Cinema da Rua Augusta, em São Paulo. A icônica sala de cinema serviu de ambiente para que o cineasta brincasse com a linguagem já presente na letra da faixa e o arranjo extremamente dramático criado pelo Daniel Grajew. “As pessoas estão consumindo muito isso atualmente, é difícil pensar em uma música sem audiovisual. Mas além do mercado, eu sou um cineasta de formação, então para mim é muito natural. Quando decidi de fato mergulhar na música, englobei tudo isso: música, poesia, canção, performance, e é claro, audiovisual”. Apesar de já querer realizar as filmagens dentro de um cinema vazio, a pandemia acabou facilitando o processo, já que o local estava de portas fechadas há quase um ano. Assim, com uma equipe reduzida, o conteúdo foi produzido e dirigido com enfoque no cantor. “Quando fui fazer o clipe de Eu Não Sou de Perdão já estávamos em pandemia. Eu trabalho com um coletivo de amigos, e tivemos a ideia dos dois clipes que foram lançados, serem trabalhados somente comigo. O primeiro videoclipe fizemos em outro espaço, sem ninguém, só eu e o cinegrafista, mas são propostas diferentes, o que é muito interessante”, conta. Com as faixas conceituais que conversam entre si e a formação clássica com instrumentos como piano, acordeon, violino, baixo acústico e vibrafone, Lucas Scandura percebeu que o videoclipe tinha que ser feito em tons mais sóbrios, para mostrar tamanho o peso de outra época e até mesmo da astrologia acerca da letra da faixa. “É como se eu estivesse assistindo um filme sobre a minha vida, algo que já aconteceu, mesclando passado e presente. Eu costumo dizer que essa faixa é muito escorpiana e rancorosa, por isso achamos que o preto e branco combinava”, brinca. Parceria que resultou em um tango Apesar de a faixa ter chegado ao público apenas no início desse mês, a canção já está sendo trabalhada desde 2016 pelo artista. Lucas Scandura estava fazendo uma produção como cineasta para o quarteto parceiro e acabou fazendo uma troca. Aliás, resultou no projeto em conjunto, exatamente da maneira que ele desejava. Em suma, o perfeccionismo do cantor foi para encontrar a melhor maneira de trabalhar com o vocal e em como a mensagem seria entregue para o público no final. Quando finalmente o resultado atingiu o esperado, em um mix de canção e poesia, a emoção bateu forte. “Para mim foi uma felicidade tremenda, por que me considero ainda estreante na música e o Escualo Ensemble tem músicos de auto calibre, três deles participam da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, uma das maiores do Brasil. Me senti honrado em ver minha canção se transformar em tudo aquilo”. Poesia, arte e música Outra parte do projeto que conta com parcerias é o lado B. Para o cantor, apenas música não bastava, ele queria mesmo era declamar poesias para os fãs. Contudo, de maneira contemporânea e demonstrando quem é como artista: uma metamorfose de ideias e sentimentos abstratos. “Eu queria que a poesia viesse como uma faixa, para que as pessoas escutassem da mesma maneira que as canções. Que aquilo soasse agradável e interessante, como uma canção, mas com uma cara toda própria”. Ali, ele chamou alguns parceiros para compor arranjos diferentes e colocar em prática a ideia das poesias gravadas. Em Sinfonia de Silêncio, por exemplo, a convidada foi a produtora musical Gylez Batista, que com um arranjo único deu uma nova cara para o projeto, de maneira que a poesia conversasse com a canção já feita no lado A do trabalho. No meio do lançamento, Lucas Scandura confessa que até encontrou outros artistas que estavam fazendo algo parecido com o projeto de sua autoria, mas cada um de maneira diferente e particular. Ele relembra do Grupo Tertúlia, de Pernambuco, que sempre fomentou poemas durante as apresentações musicais, ou mesmo da colega poetisa Luna Vitrolira, que recentemente lançou um álbum com um conceito parecido. Porém, cada um com experimentações e resultados diferentes. “Eu não encontrei nenhum projeto até agora que esteja trabalhando com a poesia dessa maneira que estou propondo. Muito provavelmente exista em algum lugar do mundo, é claro, mas eu ainda não encontrei”, revela. Sem ao vivo E que a pandemia está sendo um período de adaptação para muitos artistas, isso é inegável. Para Lucas Scandura, não poderia ser diferente. Com o início da

Entrevista | Robin Zander (Cheap Trick): “depois desse álbum, certamente vem outro”

Quase 50 anos depois do início da carreira, o Cheap Trick mostra que é possível seguir lançando álbuns em alto nível. O mais novo é In Another World, o vigésimo de estúdio de Robin Zander e companhia, que chegou ao Brasil via BMG na última sexta-feira (9). Aliás, os primeiros versos de The Summer Looks Good on You, faixa que abre o álbum, já mostram que a energia segue lá em cima. Em resumo, rock and roll dançante e com refrões poderosos. O Cheap Trick não perdeu sua essência. Contudo, o guitarrista e fundador do Cheap Trick, Rick Nielsen, resumiu bem esse sentimento dos integrantes. “Nós somos irresponsáveis o suficiente para não desistir. Amamos nos unir e tocar. No nosso primeiro disco eu dizia ‘tenho 30 anos mas sinto como se tivesse 16’. E bem, ainda me sinto assim… Pelo menos até a realidade me alcançar. Mas quando toco, me sinto o cara mais jovem do mundo”. Fundado em 1974, o Cheap Trick atualmente conta com sua formação quase inteiramente original. A exceção é o baterista Bun E. Carlos, que foi substituído por Daxx Nielsen, filho de Rick. Robin Zander (voz, guitarra base) e Tom Petersson (baixo) seguem desde o início na linha de frente. Além dos explosivos singles Light Up The Fire e Boys & Girls & Rock N Roll, o álbum conta com uma versão da clássica Gimme Some Truth, de John Lennon, com a participação especial de Steve Jones (Sex Pistols) nas guitarras. O vocalista Robin Zander conversou com o Blog n’ Roll, via Zoom, sobre o novo álbum, influências, Brasil, além de ter dado dicas para as bandas que estão começando. Confira abaixo. Robin, como foi o processo de criação de In Another World? Nós fizemos o álbum quase todo no estúdio. Às vezes nós fazemos isso porque cria um som espontâneo, que geralmente tem mais energia do que quando você pensa demais em algo. Algumas coisas foram escritas antes, naturalmente, mas a maior parte foi adicionada já no estúdio. O Cheap Trick já carrega quase 50 anos de carreira nas costas. Qual foi o pior momento para vocês? E como acertaram o rumo? A pior parte da nossa carreira foi em 1981, depois que lançamos All Shook Up (1980). Foi quando o Tom saiu da banda (ficou fora até 1987) e formou uma outra banda, chamada Another Language. Depois disso, a gente não sabia exatamente o que fazer. Posteriormente, o Roy Thomas Baker, famoso produtor do Queen, salvou nossa carreira. As apresentações ao vivo do Cheap Trick são notórias e lendárias. Como está sendo esse período sem turnês para vocês? Nossas performances ao vivo ainda existem. Sempre nos consideramos uma banda viva. Já fizemos mais turnês do que qualquer outra banda que consigo pensar agora. E continuamos gravando novos álbuns, o que é algo único para bandas que começaram na mesma época que nós. Vocês continuarão gravando álbuns de estúdio? Estamos sempre gravando. Eu estou cercado por gênios. Cheap Trick sempre teve essa qualidade. Robin, qual é a chave para esse sucesso do Cheap Trick? É uma mistura de tudo. De todos os rapazes da banda, com tudo que crescemos escutando, com nossas influências… nós roubamos dos melhores. O que domina esse caldeirão de influências de vocês? Eu diria que o Rolling Stones, The Who, Queen, The Beatles e (Jimi) Hendrix. Mas principalmente dessas bandas da invasão britânica. Impressiona a consistência da discografia da banda. Sabemos que geralmente, a banda considera o seu último trabalho como o melhor da carreira. Você compartilha desse pensamento? Eu tenho esse sentimento também. O mais recente é sempre o melhor. Eu o recomendaria para novos fãs, claro. A pandemia deixou muitas bandas novas desanimadas por conta das restrições. Qual conselho você dá para esses músicos? Não desistam. Se é algo que vocês gostam de fazer, simplesmente não desistam. O Cheap Trick sempre foi uma banda com um astral lá em cima, esperançosa nas letras. A pandemia mudou isso, Robin? Nós não pensamos muito no que está acontecendo no mundo. As letras saem naturalmente, na verdade. Como foi o período de isolamento para vocês? Foi assim como foi para você. Isolamento é uma faca de dois gumes, porque te dá a oportunidade de olhar para si mesmo. Eu finalmente consegui ter tempo para minha esposa depois de 27 anos, pelo menos. Acredita que o mundo será um lugar melhor após a pandemia? Acho que sim. Essa é uma experiência de morte para o mundo. Nunca se falou tanto de mortalidade. E é algo que não vai embora se não revidarmos. Estamos no meio dessa batalha. Mas, ganhamos novas munições a cada semana. Sempre surgem com coisas novas que podem ajudar. Nós todos temos que ser responsáveis, usar máscara, manter o distanciamento, evitar aglomerações… até que isso acabe, temos que ser responsáveis. Acho que se lutarmos sério contra isso por mais um ou dois meses, podemos vencer. Talvez não a ponto de voltar ao normal, mas o suficiente para que possamos aproveitar a vida novamente. Como é o desafio de promover o álbum com as casas de shows fechadas? Acho que isso é um desafio positivo. O streaming é algo novo e que ajuda muito. Além disso, existem projetos de shows em estádios para pessoas em suas casas. Várias telas com um público participando pelo Zoom (risos). Em 2016, vocês entraram para o Rock and Roll Hall of Fame. Como receberam essa homenagem? Depois de 25 anos, você se torna elegível para entrar no Hall da Fama. Os anos vão se passando, e você sempre acha que pode ser seu momento, até que vai perdendo a esperança. Mas, de repente, você recebe uma ligação dizendo que você está dentro, e toda a espera é perdoada. Imaginava ser tão grande e relevante um dia, Robin? Não. É uma honra que as pessoas ainda contratem a gente para lançarmos novos álbuns. Na nossa idade, estar na ativa significa que estamos fazendo algo certo. Música é o que amamos, então a gente vai

Entrevista | Duda Raupp – “São muitas inseguranças e incertezas”

Em tempos de pandemia, recordar do cenário urbano da cidade e de um simples passeio de bicicleta pode significar muito. Em suma, resgatando memórias de um período antecedendo o isolamento causado pelo coronavírus, o músico gaúcho Duda Raupp lançou recentemente o EP de estreia Giro, convidando o público para relembrar a sensação de liberdade, em um tour pelas ruas de Porto Alegre. Com três faixas totalmente instrumentais, o artista utilizou influências do neo soul, R&B e hip hop para criar o álbum, descrevendo um dia inteiro de lazer. Aliás, as músicas foram pensadas como trilha sonora para um percurso pedalando por bairros e parques da cidade. Com a lembrança dos encontros entre amigos ou da admiração pelas paisagens ao longo do caminho, o multi-instrumentista decidiu transformar essa nostalgia em trabalho. “Consegui tirar isso de bom. Desde o início da pandemia estou trancado em casa, saindo apenas para coisas essenciais. Então, tive que arrumar uma forma de me expressar musicalmente. Tinha um sonho de me tornar produtor e artista solo e a oportunidade surgiu com o isolamento”. Paixão nas letras O sentimento de querer mostrar o que estava fazendo nesse ano afastado das ruas, motivou Duda a transmitir a paixão pelas novas formas de composição que descobriu ao longo do período em casa. Contudo, toda a rotina de produção com instrumentos recém-chegados e a junção da vontade de compartilhar a saudade dos momentos nostálgicos antes da pandemia, foram o principal combustível para o beatmaker lançar o novo projeto. “Junto com essa sensação de querer mostrar meu trabalho para o mundo, faz muito sentido contar todos esses momentos que no dia a dia me vejo relembrando. Fico pensando no que gostaria de fazer se não fosse a pandemia, de quando me juntava com as pessoas ou pegava minha bicicleta para dar um rolê. Isso me inspirou bastante”. Todavia, se o corpo permanece dentro de casa, a mente do artista viaja para outros lugares, em um giro de experiências e vivências. Por isso, ele espera que o público sinta a mesma energia enquanto busca algo totalmente pessoal nesse projeto. “O que eu espero é que as pessoas quando escutem esse EP, encontrem o seu próprio giro sonoro. Que relembrem momentos que são muito especiais para elas. Por meio de sons tentei trazer um sentimento nostálgico, mas que acima de tudo fizesse com que as pessoas consigam identificar seus sentimentos”. Planejamento E se a pandemia foi o fator decisivo para a criação deste projeto, o artista ainda teve que se adaptar ao novo momento para transformar a dificuldade em trabalho. Compartilhar tantos sentimentos e lembranças pessoais é algo recente para ele. Mesmo com as experiências musicais e a trajetória que constrói há alguns anos, Duda ainda está se adaptando ao planejamento do lançamento de um primeiro álbum em meio à pandemia. “São muitas inseguranças e incertezas ao longo do caminho por estar pela primeira vez divulgando algo com o meu nome. É como se eu colocasse minhas entranhas para o mundo ver. Fazer a própria música e arte é algo em que você está expressando coisas que sentiu e isso é muito novo para mim”. Com as dúvidas que surgiram ao longo do processo, ele contou com a ajuda da internet para espalhar a mensagem do giro musical que criou sozinho. Ou melhor, em parceria com os novos instrumentos que descobriu ao longo das tentativas de composição. “Por causa da pandemia e do isolamento, comecei a criar mais conteúdo para minhas redes sociais e a gravar vídeos dos beats que eu fui criando ao longo do dia. Nisso fiz uma campanha de divulgação pensando na identidade visual do EP, utilizando isso pra ter um material legal para postar e por meio disso divulgar o trabalho. Está sendo tudo muito virtual mesmo”. Apoio de peso A internet se tornou um quebra galho para que Duda pudesse difundir a ideia nostálgica do EP, mas não foi o único fator de apoio do artista, já que ele também contou com a ajudinha da produtora Foco na Missão para o lançamento do álbum. O rapper Rashid e a empresária Dani Rodrigues, fazem parte da divulgação e são os principais responsáveis pela organização e planejamento do projeto. “Está sendo maravilhoso. Eles têm muito mais experiência do que eu, tanto no mercado da música, quanto em lançar e divulgar trabalhos. Estar absorvendo essa oportunidade que estão me trazendo é fantástico, estou aprendendo muito”, revela. Quem é Duda Raupp O artista acabou de chegar com o novo trabalho, mas a paixão pela música vem desde a infância, onde o lazer se transformou em renda. Há cinco anos ele está inserido no mercado, entretanto é o primeiro projeto solo do rapaz que mostra nitidamente ser apaixonado por este universo. “Música é o que me movimenta, é minha vida. Todos os momentos, desde quando acordo até a hora de dormir estou pensando nisso. Se quero relaxar coloco uma música. Indo trabalhar também faço isso. Se vou estudar, estou em uma faculdade de música. Minha namorada é musicista… Não tem como fugir. É uma paixão tão grande que transcende o lado profissional”. Não tem como duvidar deste amor. Guitarra, contrabaixo, teclado, percussões e bateria, são todos os instrumentos que fazem parte do repertório do beatmaker. Sozinho, o artista acabou descobrindo um novo desafio: criar música e sobreviver disso. “Nesse processo de produzir beats em casa, acabo experimentando muita coisa nova, e quando vejo já estou tocando. É difícil achar um momento em que eu diga que domino um instrumento realmente e não só experimento. É como se eu fosse provando tudo”. Quem curtir o projeto multi-instrumental, também pode acompanhar Duda nas redes sociais. Lá, o artista compartilha os experimentos que faz todos os dias com os mais variados estilos. Ele ainda revela que está no processo de criação de um single e que os próximos meses serão de trabalho intenso na divulgação de novas composições. “Estou planejando vários projetos para o ano todo. Vou lançar três singles que vão ter parcerias com outros

Entrevista | Ana Carol: “quando me tornei mãe percebi que a música estava fazendo falta”

Feito e inspirado na própria família. Essa provavelmente é a frase que melhor define o álbum de estreia Alma Nua, da cantora gaúcha Ana Carol. Totalmente delicado e conduzido pelas vivências de maternidade da artista, o novo projeto ainda conta com a participação do marido e cineasta André Moraes, responsável pela criação das melodias do álbum. Em dez faixas, o disco mescla composições autorais da cantora e homenagens a obras populares brasileiras, com um toque especial e uma linguagem afetiva. Aliás, mesmo sendo o primeiro disco lançado pela também atriz, escritora e bailarina, não é de hoje que a artista expressa tamanha vontade por cantar e compartilhar suas criações musicais. Todavia, Alma Nua é a realização de um sonho nascido há alguns anos, em Porto Alegre. “É um projeto tão antigo na minha vida. Eu comecei a querer criar um disco logo que eu saí da minha cidade, com 22 anos. Meu desejo sempre foi ser cantora, a vida que acabou me levando para outros caminhos. Foi um momento de pura realização a gravação desse disco, não tive nenhum nervosismo, apenas muita vontade para que ele se concretizasse”, revela a cantora. Amamentação Na faixa-título do álbum, Ana utilizou a própria experiência com a amamentação do primeiro filho, Francisco, para criar a letra e também o videoclipe, que foi totalmente adaptado e filmado em casa, devido à pandemia. Estando há alguns anos no universo maternal e tendo inclusive escrito e compartilhado suas vivências em um blog e no YouTube, a cantora sempre levantou bandeiras de humanização do nascimento e de uma maternidade ativa. Portanto, com o novo trabalho, ela não poderia deixar de lado a vontade de também trazer a família para o projeto musical. Antes disso, ela já trabalhava em conjunto com o esposo e cineasta André Marques em uma produtora, escrevendo roteiros audiovisuais. Segundo ela, a parceria é uma caraterística muito própria da família e nada mais natural do que refletir isso nas composições e no resultado da obra. “O disco é uma consequência de muitos questionamentos que surgiram com a maternidade. Comecei a rever minha carreira, a minha maneira de estar no mundo. O que eu gostaria de transmitir para as pessoas? Qual recado de fato queria dar? Além de uma vontade muito grande de não ficar só reproduzindo os discursos de outras pessoas ou simplesmente fazendo algo para o outro, mas sim fazer meus próprios projetos e então dar minha assinatura para as coisas. Isso veio muito forte com a maternidade e fazia parte disso o desejo de estar mais com a minha família, incluir eles no meu processo de trabalho”, conta. Retomada musical de Ana Carol Na época em que a artista partiu do sul do Brasil para iniciar carreira em solo carioca, sabia que amava música. Com três anos de idade já cantava e com 11 começou a ter ainda mais vivência vocal. Depois de adulta e deixando as apresentações nas casas noturnas de Porto Alegre, acabou dando de cara com os musicais do Rio de Janeiro, graças às experiências com atuação e dança. Neste longo processo colocou o canto de lado, voltando sua energia principalmente para a televisão e os conteúdos audiovisuais. “Quando me tornei mãe percebi que a música estava me fazendo muita falta. Que não podia ficar longe como estava, foi quando entrei nesse processo de retomada da minha carreira, seguindo meu desejo de estar perto. Isso culminou no lançamento do disco, algo que sempre esteve comigo e que tinha deixado de lado nos anos que me dediquei como atriz”. E essa multiplicidade de tarefas é de tirar o fôlego. Impossível desviar de tantas funções e interesses da artista, que está sempre buscando, analisando e se colocando nas situações propostas, conectando tudo ao trabalho, sem parar nunca. Mas com um currículo tão extenso, como escritora, compositora, cantora, bailarina, atriz e ainda formada em psicologia, o questionamento que paira pelo ar é: como ela consegue dar conta de tantas atividades ao mesmo tempo? Simplesmente dando um passo de cada vez. “Não existe uma conciliação de tudo isso, na verdade, isso tudo me habita. Eu sou essa colcha de retalhos, esse mix de influências. É impossível que isso coexista simultaneamente, no mesmo momento. Então, eu estou sempre priorizando coisas, não tem como dar conta de tudo ao mesmo tempo. As mulheres inclusive sofrem muito por acreditarem nessa ilusão de que a gente tem que dar conta de tudo, mas não temos e não conseguimos”. A música é prioridade de Ana Carol E nessa trajetória de quase dez anos como atriz, portas foram abertas para que o novo álbum chegasse ao público. Agora, no entanto, a prioridade é o lado musical. “Estou no momento, menos dedicada a minha carreira de atriz, para me dedicar mais a minha vida como cantora e compositora, já que são coisas que estão fazendo mais sentido para mim, como pessoa, mãe e como tudo aquilo que me constitui até agora”, diz. Ana Carol ainda conta sobre a proposta do novo projeto, já que propositalmente e de maneira intencional quis quebrar padrões pré-estabelecidos com este álbum. De acordo com ela, atualmente as produções estão próximas demais do convencional e deixando de lado o verdadeiro caráter artístico necessário. “Dentro da gente há um universo inteiro. E eu acho que o mundo hoje está muito na superfície das coisas, encaixotado. As pessoas fazem o que dá certo para a audiência e eu não gosto. Quero quebrar isso. Acho que temos que nos mostrar inteiros dentro das coisas que fazemos. Mostrar nossas camadas, singularidades e nosso colorido, porque é isso que faz com que sejamos únicos”, finaliza.

Entrevista | Richie Kotzen: “Adrian e eu temos pensamentos em comum e outros diferentes”

Dois grandes guitarristas unidos em um projeto de tirar o fôlego. Adrian Smith e Richie Kotzen estrearam o álbum Smith / Kotzen, projeto gravado nas Ilhas Turcas e Caicos, um pouco antes do início da pandemia. Composto por nove faixas, Smith / Kotzen é uma perfeita colaboração entre os dois músicos altamente respeitados que escreveram todas as músicas, compartilharam os vocais principais e também trocaram as funções de guitarra e baixo ao longo do disco. Repleto de melodias e harmonias poderosas, o disco incorpora a atitude espirituosa do rock clássico dos anos 1970 com um caldeirão de influências que vão do blues, hard rock, R&B tradicional e mais, misturando as origens e experiências de cada um do par para resultar em um som totalmente contemporâneo. Kotzen conversou com o Blog n’ Roll sobre a parceria com o guitarrista do Iron Maiden, carreira, gravação do álbum na ilha, Brasil e lockdown. Confira o papo abaixo. Como surgiu essa parceria com Adrian Smith? Nós nos conhecemos há uns nove ou dez anos. É difícil dizer exatamente como nos conhecemos, porque em Los Angeles você vê e conhece pessoas com frequência. Mas, ao longo dos anos, nossa amizade foi crescendo, nossas esposas ficaram amigas, e sempre falamos muito sobre música. E sempre nos feriados, a gente se encontrava para fazer uma sessão e tocar algumas músicas. Mais recentemente, em uma dessas sessões, alguém sugeriu que eu e o Adrian tentássemos fazer uma música juntos. E, felizmente, isso aconteceu, e hoje estamos aqui. O que permeou a montagem desse set? Todas as músicas são idênticas… brincadeira (risos). As faixas me lembram muito aquele rock clássico que cresci ouvindo. É um álbum agradável, que tem um flow muito bom. É um daqueles álbuns legais de rock clássico, e cada música tem sua personalidade. O single Taking My Chances é uma faixa forte, que queríamos mostrar primeiro, mas todas são importantes. Você percebe que as canções são da mesma banda, mas a vibe muda, claro. Cada música representa nosso sentimento quando as escrevemos. Como foi gravar o álbum em uma ilha paradisíaca do Caribe? Cara, isso foi muito divertido. Eu nunca tinha ido para lá. É um lugar lindo, tropical, com um mar maravilhoso. Foi incrível! O único problema foi que eu não queria fazer nada além de ficar deitado na praia (risos). Tivemos alguns dias de folga, e depois começamos os trabalhos. Foi bem legal, e gostei muito de ter feito dessa forma. Espero que o próximo seja assim também. Tiveram problemas na hora de voltar por conta da pandemia? Não tivemos problemas, porque saímos de lá antes de tudo começar por aqui. Eu lembro que tive minha festa surpresa de aniversário em Las Vegas, depois fiz shows em um cruzeiro em Miami, e em seguida encontrei o Adrian para gravarmos o álbum. Quando terminamos, já estávamos planejando a turnê mundial e marcando os shows. Nossa ideia era lançar o álbum em março ou abril de 2020 e começar a turnê logo em seguida. Mas, obviamente, a pandemia chegou e tudo isso mudou. Como estão os planos para a divulgação de Smith / Kotzen com esse impedimento? Estamos fazendo o que podemos. Divulgamos algumas músicas, o álbum completo está pronto para ser lançado, estamos dando muitas entrevistas e contando nossa história. Eu sou um cara das antigas, então não vejo a hora de poder tocar ao vivo. No Texas, por exemplo, eles liberaram shows, então talvez a gente faça uma turnê por lá. O lockdown dificultou algo em sua vida? Para mim, não foi tão ruim como para muitas pessoas. Eu sou grato por ter conseguido descansar um pouco, porque precisava de um tempo livre. Quando você é um cara como eu, se te oferecem três semanas de shows da América do Sul, você vai. Ou então, meses na Europa, eu vou também. Então, é difícil dizer não quando essas oportunidades surgem. Eu não queria tirar essa folga, mas senti uma tranquilidade quando as coisas pararam. Claro que odeio a covid-19, obviamente, mas ficar em casa nesse lockdown funcionou para mim. Voltando ao álbum, como foi cruzar as influências de vocês dois? Adrian e eu temos pensamentos em comum e pensamentos diferentes. Por exemplo: nós dois amamos bandas clássicas de rock. Mas, por outro lado, eu também gosto de alguns elementos, e o Adrian de outros, como jazz e blues. Eu não curto tanto, mas tenho muita influência do soul e do r&b. E isso foi bom, porque tivemos muitos pontos onde nos conectamos bem, e outros que nos ajudaram a trazer algo diferente para o álbum. Você é um cara com muita bagagem no rock, ainda mais pelas passagens pelo Poison e Mr Big. Acredita que ainda carrega algo dessas vivências no seu som? Todas as coisas que você faz como músico ajudam a formar suas características. Para mim, eu não sei ao certo o que aprendi com cada membro de cada banda que passei, porque são anos na estrada, e períodos relativamente curtos com as bandas. Mas, certamente, para um cara jovem que tocava na garagem, tocar com outros grandes artistas e interagir com eles é um aprendizado enorme. Conheci muita gente gigante, e essas pessoas me ensinaram muitas coisas que começaram a fazer parte da minha personalidade musical. Você tem uma relação legal com o Brasil, certo? Brasil é um dos lugares que mais gosto de visitar e tocar. Sempre tenho experiências incríveis quando vou ao Brasil, com ótimos públicos e pessoas apaixonadas por música. Minha esposa é brasileira e a conheci em São Paulo. É um lugar importante para mim, e espero voltar logo. Já aprendeu a falar em português? Só frases ridículas e palavrões (risos). Mas vou parar de ser preguiçoso e tentar aprender algo útil.

Entrevista | Mark Jansen (Epica): “Temos que mudar principalmente nossa humanidade”

Depois de cinco anos sem um álbum de inéditas, a banda holandesa Epica, enfim, presenteia os fãs com uma novidade. O oitavo disco de estúdio de Simone Simons, Mark Jansen e companhia, Omega, foi lançado no fim de fevereiro e traz 12 músicas divididas em 70 minutos. Dentre as canções está a continuação antológica de Kingdom of Heaven, com pouco mais de 13 minutos. O metal sinfônico de Simone Simons (voz), Mark Jansen (guitarra e gutural), Isaac Delahaye (guitarra), Coen Janssen (sintetizadores e piano), Ariën Van Weesenbeek (bateria) e Rob Van Der Loo (baixo) segue com uma referência mundial. Aliás, sem esquecer os fãs brasileiros, a Epica aproveitou o lançamento do álbum para presentear os apaixonados pela banda com novidades. Em resumo, a turnê Ωmega BrasileirΩ e a loja pop up na Galeria do Rock, em São Paulo, com produtos exclusivos. O guitarrista Mark Jansen conversou com o Blog n’ Roll sobre a produção de Omega, os desafios e a ligação com o público brasileiro. Confira o resultado abaixo. A pandemia atrapalhou de alguma forma o processo de criação de Omega? Nós demos sorte porque todo o processo de composição foi feito antes da pandemia. Até mesmo boa parte das gravações foi feita antes das coisas ficarem severas. As coisas começaram a entrar em lockdown justamente quando eu e a Simone íamos começar a gravar os vocais. Então, eu tive que gravar minha parte do meu estúdio caseiro, o que não foi um problema, porque tenho todo o equipamento necessário. Já a Simone alugou um estúdio perto da casa dela na Alemanha, e tudo caminhou bem. Não tivemos grandes problemas com a pandemia enquanto estávamos trabalhando no álbum. Como foi a comunicação entre os integrantes da banda na pandemia? Nós já fazíamos reuniões virtuais antes da pandemia, porque moramos em países diferentes. Temos três caras na Holanda, um na Bélgica, a Simone na Alemanha e eu na Itália. Então, temos muitas reuniões assim o tempo todo. Claro que o lockdown atrapalhou, principalmente porque algumas coisas precisavam ser feitas pessoalmente, mas não pude comparecer porque a Itália está muito fechada até hoje. E lançar o álbum sem poder fazer turnê? O quão complicado é isso? Nós discutimos se seria válido lançar o álbum sem poder sair em turnê na sequência. Eu sempre tive uma crença grande de que deveríamos lançar, sim. Porque se você atrasar o lançamento por mais um ano e meio, ainda tem o risco de não poder fazer turnê da mesma forma. Então não faria sentido ficar esperando o momento certo, até porque as pessoas precisam de novas músicas para enfrentar esses tempos difíceis. Não poder fazer turnê é uma pena, mas tem coisas mais importantes na vida. Você imagina que o mundo será muito diferente pós pandemia? Sim, acho que o mundo vai ser diferente. Essa situação aumentou muito a preocupação das pessoas e causou muito trauma. Vamos sentir isso no futuro. Temos que mudar as coisas, principalmente nossa humanidade. Temos que entrar em equilíbrio com a natureza e reencontrar nosso lugar no mundo. Se você encurrala a natureza, ela revida, e isso vai acontecer. Temos que achar mudanças para um futuro melhor. Por falar em natureza, vocês têm uma ligação especial com lobos, certo? Nós temos uma música que fala sobre lobos para apoiar a fundação que os protege. Para nós, foi algo ótimo, porque já fizemos diversas campanhas, e sempre que podemos ajudar pelo menos um pouquinho, podemos ajudar o mundo a ficar ligeiramente melhor. Se todos fizerem o mesmo, a diferença será enorme. Essas ações motivam o público? Acredito que sim! Converso com muitas pessoas online que me perguntam sobre esses projetos e se mostram interessadas. Não tem problema as pessoas não apoiarem a mesma causa dos lobos, mas ajudar qualquer iniciativa que ajude animais é algo lindo. Omega ainda traz um bônus com faixas acústicas, certo? Nós sempre tentamos fazer faixas extra para cada CD. Tentamos aceitar o desafio de fazer versões diferentes de algumas músicas. Não só acústico, mas também com uma atmosfera totalmente diferente. Nessas faixas, quando você escuta, sente uma vibe diferente. É bem legal fazer algo totalmente novo a partir de uma outra música. Como estão os planos futuros da Epica? É difícil dizer quanto tempo isso tudo ainda vai durar, mas eu tento ser otimista. Quando tudo isso for resolvido, espero que as pessoas assumam uma posição de mudança. Eu tenho muita esperança nisso. Então, acho que tudo acontece por uma razão. Tempos de caos vêm para mudar a forma como as pessoas veem as coisas. Acredito que daremos um passo como humanidade. Mark Jansen, quer deixar uma mensagem para os fãs brasileiros? Primeiro, quero desejar saúde para todos e para todas as famílias. Sei que a situação está ruim por aí, sei que falta oxigênio em hospitais, e isso é muito devastador. Desejo muita saúde e quero dizer para que tentem apoiar uns aos outros nesses tempos difíceis. Mesmo sem poder visitar, podemos ligar, mandar mensagem… isso é crucial.