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Entrevista | Dunstan Bruce (Chumbawamba) – “Nunca tivemos uma boa relação com o mainstream”

Tubthumping foi um sucesso estrondoso no mundo todo entre 1997 e 1998, chegando a fazer parte da trilha sonora do jogo Fifa (EA Sports). O que muita gente não sabe é que a canção famosa pelo refrão I Get Knocked Down compõe o oitavo disco da Chumbawamba, banda formada em Burnley, em 1982.

Anarquista e sempre envolvida em polêmicas, a Chumbawamba nunca fugiu das suas brigas. Foi assim quando criticou ações policiais no Reino Unido, atacou o primeiro-ministro e lutou por várias causas sociais ao longo de três décadas.

Em 2008 voltou a chamar a atenção quando entrou para o Guinness, o Livro dos Recordes, com o maior nome de um álbum: “The Boy Bands Have Won, and All the Copyists and the Tribute Bands and the TV Talent Show Producers Have Won, If We Allow Our Culture to Be Shaped by Mimicry, Whether from Lack of Ideas or from Exaggerated Respect. You Should Never Try to Freeze Culture. What You Can Do Is Recycle That Culture. Take Your Older Brother’s Hand-Me-Down Jacket and Re-Style It, Re-Fashion It to the Point Where It Becomes Your Own. But Don’t Just Regurgitate Creative History, or Hold Art and Music and Literature as Fixed, Untouchable and Kept Under Glass. The People Who Try to ‘Guard’ Any Particular Form of Music Are, Like the Copyists and Manufactured Bands, Doing It the Worst Disservice, Because the Only Thing That You Can Do to Music That Will Damage It Is Not Change It, Not Make It Your Own. Because Then It Dies, Then It’s Over, Then It’s Done, and the Boy Bands Have Won“.

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A tradução para esse nome é: “As Boy Bands Venceram, e Todos os Copiadores e as Bandas Covers e os Produtores de Reality Shows de Talentos Ganharam, Se Nós Permitirmos que a Nossa Cultura Seja Moldada por Imitações, Seja A Partir da Falta de Ideias ou de Respeito Exagerado. Você Nunca Deveria Tentar Congelar a Cultura. O Que Você Pode Fazer é Reciclar Essa Cultura. Pegue a Velha Jaqueta do Seu Irmão Mais Velho e Re-Transforme Seu Estilo, Re-Transforme Ao Ponto Em Que Ela Se Torna Sua Mesmo. Mas Não Apenas Regurgite A História Criativa, ou Entenda Que Arte e Música e Literatura São Coisas Fixas, Intocáveis e Guardadas Em Caixas de Vidro. As Pessoas Que Tentam ‘Proteger’ Qualquer Forma Particular de Música São, Como Os Copiadores e As Bandas Fabricadas, Fazendo o Pior Desserviço, Porque A Única Coisa Que Você Pode Fazer Com A Música Que Poderá Fragilizá-la É Não Mudá-la, Não Fazer Dela Algo Próprio. Porque Aí Ela Morre, Aí Tudo Acaba, E Tudo Chega Ao Fim, E Aí As Boy Bands Venceram“.

As atividades do Chumbawamba foram encerradas em julho de 2012, após 30 anos de carreira. Dunstan Bruce, um dos vocalistas do grupo, seguiu sua trajetória como cineasta e músico.

Recentemente, Dunstan Bruce participou de diversos festivais de cinema, inclusive o In-Edit Brasil, com o filme I Get Knocked Down, uma cinebiografia com uma boa dose de humor. No filme, Dustan está desiludido com o mundo que pouco a pouco vai indo pelo ralo. Aos 59 anos e prestes a se aposentar, ele é visitado pelo fantasma de seu passado anarquista – seu alter ego “Babyhead” – que o obriga a questionar sua própria existência, enviando-o em busca de suas raízes.

Lembrado por seu único hit Tubthumping, praticamente onipresente na programação da MTV nos anos 1990, Dunstan conversa com amigos, companheiros de banda, velhos anarquistas para tentar entender o que aconteceu com seu entorno.

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Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, Dunstan Bruce conversou sobre a carreira, problemas com a polícia, o maior hit, além de planos futuros. Confira abaixo.

A banda emergiu no começo dos anos 1980, quando o punk ainda era muito forte no Reino Unido. Como foi o começo para vocês?

Nós gostávamos de bandas do estilo pós punk, muitas do norte da Inglaterra ainda tinha o estilo “faça você mesmo”, mas sempre quisemos adicionar elementos políticos a nossa música. Quando descobrimos o que a banda Crass estava fazendo, ficamos muito animados, de como eles combinavam música e política. Nós queríamos ser um pouco como eles, assim como The Fall, uma combinação dessas duas bandas, para ser uma banda barulhenta de punk, e fomos por alguns anos.

Até que pensamos que talvez gritar na cara das pessoas não era a melhor forma de mudar a cabeça delas, e na época tinha membros da banda que sabiam cantar, era doido que não usássemos o talento deles. Escutávamos músicas que tinham harmonia e melodias, mas não expressávamos isso na nossa música, queríamos fazer nossa música mais inclusiva e fácil para os ouvidos, e ao mesmo tempo, começamos a usar mais humor nas nossas músicas, usar o teatro para expressar essas ideias, ser mais divertido no palco, durante os shows.

Todas essas coisas nos moveram para longe do som punk anarquista do começo para criar um som nosso, que refletia mais a música que ouvíamos. Mantivemos o anarquismo, porém decidimos que queríamos tentar alcançar mais pessoas, fazendo um som mais acessível.

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Como a indústria musical viu isso? Os posicionamentos anti-guerra, defensor das causas animais, entre outros?

A indústria não estava interessada na banda no começo, nem um pouco. Não fazíamos música comercial, de forma alguma. E nossas mensagens políticas não estavam na moda na época. Não fazíamos músicas que estavam no rádio e na TV, nem nas paradas de sucesso, mas o que fizemos foi construir uma base de fãs apenas por tocar ao vivo constantemente, fazíamos shows beneficentes, levantando dinheiro para as pessoas.

Estávamos viajando pela Europa em grandes turnês, no começo dos anos 1990 fomos para os EUA, mas era tudo underground, independente. E funcionou bem na época, foi muito animador, nos abriu horizontes, particularmente na Europa, em países como Alemanha, Suíça, Bélgica, Holanda, que tinham cenas anarquistas, nos ajudou a desenvolver nossas ideias sobre a influência que a música pode ter na sociedade, e o que se pode fazer para tentar mudar o mundo.

Foram anos muito formadores para nós, pudemos conhecer muitas pessoas, notar e sentir que somos parte de uma comunidade. Isso foi antes da internet, quando as pessoas escreviam uma para as outras ou ligavam. E foi assim que as pessoas faziam para acompanhar a banda pela Europa, foi muito importante para o nosso desenvolvimento.

Estávamos existindo alheio ao mainstream, não precisávamos deles, muitos representantes do mainstream não gostavam de nós, eles não tinham nos inventado, não tinham nos popularizado, nós fizemos isso sozinhos, nunca tivemos uma boa relação com o mainstream.

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Isso foi ótimo, muito mais prazeroso do que ser famoso e estar no mainstream. Quando fizemos sucesso não foi a melhor parte de estar na banda, antes quando tocávamos esses shows, sentíamos que tínhamos o controle.

Por que o punk não tem a mesma força de antes?

É estranho, pois acho que o punk serviu um grande propósito, particularmente para mim, na minha juventude, nos anos 1970. Foi a primeira vez que pensamos que podíamos fazer a diferença no mundo nos expressando, que tínhamos uma voz.

A segunda vez que senti que podíamos mudar o mundo, foi nos anos 1990, quando a música dance tomou controle. Pode ser devido a drogas que tomávamos na época, mas parecia um segundo surgimento de criatividade, energia e esperança.

Para mim isso se tornou o novo punk, pois era onde toda a criatividade, animação e esperança vinha, essa onda de pessoas criando coisas novas, a cena punk tinha perdido sua relevância de uma forma.

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É muito fácil esses movimentos se tornarem nostálgicos por não olharem para a próxima tendência que vem. Sempre pensei que era importante olhar para a próxima tendência, e o punk é como uma vaca sagrada, que temos permissão de sacrificar, não temos que nos ater a ele, podemos o reinventar e o redefinir. Podemos fazer algo novo com ele. Acho também que depende do que você acredita que o punk é, se você é da linha de pensamento que o punk é um estilo de música ou se é uma atitude.

Existe um festival em Blackpool, na Inglaterra, chamado Rebellion Festival, com quatro dias de punk, incrível. O número de bandas que toca lá, de todas as partes do mundo, novas e velhas, o senso de comunidade desses eventos é incrível, acho isso muito importante.

Acredito que as pessoas envolvidas nesses eventos são muitos admiradas por se manterem fiéis ao que acreditam, pois acho que muitas coisas que acreditávamos nos anos 1970 e 1980 continuam relevantes, continuam a inspirar a próxima geração de pessoas que decidirá o que é punk e o que não é.

Quando vou ver uma banda como Menstrual Cramps, por exemplo, acho que são uma banda punk pelo quão afrontosas são, pelas suas políticas, como se envolvem em movimentos políticos, muitas coisas. E acho que o que acontece é que existem milhares de bandas assim, que descubro quando vou no Rebellion Festival, mas o jeito que nós comunicamos está mudando, pois o mundo está mudando, então fazemos tudo isso de uma maneira diferente.

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Os jovens ainda me inspiram muito, vejo isso em todo lugar quando procuro na internet. Quando estávamos fazendo o filme I Get Knocked Down, parte dele é onde eu vou à procura de jovens ativistas e bandas, e os acho, basta procurar. Eles estão lá, mas de uma forma diferente do que nos anos 1970 e 1980.

Fiquei muito encorajado pelo fato das pessoas ainda dizerem coisas pela música, me irrita muito quando dizem “por que os jovens não estão protestando, não estão dizendo coisas em suas músicas?”, pois acho que estão, acho que minha geração fodeu com várias coisas.

Acho brilhante que os jovens queiram fazer algo respeito, e me irrita quando dizem que não são ativos, pois acho que são. Quando eu era novo, olhava para os mais velhos como inspiração, e acho brilhante que agora olho para os mais novos e me inspiro, adoro que a música de protesto ainda exista.

Não me incomodo com o rótulo de punk, acho que estou atrelado a ele, devido ao lugar de onde vim, mas acho que há muitas maneiras de tentar mudar o mundo, não precisamos todos tentar fazer da mesma forma. E é algo que aprendi fazendo o filme, que existem pessoas tentando mudar o mundo de diferentes formas.

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É estranho, as pessoas dizem para mim que se inspiravam pelo o que faço, mas tudo que fazia era subir no palco e gritar, e aí eles me diziam o que eles faziam, e acho que o que eles fazem é realmente underground, importante, salvando a vida das pessoas no dia a dia.

Isso me faz pensar, existe espaço para todos, e por que não chamar isso de punk também? Tudo bem, eu não ligo, não saio por aí falando que sou punk, essa discussão não leva a lugar nenhum, tudo o que me importa é se essas pessoas estão tentando fazer a diferença, seja se considerando punk ou não.

É a mesma coisa com anarquismo de um jeito, eu me vejo como um, mas não saio por aí falando “sou um anarquista”, pois acho que muitas pessoas fizeram coisas anárquicas sem chamar de anarquismo, seja na forma de tratar pessoas, de trabalhar com outras pessoas, de dar às pessoas igualdade de fala, de responsabilidade, respeito, esse tipo de coisa.

Associo o anarquismo com o senso comum o tempo todo, acho que muitos princípios do anarquismo são baseados no senso comum, e não na ganância e egoísmo. Acho que muitos de nós fazemos coisas de modo anarquista sem pensar. Não ligo muito para rótulos. Isso é estranho, pois quando vou apresentar um filme, não pareço com o público, não me visto como eles, mas tenho muito em comum com essas pessoas, e não importa como parecemos, sei que nossas mentes, crenças e padrões que queremos manter são próximos.

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É mais sobre a atitude, o senso de comunidade.

Sim. Eu não tenho problema com as pessoas quererem fazer parte de uma tribo, ou comunidade, acho que é uma coisa boa, pois nessas tribos e comunidades se recebe muito apoio, acho que é importante encontrar pessoas com afinidade.

Acho que o capitalismo adoraria que todos fossemos isolados, não tivéssemos essas conexões, ele adoraria que não quiséssemos fazer nada coletivamente com outras pessoas. Acho a comunidade algo muito importante.

Em algum ponto você acredita que a banda caminhou no sentido contrário ao ativismo?

Eu vou responder isso dizendo que nos primeiros anos da banda, antes de fazer sucesso, nós tentamos fazer coisas, tipo mudar o mundo, criar redes de apoio, fazer coisas por outras pessoas, encontrar novas formas de viver em conjunto, e o jeito como costumávamos expressar nossa política era muito importante para isso.

Durante os anos 1990, éramos uma banda independente, vivendo da banda, e isso era muito importante, nos possibilitou apoiar outras organizações, nos expressar, porém nossa plataforma era bem pequena, atingíamos poucas pessoas.

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Quando Tubthumping aconteceu, tivemos a oportunidade de fazer no mainstream, e atingir milhões de pessoas, com nossa mensagem política e com o que estávamos tentando fazer.

O que achei interessante sobre isso é que foi pré redes sociais, hoje é muito fácil mostrar às pessoas o que você faz diariamente. Se você quer falar sobre algo que leu no jornal, ou aconteceu na sua cidade, você pode fazer isso imediatamente, antigamente não se podia. Era impossível falar com os outros assim, se usavam cartas, que era algo que acontecia a cada três meses, mais ou menos.

Então, quando Tubthumping aconteceu, notamos que recebemos uma plataforma maior, devido a música, o que tentamos fazer foi usar essa plataforma para falar de outras coisas.

Se estivéssemos em um programa de TV, como o do David Letterman, poderíamos alterar a letra de Tubthumping para falar sobre um membro dos Panteras Negras que estava no corredor da morte por matar um policial, achamos isso ótimo, algo importante.

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Se alguém usasse a música em alguma propaganda, poderíamos dar o dinheiro recebido para estações de rádio anarquistas e outras organizações, tentando fazer as coisas em uma escala maior. E, ao mesmo tempo, as pessoas vieram a se tornar nossos fãs e não tinham conhecimento das coisas que fazíamos no cotidiano, era estranho que não conseguíamos comunicar tudo que estávamos fazendo. Por exemplo, “estamos fazendo isso na TV pois queremos saber se isso fará alguma diferença”, tentamos fazer as coisas por outra maneira durante muito tempo, estava bom, mas acho que chegamos em um estágio que poderíamos fazer algo diferente.

Nosso viés político não se alterou em nenhum momento, e para ser justo conosco, não caímos no estilo de vida rock n’ roll, devido a ser coletivos, estávamos cientes do que estávamos fazendo, o quão importante era a banda, o que nós fazíamos, como nos comportávamos em público, por sermos figuras públicas.

Isso causou alguns problemas, como no caso do Brit Awards, em que jogamos água no primeiro-ministro, isso nos trouxe muita atenção da imprensa. Não sei se essa é a resposta para a sua pergunta. Fizemos isso para apoiar alguns grevistas que trabalhavam nas docas.

O que aconteceu foi que a imprensa não falou nada disso, apenas de um bando de anarquistas jogando água em um político. Foi interessante, meio frustrante, a gente acha que determinado ato terá uma consequência, e o mainstream cria uma manobra e te trata como um bando de idiotas que joga água nas pessoas. Fomos aprendendo isso com o tempo, foi um processo interessante para nós.

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Ao mesmo tempo, ganhamos mais dinheiro para doar as organizações, nós tínhamos que tweetar sobre nossos atos, mas não existia essa ferramenta na época, para dizer “estamos defendendo essa pessoa, vamos nessa demonstração”.

Na sua resposta você menciona Tubthumping, por que você acredita que a música se destacou?

Acho que parte disso é sorte, timing, mas acho que o motivo da música ter funcionado mais do que qualquer outra música da banda é que a mensagem na música é tão universal, qualquer um pode usar aquela mensagem para qualquer coisa. Isso joga contra a gente às vezes, pois isso significa que políticos de direita podem usar, assim como os de esquerda, pois não conhecem o nosso viés politico, só sabem o refrão “fui nocauteado, mas levantei de novo”.

Não me surpreenderia se há algum tempo atrás o Bolsonaro tivesse usado essa música, pois é o que acontece, os idiotas da direita adotaram a música, pois não sabiam nada da banda. Aconteceu no Reino Unido, na Austrália e nos EUA, a direita pegou a música. Tivemos que chegar neles e dizer para pararem de usar a música, ou iríamos processá-los.

A música é empoderadora, há alguns meses nos mandaram uma foto de uma lápide que continha a letra da música, é estranho, porque alguém colocaria isso no seu túmulo? Foi nos EUA ou no Reino Unido. Essas coisas acontecem o tempo todo, pois a mensagem é universal, tocam em funerais, partidas de futebol, em todo lugar.

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Acho que não pensamos isso quando escrevemos, escrever algo tão vago, tínhamos uma música e precisávamos de um refrão, demorou muito tempo para criar o refrão. Um dia Boff (Whalley, vocal e guitarra) veio com ele, adoramos. As pessoas ouviram a música, viram que não era ofensiva, era animadora, isso mexeu com a imaginação das pessoas na época, ainda mexe.

Eu ainda vivo dessa música, assim como as outras sete pessoas que escreveram, devido ao fato das pessoas quererem usar ela o tempo todo, pela mensagem simples, acho.

Tubthumping obteve muito sucesso aqui no Brasil, você imaginou que faria tanto sucesso essa música?

Não, não tinha ideia. Muitos pensam que assinamos com uma grande gravadora e escrevemos a música, mas não foi o caso. Escrevemos a música um ano antes de lançar, está no disco que estávamos buscando uma forma de lançar.

A gravadora independente que estávamos na época, não gostou desse álbum, pediu para ser regravado, ou mudar o produtor, ficamos furiosos e saímos da gravadora. Tivemos que encontrar uma forma diferente de lançar a música, levou um bom tempo para achar alguém que se interessasse, até que gerou uma euforia em volta da música.

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Vínhamos tocando ao vivo, e nos diziam que a música era ótima, deveria ser um single, e concordamos, não sabíamos qual música utilizar, fomos com essa. Então se criou uma euforia maior ainda com ela, que foi gigante ao redor do mundo. Não tínhamos ideia do que ia acontecer, o sucesso no mundo, não planejamos isso, então tivemos que correr para acompanhar o que acontecia.

Eu odeio esses músicos que reclamam de como é difícil ser um músico, mas era difícil na época. As gravadoras geram muitas demandas para nós, não sei como girlbands e boy bands fazem, pois as demandas não são boas para a sua saúde, são apenas para vender o máximo possível.

Nunca prevemos que isso fosse acontecer, o divertido é que nunca mais aconteceu, somos uma banda de um sucesso só, de uma forma. Tentamos criar um novo hit, porém fracassamos, não foi uma sensação boa, nos sentimos sujos fazendo isso, foi estúpido.

Sempre tentamos fazer algo diferente do anterior a cada disco, então tentamos repetir, mas foi estupidez. Em resumo, não tínhamos ideia do que ia acontecer.

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Você tem orgulho dessa música?

Sim, tenho uma boa relação com a música, caso contrário não faria o filme I Get Knocked Down. As pessoas entram em contato comigo para falar “acabei de ouvir sua música em um programa”. O que acontece é: as empresas entram em contato conosco perguntando se podem usar a música, para um comercial, um filme, um programa de TV, e esses pedidos vão para duas pessoas da banda. Essas duas pessoas decidem por todos nós, seja um não definitivo, ou um sim. Seja qual for a definição, tudo bem, nunca fico sabendo, mas caso seja algo muito controverso, então todos temos uma conversa para decidir.

Mas acontece da música ser usada em algo e eu não ficar sabendo, então já aconteceu de ir ao cinema ver um filme novo e a música tocar no filme, daí tenho que explicar para quem está me acompanhando que não levei ela para lá por causa que minha música está no filme, nem sabia. Acontece o tempo todo.

Tenho muito orgulho da música, fizemos muitas coisas boas com ela, tentamos usar a posição que ela nos deu para o bem. Buscamos não nos perder no rock n’ roll mainstream. É engraçado, hoje não tenho nenhum amigo desse meio, nunca fizemos amizades neste mundo, você é convidado para adentrar este mundo e se tornar um completo idiota, mas nunca queremos fazer parte disso.

Esse mundo não faz bem para as pessoas, fama não faz bem para as pessoas, é raro que alguém use de uma forma boa. Tentando usar de uma boa forma, mas depois de dois anos muitas pessoas têm o burnout de tentar jogar esse jogo, pois não é um jogo muito legal, prazeroso. Você só pode apertar várias mãos, sorrir para tentar tirar algo da situação, e alguns membros da banda queriam voltar ao que fazíamos antes, ter o controle das nossas vidas.

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Quando se tem oito membros, e todos têm uma ideia semelhante do que querem fazer, conversamos, entre nós, como “você representa todos de nós, deveria observar como se comporta”, pois somos coletivo, é importante que mantenhamos uma ideia do que estamos tentando fazer.

Vocês ainda são amigos?

Sim, quando fiz o filme I Get Knocked Down, eu e a diretora fizemos uma chamada no Zoom com todos para apresentar. Foi uma experiência estranha para ela, pois não estava acostumada a estar com todos do Chumbawamba, já havíamos nos encontrado separadamente, mas não com todos juntos. E ela ficou impressionada, achou incrível a forma com a qual nos comunicamos.

Ela disse que era incrível ver que tínhamos essa conexão especial, nós nunca perdemos essa conexão, mas estamos trabalhando em coisas diferentes agora. Nunca quisemos reunir a banda novamente, mas sempre fomos muito solidários ao que todos estávamos fazendo. Essas pessoas ainda estão na minha vida.

Tive uma banda depois do Chumbawamba, chamada Interrobang?!, em que o baterista era o mesmo do Chumbawamba, foi muito incrível estar nela, pois eram apenas três integrantes, uma experiência muito diferente, gostei muito de participar. Não tínhamos a mesma pressão do que trabalhar em oito, era bom ser uma pequena união.

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Somos bons amigos ainda, isso é algo que faz parte do filme, a história do Chumbawamba não é sobre termos brigado, ido para reabilitação, ou depois de um tempo ter retomado a banda e virado grandes amigos novamente. Não é nossa história, não faz parte do filme, não aconteceu assim.

Alice Nutter (vocalista e percussionista) fez um comentário sobre a morte de um policial nos anos 1990, algo que gerou um cancelamento da banda. Você acredita que esse comentário foi o que fez a banda perder o apelo comercial?

Conversamos sobre isso, ela tem vergonha disso de certa forma, pois ela ficou ciente de que estava dizendo cada vez coisas mais ousadas. Ela não estava gostando disso, achava estúpido, nada produtivo, apenas jogar o jogo deles, ao invés do nosso.

Após jogar água no primeiro-ministro, muitos programas não queriam mais nossa presença pois acreditavam que faríamos algo similar, viam a nós como problemáticos. Então quando a Alice disse aquilo do policial, não pegou bem, soou como se ela tivesse dito isso para ser apelativa, chocante.

Houve um ponto ali sobre a brutalidade policial que queríamos falar, pois odeio os policiais, e o que eles fazem com a pessoa, os odeio como organização. A força policial aqui é horrível, corrupta, violenta, é institucionalmente fodida, precisa ser mudada completamente.

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Mas o que acontece é que se você ri quando alguém morre, você pensa na família dessa pessoa, seus filhos, parentes, você pensa no micro, não pensa no nível institucional, de que talvez a polícia por todo o mundo seja corrupta, facista, racista, não se pensa nisso. Obviamente não temos o controle da narrativa, Alice disse aquilo, mas não temos espaço para explicar, ou falar sobre a polícia. Não funcionou, de forma alguma. Foi quando começamos a entender como aquele mundo funcionava, e se não tivéssemos outro hit, seríamos expulsos de lá.

Entendo, moro no estado de São Paulo, estamos passando por ondas de violência. O que acontece é que alguém matou um policial, isso gerou mais violência.

O problema nesse mundo é que você não tem uma segunda oportunidade. Alice disse aquilo, as pessoas responderam de certo modo, não importa o que você faça para voltar atrás.

Atualmente você tem a peça Am I invisible yet? Como surgiu essa ideia?

Quando terminamos o filme, queria fazer algo diferente, e comecei a fazer uma performance de um homem só. Eu perguntei à diretora se ela achava que iríamos fazer outro filme em algum momento, e ela disse que não. Ela me disse que acha que sou melhor na frente das câmeras, ou nos palcos.

Portanto, eu disse, vou escrever esse show de um homem só, pegamos muitas ideias do filme, e expandimos para coisas que fazemos na meia-idade para tentar mudar o mundo, fazer diferença. Escrevi essa peça solo, com música, no Interrobag fizemos um disco, basicamente, queria fazer um segundo disco, mas nunca fizemos, então peguei letras que foram escritas para ele, e coloquei nesse show.

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A peça tem um pouco de atuação, um pouco de performance musical, e usamos um telão para passar filmagens, é uma apresentação multimídia. Combinamos esses elementos para falar o que você faz na meia-idade, tentando fazer a diferença. Nós tiramos a parte do Chumbawamba e fizemos mais sobre mim. Fizemos referência a Tubthumping, mas para fins cômicos.

Foi incrível pois nunca tinha feito nada assim antes, parte da ideia é sair da zona de conforto, fazer coisas novas. Para mim é sobre não parar de fazer coisas, e eu estava fazendo a coisa que disse que deveria fazer no filme. Foi algo muito empoderador e catártico de se fazer.

Escrevi durante o lockdown, então falava muito sobre o que faríamos quando acabasse o lockdown e que mundo encontraríamos, e mudamos, pois parecia algo muito fora do tempo, passamos desse ponto. Então farei apenas mais uma vez, já era.

Agora eu e ela (a diretora) estamos tentando escrever uma série de TV. Era escrever uma séria de TV ou escrever um livro. Mas morro de medo de escrever um livro, não sei se consigo.

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Por que?

Não sou muito disciplinado, escrevo de forma espontânea, sento por uma hora e escrevo, não faço de forma regular. Nessa série de TV, acho bem fácil de fazer, pois escrevo diálogos, e pareço ser capaz de escrever, sou eu tendo uma conversa com uma versão diferente de mim. É uma introdução à escrita, talvez depois disso escreva um livro.

Em algum ponto da sua carreira você pensou em vir ao Brasil ou nunca surgiu na sua agenda?

Nunca fomos à América do Sul, nunca fomos convidados, não é que nunca quiséssemos ir, mas nunca fomos convidados. Nunca visitamos vários países. A música é gigante na Austrália e na Nova Zelândia, mas nunca fomos lá, enquanto em outros países fomos repetidas vezes, como EUA, Europa e Japão. Fico triste por nunca termos sido convidados para a América do Sul, é uma parte do mundo que nunca exploramos, seria um sonho.

O que você sabe do Brasil?

Vi alguns comentários recentemente sobre o Brasil, então, claro, a principal coisa que sei é sobre o Bolsonaro ter sido eleito há alguns anos, como ele era uma imitação do Trump.

Você está mais por dentro da política, soube dos atos antidemocráticos dos apoiadores do Bolsonaro no início do ano?

Soube disso. O que sei é do que li, pois óbvio, apareceu na imprensa britânica, por ele ser parte do movimento de direita que ganhou força em todo o mundo. Ouvi há alguns dias que estão acontecendo coisas assim na Argentina agora, que a direita tem chances de ganhar a próxima eleição (foi antes da vitória de Milei).

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As duas outras coisas que sei sobre o Brasil é que o David Byrne tem uma grande conexão com o país, e claro, sobre o futebol brasileiro. A primeira copa que vi foi a de 1970, foi incrível, era como um outro mundo, eu tinha 9 anos, lembro de assistir. Rivelino era o meu preferido, jogando, eu era sempre o Rivelino.

O interesse nisso é que devido ao modo do brasileiro jogar futebol, deve ser um reflexo de como o país é, e é algo muito chamativo.

Quais são os três álbuns fundamentais para a tua formação como músico? Por que?

Um deles com certeza é Horses, da Patti Smith, pois quando o punk aconteceu, parecia algo muito masculino, então descobri esse disco e fui a ver quando era jovem. Ela mudou tudo para mim, é incrível, não podia acreditar no que estava vendo. Eu tinha as ideias da sociedade do que uma mulher podia fazer nos anos 1970, e me impactou tanto a ver, e pensar “essa mulher é incrível”.

Hoje ela é tão incrível performando quanto era na época. Esse álbum foi muito importante, pois não apenas mudou minha opinião na forma como vejo o mundo, e claro como me relaciono com mulheres, o que é muito importante. E a forma como ela ainda atua hoje em dia, fiel às suas verdades. Eu nunca a conheci, mas fico feliz por isso, não saberia o que dizer.

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Um dos primeiros que tive foi Schools Out, do Alice Cooper, de 1971 ou 1972, que me mostrou que eu poderia ser diferente. Ou melhor, não este álbum, apague isso, foi o do David Bowie que me fez pensar: “isso é estranho, o que esse cara está dizendo? O que é ele?”. Lembro do impacto que esse disco teve em mim.

Outro que na primeira vez que ouvi não entendi direito, foi o primeiro do Public Enemy. Não entendi o que era, como soava, o que estava fazendo. Crass também, a primeira coisa que ouvi, nunca tinha ouvido algo tão barulhento.

O primeiro disco do Underworld também. Eu tomava muito ecstasy na época, nada me fazia tão bem na época quanto ouvir este álbum e tomar ecstasy. Não foram três, acabaram sendo cinco.

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