AC/DC no Morumbis é o privilégio de testemunhar a história viva do rock and roll

A espera finalmente acabou. Na noite desta terça-feira (24), o Morumbis voltou a ser o epicentro do hard rock mundial com o primeiro dos três shows do AC/DC no Brasil (a banda repete a dose nos dias 28 de fevereiro e 4 de março, todos esgotados nas primeiras horas de venda). Setenta mil pessoas vibraram com a banda durante 2h15 de apresentação. Essa é a quarta passagem do AC/DC pelo país, após as catarses de 1985 (Rock in Rio), 1996 (Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, e Pacaembu, em São Paulo) e 2009 (Morumbis, em São Paulo). Mas o mundo, e a própria banda, mudaram drasticamente desde aquele último encontro há quase duas décadas. Para uma análise honesta sobre o show do AC/DC no Morumbis, é preciso endereçar o inevitável: o tempo passa para todos, até para os deuses do rock. Brian Johnson (78 anos): forçado a abandonar a turnê de 2016 devido a uma severa perda auditiva, o vocalista está de volta com um sorriso indomável. Embora sua voz não alcance mais as notas estridentes dos anos 80 em faixas como High Voltage, sua entrega e carisma compensam qualquer limitação vocal. É uma entrega absurda no palco. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Blog n' Roll (@blognroll) Angus Young (70 anos): ainda vestindo seu icônico uniforme escolar, Angus apresenta sinais de lentidão em aberturas mais frenéticas, como Thunderstruck. No entanto, ele continua sendo o coração pulsante da banda. Seus solos viscerais, o clássico duckwalk e a energia quase infantil com que percorre o palco provam que sua técnica e resistência continuam formidáveis. O seu solo com mais de dez minutos de duração para encerrar a primeira parte do show, na sequência de Let There Be Rock, é o grande momento desse gênio da guitarra. Apoiando os dois veteranos, a “cozinha” rítmica formada por Stevie Young (guitarrista, sobrinho do saudoso Malcolm Young, falecido em 2017), Chris Chaney (baixo, ex-integrante do Jane’s Addiction) e Matt Laug (baterista, que gravou Jagged Little Pill, de Alanis Morissette e excursionou com o Slash’s Snakepit) entregou uma fundação impecável e pesada, operando com o máximo de eficiência e sem vaidades. Recado aos críticos que “não foram” ver o AC/DC no Morumbis É exatamente por toda essa bagagem que a apresentação desta terça-feira serviu como um choque de realidade para os críticos de sofá. Nas últimas semanas, tornaram-se comuns os comentários desdenhando da voz de Brian Johnson ou apontando a “falta de agilidade” de Angus Young. Vamos direto ao ponto: é uma falta de noção absurda. Não era o momento para encher o saco com exigências de quem espera a performance de atletas olímpicos de 20 anos. Quem foi ao Morumbis com a intenção de avaliar se o alcance vocal de Brian é o mesmo de 1980, deveria ter ficado em casa ouvindo o disco. No Morumbis, o público abraçou a banda do início ao fim. Cantou junto, fez mosh pit, puxou o tradicional olé, olé, olé, AC/DC, além de iluminar o estádio com as luzinhas vermelhas dos chifrinhos, principal item vendido nas redondezas do estádio.  Ver o AC/DC ao vivo em 2026 foi, acima de tudo, um privilégio. Foi a chance de se emocionar vendo dois dos maiores ícones da história da música desfilando o repertório que pavimentou o rock and roll moderno. A entrega, o carisma e os riffs imortais estavam lá. E isso valeu mais do que qualquer nota perfeitamente alcançada. Setlist repleto de clássicos  O show em São Paulo marcou o pontapé inicial da banda em 2026. A rota latino-americana seguirá feroz, passando por Chile (dois shows), Argentina (três) e México (três). O roteiro entregou uma aula de história em mais de 20 músicas, divididas entre Back in Black, Highway to Hell, Dirty Deeds Done Dirt Cheap, Let There Be Rock, Power Up, Powerage, T.N.T., entre outros álbuns. A banda não poupou energia, abrindo o show com o peso de If You Want Blood (You’ve Got It) e emendando imediatamente com Back in Black. O grande trunfo da noite, no entanto, foi o resgate histórico de Jailbreak, faixa que não era tocada ao vivo desde 1991, mas virou parte obrigatória na atual turnê. Outros momentos marcantes Let There Be Rock: com Angus Young sendo elevado em uma plataforma, disparando um solo longo e indulgente, seguido por uma chuva de confetes personalizados do AC/DC. Sin City: Angus fez seu tradicional, porém encurtado, striptease. De forma sensata, o guitarrista poupou o público de ficar apenas de roupas íntimas, usando sua gravata para tocar um solo improvisado. O bis: o encerramento explosivo com T.N.T. e a apoteose com os canhões de fogo em For Those About to Rock (We Salute You), sucedido por uma linda queima de fogos. O AC/DC poderia ter se aposentado anos atrás com seu legado intacto, logo após a morte de Malcolm Young. Porém, ao subir ao palco em 2026, no primeiro show da temporada, eles provaram que a fome de tocar continua viva. Pode não ser a mesma banda de 30 anos atrás, mas a energia bruta, a dedicação e o respeito profundo pelos fãs fazem desta turnê um triunfo inegável. Eles tocaram, e nós os saudamos.

The Pretty Reckless aquece público do AC/DC com hard rock visceral no Morumbis

Para aquecer o Morumbis, a missão ficou a cargo do The Pretty Reckless, que acompanha o AC/DC em toda a turnê latino-americana. Liderada pela carismática Taylor Momsen, a banda trouxe um hard rock visceral e bluseiro que se provou a ponte perfeita para preparar a multidão antes do furacão australiano tomar conta da noite. Em um setlist direto e sem respiros, o grupo nova-iorquino desfilou dez pedradas. A abertura com a faixa-título Death by Rock and Roll já ditou o peso, seguida por Since You’re Gone e Follow Me Down. A banda mesclou muito bem a fase recente com sucessos que furaram a bolha na última década, executando a pesada Only Love Can Save Me Now e a sombria Witches Burn. Entre elas ainda teve espaço para uma estreia, For I Am Death, single lançado no ano passado e que nunca havia sido tocado ao vivo. A reta final da apresentaçãodo The Pretty Reckless foi desenhada para ganhar de vez os fãs da velha guarda que aguardavam ansiosamente pelos donos da casa. Eles enfileiraram os maiores hits da carreira: a clássica Make Me Wanna Die, na qual foi possível ouvir muita gente cantando, a explosiva Going to Hell, o hino de arena Heaven Knows (que sempre rende boa interação) e encerraram os trabalhos com a cadenciada Take Me Down. A banda cumpriu seu papel com maestria, deixando o palco e a plateia do Morumbis devidamente aquecidos.

Overload Beer Fest acerta com line-up focado em bandas nacionais e apresentação do Obituary

A noite do último sábado (21) ficou marcada para os fãs de música extrema em São Paulo pelo Overload Beer Fest, evento que juntou grandes expoentes do cenário nacional com a apresentação dos norte-americanos e precursores do death metal Obituary. Realizado no Carioca Club, com ingressos esgotados, o evento passou longe de um show de headliner com várias bandas de abertura, mostrando a força da cena brasileira e do metal cantado em português, com as bandas Cemitério, D.E.R., Eskröta e Vulcano. Cemitério Abrindo a noite, o trio liderado por Hugo Golon despejou o seu death metal inspirado em filmes de terror no público que já começava a comparecer no Carioca Club. Com uma boa quantidade de fãs gritando o nome da banda e abrindo as primeiras rodas da noite, a apresentação de cerca de 40 minutos mais do que aqueceu quem estava no local para o que viria a seguir, também deixando muita gente querendo mais. Destaque para a trinca que encerrou a apresentação: Tara Diabólica, Natal Sangrento e Pague Para Entrar, Reze Para Sair, ovacionadas pelo público. D.E.R. No palco do Carioca, o D.E.R. mostrou porque é um dos principais expoentes do grindcore no Brasil. Como pede o estilo, foi a banda mais rápida a tocar no festival em um show direto e sem firulas. As poucas pausas entre uma música e outra serviram tanto para o público quanto para os músicos recuperarem um pouco de ar no local que já começava a ficar bem quente. Destaque para o baterista Barata, que executa primorosamente as milhões de batidas por minuto das músicas da banda enquanto, por vezes, o vocalista Thiago Nascimento parece estar em transe no palco. Eskröta Com a difícil missão de substituir os santistas do Surra, que haviam sido escalados pelo festival, porém cancelaram pouco antes de anunciarem um hiato por tempo indeterminado, a Eskröta apostou não só no som pesado e no setlist baseado principalmente em Blasfêmea, álbum lançado no ano passado, mas também na interação com o público. A mais comunicativa das bandas da noite, principalmente por conta da vocalista Yasmin Amaral, levou até bolas infláveis coloridas para jogar ao público, que respondeu bem e fez coro às falas que reforçaram o posicionamento antifascista e feminista do grupo, já explícito nas músicas apresentadas e em toda a sua discografia. Vulcano Em uma noite que seria coroada com a apresentação de um dos maiores expoentes do death metal norte-americano, nada mais justo do que escalar a banda que é tida como a precursora do metal extremo na América Latina. “Que os portais do inferno se abram”, a icônica frase que marca o início das apresentações dos santistas do Vulcano foi entoada, no sábado, por Angel, o vocalista original que fez participação especial no show, dividindo os vocais com Luiz Carlos Louzada em clássicos como Dominios of Death, Total Destruição e Guerreiros de Satã. A atual formação do Vulcano, sempre ancorada na presença do guitarrista e herói da cena Zhema, fez o show com a segurança de quem já entra com o jogo ganho, focando o setlist nas principais canções da história do grupo, prontamente recebidas por uma casa que já se aproximava da lotação máxima. Obituary encerra o Overload O Carioca Clube ficou lotado e quente para a apresentação dos headliners da noite, que fizeram exatamente o que se esperava deles: um show curto, grosso e brutal. O sempre bom som da casa colaborou para que a as guitarras de Trevor Peres e Kenny Andrews, o baixo de Terry Butler, a bateria de Donald Tardy e, principalmente, os inconfundíveis e agudos guturais do vocalista John Tardy, que ao vivo são adornados por camadas de reverb, batessem no público com a singela força de um acidente de carro. Celebrando 35 anos do seu álbum mais influente, Cause of Death, o setlist não teve diferenças se comparado com o que a banda já vinha tocando na turnê, apresentando uma sucessão de clássicos e deixando de mais ‘recente’ apenas The Wrong Time, do disco Dying of Everything (2023), uma das músicas mais grudentas da banda, se é que existe uma música grudenta no meio da extensa discografia dos floridenses. A apresentação durou cerca de uma hora, o que, no papel, pode parecer pouco, mas é compensado com a intensidade do show. Como ressalva fica a ausência de duas faixas do Cause of Death, que não chegou a ser executado na íntegra, faltando Find the Arise e Memories Remain. Setlist Obituary Redneck StompSentence DayA Lesson in VengeanceThe Wrong TimeInfectedBody BagDyingCause of DeathCircle of the Tyrants (cover do Celtic Frost)Chopped in HalfTurned Inside Out Bis:I’m in PainSlowly We Rot

Michael Monroe lança “Outerstellar”, uma aula de rock de sobrevivência

Em um mundo ideal e justo, Michael Monroe seria uma estrela colossal. Entre 1979 e 1985, como frontman do Hanoi Rocks, ele e seus parceiros finlandeses praticamente inventaram o visual hair metal e o hard rock glamouroso e caótico antes mesmo das bandas americanas dominarem a MTV. O destino, porém, foi cruel: quando o aclamado álbum Two Steps From The Move (1984) prometia o estrelato global, o baterista Razzle morreu em um trágico acidente de carro dirigido por Vince Neil (Mötley Crüe), levando ao fim precoce da banda. Mas Monroe nunca parou. Décadas depois, aos 63 anos, ele nos entrega Outerstellar, um de seus melhores e mais variados trabalhos solo. Uma banda, não apenas músicos de aluguel para acompanhar Michael Monroe Para quem acompanha a carreira solo do finlandês, o nível de excelência não é surpresa. Ele mantém a mesma formação estelar há mais de uma década: os velhos parceiros Sami Yaffa (baixo, ex-Hanoi Rocks) e Steve Conte (guitarra, ex-New York Dolls), além de Rich Jones e Karl Rockvist. Essa coesão fica evidente. A banda se tornou uma unidade muito mais afiada e musculosa com o passar dos anos, criando um som distinto que não se apoia apenas na nostalgia, mas no realismo e na paixão. Destaques de “Outerstellar” Se a performance vocal de Monroe sempre balançou entre a bravura rasgada do punk e a narrativa comovente, a musicalidade de Outerstellar acompanha essa ambição sem nunca soar pedante. Aos 63 anos, ele não tem medo de arriscar:

Com mais um grande show, entenda a história do teatro do My Chemical Romance

Após 18 anos de espera, o My Chemical Romance encerrou a passagem por São Paulo com um segundo show no Allianz Parque nesta sexta, dia 6, entregando uma apresentação que foi além do formato tradicional. A banda apostou em uma experiência grandiosa para tocar The Black Parade na íntegra, dividida entre impacto musical e narrativa cênica, transformando o palco em um espaço teatral carregado de simbolismos. A abertura ficou novamente por conta do The Hives, que aqueceu o público antes de o MCR assumir o controle da noite com uma produção visual marcada por fogo, projeções e personagens que conduzem a história do espetáculo. O setlist passou por ajustes em relação ao dia anterior (confira aqui), com menos músicas de seu debut álbum. Mesmo com a entrega intensa e a resposta imediata do público, algumas ausências chamaram atenção. A banda não tocou The Ghost Of You, apesar dos pedidos vindos das arquibancadas, e também não apresentou nenhuma música inédita ou estreia ao longo da turnê. De surpresa mesmo, apenas o fato de Helena não ser o encerramento da noite. Musicalmente, o grupo mostrou coesão e força, com Gerard Way conduzindo o espetáculo em clima dramático, alternando momentos de entrega emocional com ironia e interação pontual com o público. A segunda parte do show reuniu faixas de diferentes fases da carreira, garantindo um encerramento catártico e reafirmando a conexão do My Chemical Romance com sua base de fãs brasileira. Com menos falas e interações com o público, Gerard Way falou “obrigado” em português e disse que era a única palavra que ele sabia. Já Frank Iero, de maneira tímida, mudou “Trust Me” para “Confie em Mim” nos backing vocals de I’m Not Okay. Entenda o Teatro para a execução de The Black Parade Antes mesmo da primeira música, o espetáculo estabelece uma narrativa própria. A história apresentada se passa na chamada Era do Concreto, um período fictício de prosperidade governado por um ditador imortal. Dentro desse universo, o Black Parade, dado como morto em 2007, retorna após anos encarcerado em uma instituição chamada M.O.A.T., uma mistura de prisão, hospital psiquiátrico e centro de recondicionamento. Essa ambientação é reforçada por regras exibidas no telão em um idioma inventado e pela presença constante de vigilância no palco. A encenação ganha corpo com personagens recorrentes, como o homem que varre o palco, a enfermeira que divide os vocais de Mama com Gerard Way e o clerk, figura central que interage com a banda e conduz parte da narrativa. Os músicos entram escoltados, usam uniformes antigos e deteriorados do Black Parade e são tratados como pacientes ou prisioneiros, enquanto personagens como a The Secretary observam tudo em silêncio, reforçando a sensação de controle e hierarquia. Ao longo do show, o conceito se aprofunda em temas como obediência, perda de identidade e recondicionamento psicológico. Elementos visuais como um grande olho que desce sobre o palco, cenas de procedimentos médicos e projeções perturbadoras acompanham músicas como Sleep e Mama, transformando o concerto em uma espécie de ópera distópica. O resultado é um espetáculo que mistura música, teatro e crítica simbólica, deixando mais perguntas do que respostas e reforçando a ideia de que o My Chemical Romance não voltou apenas para tocar um disco clássico, mas para expandir sua própria mitologia diante do público. Setlist da noite The Black Parade – Parte 1The End.Dead!This Is How I DisappearThe Sharpest Lives Welcome to the Black ParadeI Don’t Love YouHouse of WolvesCancerMamaSleepTeenagersDisenchantedFamous Last Words (com trechos de The Welcome Parade)The End/Blood Hits – Parte 2 Our Lady of SorrowsBury Me in BlackNa Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)SINGHelenaPlanetary (GO!)To the EndDESTROYAI’m Not Okay (I Promise)The Foundations of Decay (primeira vez na história como fechamento de show)

My Chemical Romance transforma Allianz Parque em manicômio gótico para celebrar The Black Parade

My Chemical Romance - São Paulo - 05/02/2026

Esqueça o conceito tradicional de show de estádio. O que se viu na noite desta quinta-feira (5) no Allianz Parque, em São Paulo, foi uma peça de teatro macabra musicada por uma das bandas mais importantes do século 21. Para celebrar os 20 anos de The Black Parade, o My Chemical Romance não se limitou a tocar o disco, eles construíram um universo. Ao entrarem no palco, transformado em uma espécie de sanatório/prisão distópico sob a vigilância de um olho digital gigante, Gerard Way e companhia deixaram claro que a noite seria dividida entre a ficção do “Mundo de Draag” e a realidade crua dos hits. Teatro de The Black Parade Quando o MCR assumiu o palco, o clima pesou. A execução na íntegra do álbum de 2006 foi marcada pela teatralidade. Cada integrante parecia um paciente tomando sua medicação ao entrar em cena. Musicalmente, a sequência é imbatível. De Dead! a Mama, o público cantou cada verso como se fosse uma oração. Mas o destaque foi a narrativa visual. A presença dos personagens “O Cavalheiro” (o boneco de Gerard) e “O Atendente” criou uma tensão constante. >> SAIBA COMO FOI O SHOW DO THE HIVES O clímax desse primeiro ato foi chocante e inverteu a lógica da turnê de 2025. Durante a reprise de The End, numa versão melancólica de piano e violino, Gerard Way não foi a vítima. Em uma reviravolta sangrenta, o vocalista atacou “O Atendente” em uma cama hospitalar. Enquanto Blood tocava, Way encenou a remoção das entranhas do personagem, com sangue jorrando cenograficamente, um Grand Guignol que deixou a plateia boquiaberta. O público vibrou muito com o plot twist.  Hits e a libertação Passada a carnificina teatral, a banda voltou para o “mundo real” no segundo set. Sem o palco B (usado em outras turnês), eles concentraram a energia na estrutura principal para desfilar o legado. A trinca I’m Not Okay (I Promise), Na Na Na e Helena (no encerramento) serviu para lembrar porque eles lotam duas vezes o Allianz Parque em São Paulo. Foi o momento da catarse coletiva, onde a atuação deu lugar à pura energia do rock. A voz de Gerard, exigida ao extremo por mais de duas horas, funcionou bem demais. The World Is Ugly e Cemetery Drive foram as surpresas da segunda parte do show, ambas estrearam na turnê no primeiro show em São Paulo.  O My Chemical Romance em 2026 é uma entidade complexa. Eles conseguem satisfazer a nostalgia dos fãs de Three Cheers for Sweet Revenge enquanto entregam uma performance artística digna de grandes produções da Broadway. O show no Allianz foi visualmente denso, musicalmente impecável e, acima de tudo, corajoso. Em uma era de apresentações pasteurizadas, ver uma banda “estripar” um personagem no palco principal de um estádio é a prova de que o rock ainda pode (e deve) ser perigoso. Edit this setlist | More My Chemical Romance setlists

Para mais um público novo no Brasil, The Hives diverte fãs de My Chemical Romance com show enérgico

Antes do show emocional do My Chemical Romance no Allianz Parque, na noite desta quinta-feira (5), houve a festa. A escolha do The Hives para a abertura foi um acerto perigoso. Durante 50 minutos, os suecos entregaram uma aula de garage rock. O vocalista, Pelle Almqvist, vestido a caráter (como sempre), não parou um segundo. Hits como Hate to Say I Told You So e a explosiva Tick Tick Boom fizeram o estádio pular, algo raro para bandas de abertura. O Hives não sabe se portar como entrada, é sempre o prato principal, deixando a função de sobremesa para o headliner da noite. Vale destacar ainda a presença do novo álbum, The Hives Forever Forever The Hives, que ocupou cinco das 11 faixas do repertório, trazendo muito frescor para quem curtiu o último show no Tokio Marine Hall, em São Paulo, em 2024. Enough is Enough abriu o show, Born a Rebel e Paint a Picture surgiram no início da apresentação, enquanto Legalize Living e a faixa-título vieram na reta final. >> LEIA ENTREVISTA SOBRE AS INFLUÊNCIAS DO THE HIVES Sempre carismático, Pelle Almqvist gastou o português durante a apresentação. Ao ser chamado de “gostoso” pelo público, sorriu e afirmou: “eu gostoso”, em português, arrancando muitos risos e aplausos dos público. O Hives aqueceu o público, mas também elevou a barra de energia lá para o alto. Com Pelle indo ao público algumas vezes e comandando palminhas, o Hives mostrou que consegue se adaptar a qualquer ambiente e público. É impressionante como conseguem conquistar fãs novos com tanta facilidade. Foi a quinta vez que assisti ao Hives e somente em uma delas eles foram a atração única da noite.

M. Shadows rebate críticas, improvisa clássico e comanda maratona do Avenged Sevenfold no Allianz

Quando o Avenged Sevenfold assumiu o palco do Allianz Parque para fechar a noite de sábado (31), encontrou um público já completamente aquecido pelas apresentações anteriores. O que se seguiu foi uma maratona: mesmo com um repertório enxuto de 17 músicas, o show ultrapassou duas horas de duração, sustentado por uma produção impecável e pela habitual entrega técnica da banda. No entanto, a noite não foi feita apenas de celebração. O vocalista M. Shadows se mostrou visivelmente irritado com as críticas prévias sobre o setlist, apontado por muitos como bastante similar ao apresentado no Rock in Rio. Resposta às críticas e improviso de “Seize The Day” As reclamações online não passaram despercebidas. Shadows comentou o assunto diretamente no palco, justificando as escolhas artísticas e defendendo a construção narrativa do show atual. Porém, em um gesto claro de respeito e conexão com os fãs, a banda quebrou o protocolo e improvisou Seize The Day, atendendo a pedidos insistentes da plateia. A execução deixou evidente que a faixa não estava ensaiada para o roteiro da noite, mas a promessa do vocalista de tocá-la perfeitamente na próxima vinda ao Brasil foi recebida com entusiasmo, transformando um momento de tensão em cumplicidade. Pedidos de casamento e chá revelação O caráter emocional da apresentação foi reforçado por momentos inusitados que quebraram a rigidez de um show de metal. O palco do Allianz Parque serviu de cenário para um “chá revelação” diante de milhares de pessoas e, pelo menos, dois pedidos de casamento ao longo da apresentação, reafirmando a relação próxima que o grupo mantém com seu público brasileiro. Saldo do Avenged Sevenfold em São Paulo O único ponto que soou como um leve tropeço na dinâmica do espetáculo foi a reta final. A dobradinha formada por Cosmic e Save Me, faixas longas, esta última ultrapassando os dez minutos, acabou esfriando parte da plateia após um show intenso e carregado de energia. Ainda assim, o saldo geral foi altamente positivo. O Avenged Sevenfold consolidou a noite no Allianz Parque como um evento que soube equilibrar espetáculo visual, identidade artística e uma conexão genuína, ainda que por vezes conflituosa, com seus fãs. Setlist do Avenged Sevenfold em São Paulo (31/01)

Fogo e protagonismo no Allianz mostram A Day To Remember pronto para arenas

Na sequência da noite de sábado (31), o A Day To Remember subiu ao palco do Allianz Parque para provar que pode ser uma banda de grandes multidões. O grupo, auto intitulado como a banda mais pesada de pop punk, montou um espetáculo visual claramente pensado para estádios, abusando de fogo, papel picado e pirotecnia, mas sem perder o foco na conexão humana com a plateia. Logo na abertura, The Downfall of Us All confirmou seu status de uma das melhores faixas para início de show da atualidade, elevando a energia do público instantaneamente. Protagonismo dividido Diferente de outras noites recentes de metal no Allianz Parque, como a dobradinha Bullet For My Valentine e Limp Bizkit, onde a disparidade foi notável, o A Day To Remember dividiu muito mais o protagonismo do evento com a atração principal. A resposta dos fãs foi imediata e intensa: grandes mosh pits, refrões cantados em uníssono e uma sensação constante de que a banda não estava ali apenas cumprindo tabela como coadjuvante. O novo e os clássicos O grupo aproveitou a estrutura grandiosa para apresentar faixas do seu álbum mais recente, o Big Ole Album Vol. 01, mesclando-as com os sucessos obrigatórios da carreira. A execução técnica e a presença de palco reforçaram que o ADTR domina a linguagem dos grandes festivais como poucos. Setlist do A Day To Remember em São Paulo (31/01)