Paura revela Primitive Chaos, buscando a brutalidade essencial do hardcore

Um dos nomes fundamentais do hardcore brasileiro, a banda Paura lançou nesta segunda-feira (31) seu nono álbum de estúdio, intitulado Primitive Chaos. Concebido como um exercício de minimalismo e peso, o trabalho busca o estado bruto da música, despindo-se de excessos e focar na reação imediata. O sucesor de Karmic Punishment (2023) traz 11 faixas inéditas que abordam desde batalhas íntimas e autoconfrontação até críticas contundentes contra o autoritarismo, a guerra, a hipocrisia moral e a xenofobia. A busca pelo estado bruto do som e da mente em Primitive Chaos Para o vocalista Fabio Prandini, o novo disco funciona menos como uma criação isolada e mais como um reflexo das contradições do mundo moderno, contrapondo avanços tecnológicos à permanência de impulsos primários. “Hoje entregamos nosso novo disco, Primitive Chaos, pro mundo. Entregamos não. Devolvemos. Porque ele veio do mundo, foi feito do mundo. É do mundo! Feito com raiva e amor”, afirma Prandini. Musicalmente, o álbum aposta em guitarras, baixo, bateria e voz diretas, priorizando o impacto físico e a concisão. Essa proposta se refletiu no primeiro single lançado do projeto, “Sarcastic Sadistic”.

Dinosaur Jr. solta There Near, seu décimo terceiro álbum de estúdio

Os gigantes do rock alternativo norte-americano, o Dinosaur Jr. disponibilizou na última sexta-feira (28) o seu décimo terceiro álbum de estúdio, There Near. O lançamento chega sob o selo da Jagjaguwar e veio acompanhado do videoclipe oficial para a faixa destaque Everything At Once, dirigido por Guy Kozak. A produção audiovisual retrata combates de armaduras medievais em um ambiente urbano e contemporâneo. Além disso, a banda aproveitou a novidade para confirmar a expansão de sua turnê pela América do Norte. Resgate de timbres clássicos do Dinosaur Jr. Concebido e gravado no Bisquiteen Studio, em Amherst, o trabalho reúne o trio clássico formado por J Mascis (guitarra e voz), Lou Barlow (baixo e voz) e Murph (bateria), além de colaborações pontuais de Ken Mauri no piano e órgão. Sonoramente, There Near traz guitarras ainda mais cruas e viscerais. Para o novo projeto, J Mascis adquiriu um amplificador Mesa Boogie MK 1 vintage dos anos 1970, o mesmo modelo utilizado nas sessões de gravação do álbum de estreia da banda em 1985. “Comprei o mesmo amplificador que o Chris Dixon tinha quando fizemos nosso primeiro álbum. Tem um som realmente interessante que eu não tirava há um tempo e que estava tentando resgatar neste álbum. […] Você ouve como o Rick Rubin faz as bandas sentarem e ouvirem o primeiro álbum para voltar àquele som. Então eu simplesmente me dei o conselho dele”, detalha J Mascis. O disco sucede o aclamado Sweep It Into Space (2021) e se consolida como o sexto álbum de inéditas lançado pelo grupo nos 20 anos desde sua reunião original.

Alabama Shakes lança I Must Be Dreaming, seu primeiro álbum de estúdio em mais de uma década

Uma das bandas mais aclamadas do rock e soul contemporâneos, o Alabama Shakes disponibilizou na última sexta-feira (28) o álbum I Must Be Dreaming. Lançado pela gravadora Island Records, o projeto marca o aguardado retorno em estúdio do trio formado por Brittany Howard, Heath Fogg e Zac Cockrell, sendo o primeiro trabalho de inéditas do grupo em mais de dez anos. O disco sucede o aclamado Sound & Color (2015), que estreou em 1º lugar na Billboard 200 e faturou três prêmios Grammy, incluindo Melhor Álbum de Música Alternativa. Soul psicodélico e arranjos experimentais Gravado em Nashville nos estúdios Sound Emporium e Blackbird Studio, I Must Be Dreaming foi produzido pela própria banda ao lado do engenheiro e produtor Shawn Everett (vencedor de seis Grammys). O trabalho aprofunda a sonoridade de soul psicodélico e amplia a paleta instrumental do grupo com o uso de flautas, cravos, sitar e densas camadas vocais. Liricamente, o álbum aborda temas como conexão humana, amor, mortalidade e as dinâmicas da vida moderna. O projeto começou a ser gestado no fim de 2024, após a reunião orgânica dos integrantes em estúdio, e já havia sido antecipado pelos singles Another Life, American Dream e I Feel Hope Coming.

Mike D (Beastie Boys) divulga o álbum de estreia solo, Thank You

Integrante do Beastie Boys, o músico e produtor Mike D (Michael Diamond) lançou na última sexta-feira (28) o seu primeiro álbum de estúdio solo, intitulado Thank You. Disponibilizado via Capitol Records, o projeto é o primeiro álbum completo de inéditas assinado por um membro do Beastie Boys em 15 anos. O trabalho reúne 13 faixas gravadas em um ambiente caseiro e livre de pressões mercadológicas. O resultado é uma mistura de post-electronic, breakbeats, acid rock e hip-hop alternativo, onde a voz de Mike D conduz arranjos intencionalmente crus e dinâmicos. O projeto envolveu uma rede colaborativa de produtores e músicos, incluindo seus próprios filhos (Skyler e Davis Diamond), além de nomes como Carter Lang, Jared Solomon, Ging, Jason Lader e Eddie Ruscha.

Atração do Rock in Rio, Nova Twins faz seu primeiro show como headliner no Brasil neste domingo

A Nova Twins retorna ao Brasil no próximo dia 6 de setembro para um encontro especial com o público paulistano. A dupla britânica formada por Amy Love e Georgia South será a atração principal do É Tudo Delas, no Cine Joia, em São Paulo, em seu primeiro show como headliner no Brasil e na América do Sul. A programação ainda reúne MC Taya e The Mönic, com ingressos disponíveis pela FasTix. A apresentação acontece apenas dois dias depois da participação da Nova Twins no Rock in Rio 2026 e ganha peso extra pela relação da banda com São Paulo. Segundo dados de plataformas que acompanham as estatísticas do Spotify, a capital paulista é atualmente a segunda cidade que mais escuta a dupla no mundo, atrás somente de Londres. Formada em Londres, a Nova Twins construiu uma sonoridade difícil de encaixar em uma única definição. O baixo de Georgia South assume um papel central e incorpora efeitos capazes de aproximá-lo da música eletrônica, enquanto a guitarra de Amy Love transita entre riffs pesados, ruídos e texturas. Metal, punk, grime, hip-hop, drum’n’bass e pop aparecem misturados em músicas construídas para funcionar com grande impacto ao vivo. As influências ajudam a explicar essa combinação. Amy e Georgia cresceram ouvindo Destiny’s Child e encontraram em “Survivor” uma referência de força feminina. Timbaland, N.E.R.D. e Skrillex influenciaram a abordagem de Georgia no baixo, enquanto Amy incorporou elementos associados a nomes como Jack White e St. Vincent. No palco, a dupla busca ainda a intensidade e o caráter explosivo de grupos como The Prodigy. Essa variedade aparece em faixas como “Antagonist” e “Cleopatra”, que exploram o lado mais pesado do grupo, enquanto “Drip” se aproxima do drum’n’bass e “Hummingbird” abre espaço para melodias mais evidentes. O resultado é uma música que preserva o peso das guitarras sem se limitar às estruturas tradicionais do rock. De Bring Me the Horizon a Foo Fighters A ascensão internacional da Nova Twins também colocou Amy e Georgia ao lado de alguns dos maiores nomes do rock contemporâneo. Em 2020, Oli Sykes, vocalista do Bring Me the Horizon, convidou a dupla para participar de “1×1”, faixa de Post Human: Survival Horror. A música ultrapassou 156 milhões de reproduções no Spotify e a colaboração posteriormente chegou aos palcos do Download Festival. Em 2024, a Nova Twins abriu apresentações do Foo Fighters durante uma turnê pela América do Norte. O terceiro álbum da dupla, Parasites & Butterflies, aprofundou essa conexão com o universo do rock de arenas ao contar com produção de Rich Costey, conhecido por trabalhos com Foo Fighters, Muse, Rage Against the Machine e My Chemical Romance. Já em 2026, Amy e Georgia excursionaram pelos Estados Unidos e Canadá ao lado de Evanescence e Spiritbox. Durante a turnê, também dividiram o palco com Amy Lee e Courtney LaPlante em “Fight Like a Girl”, reforçando a posição conquistada pela Nova Twins dentro da atual geração do rock pesado. MC Taya e The Mönic completam a noite O É Tudo Delas também coloca em destaque duas representantes da música pesada brasileira. MC Taya leva ao Cine Joia o chamado Metal Mandrake, combinação de nu metal, funk, rap e trap desenvolvida a partir de sua trajetória na Baixada Fluminense. Depois de iniciar sua relação com a música ainda na adolescência e passar por bandas de nu metal e hardcore, a artista consolidou sua identidade solo com trabalhos como “Preta Patrícia” e os EPs Betty e Histeria Agressiva 100% Neurótica. A The Mönic completa o lineup representando a cena paulistana. Formado por Ale Labelle, Dani Buarque, Daniely Simões e Joan Bedin, o quarteto chega ao evento depois de passagens por festivais como Rock in Rio e Knotfest Brasil. O grupo também é responsável pelo movimento Não Tem Banda Com Mina, iniciativa que promove a presença de mulheres na música e já realizou mais de 14 edições. A conexão entre as atrações brasileiras já existe fora do festival. MC Taya e The Mönic colaboraram em “Bitch Eu Sou Incrível”, lançada em 2025 pela Deck. Agora, dividem a mesma noite com a Nova Twins em uma programação inteiramente protagonizada por mulheres e que cruza diferentes vertentes da música pesada contemporânea. SERVIÇO É Tudo Delas – Nova Twins + MC Taya + The Mönic Data: 6 de setembro de 2026 (domingo) Horário: a partir das 18h Local: Cine Joia Ingressos: fastix.com.br/events/nova-twins-em-sao-paulo Preços entre R$ 175 e R$ 310 (meia-entrada e ingresso solidário disponíveis)

Blessthefall e Memphis May Fire transformam Carioca Club em uma grande roda de mosh

O Carioca Club viveu uma daquelas noites em que a divisão entre palco e pista praticamente desaparece. Blessthefall e Memphis May Fire se apresentaram neste sábado (29), em São Paulo, em dois shows marcados por intensidade, mosh pits praticamente constantes e uma resposta do público que acompanhou o peso das duas bandas. E, apesar de toda a brutalidade envolvida, houve outro ponto em comum: a qualidade sonora. Com os instrumentos ligados em linha e o uso de VSs, ambos entregaram um som extremamente definido, equilibrando peso, clareza e impacto mesmo nos momentos mais caóticos. Organizado pela Liberation, o evento levou um grande público ao Carioca Club, que ficou próximo da lotação máxima, e teve a banda brasileira Reckoning Hour responsável pela abertura da noite. A apresentação em São Paulo integrou a passagem das bandas pelo Brasil, iniciada na sexta-feira (28), em Belo Horizonte, e com encerramento neste domingo (30), em Curitiba. Blessthefall Coube ao Blessthefall entrar primeiro e estabelecer rapidamente o clima da noite. A banda apostou na combinação que ajudou a transformá-la em um dos nomes importantes do metalcore e post-hardcore norte-americano, alternando breakdowns, melodias e refrões que encontraram uma plateia disposta a participar desde os primeiros minutos. O público abriu rodas e respondeu aos pedidos da banda, enquanto o grupo evitava qualquer sensação de estar simplesmente preparando terreno para a atração seguinte. A performance também mostrou como o Blessthefall entende a dimensão física de seus shows. Mais do que executar as músicas, a banda estimulou constantemente a interação com a pista. O ápice veio justamente no encerramento, quando o vocalista se lançou sobre o público. Depois de mergulhar na multidão, fez o caminho de volta ao palco em crowdsurfing, fechando a apresentação com uma imagem que sintetizou bem o que havia acontecido até ali: público e banda funcionando como partes do mesmo espetáculo. Memphis May Fire Se o Blessthefall havia elevado a temperatura, o Memphis May Fire encontrou o Carioca Club pronto para continuar. “The Sinner” abriu o repertório recuperando uma das faixas mais emblemáticas de The Hollow (2011), antes de “Vices” manter a conexão com essa fase da carreira. A sequência, porém, deixou claro que o show não viveria apenas de nostalgia. “Paralyzed” e “Shapeshifter” colocaram o material mais recente lado a lado com músicas que ajudaram a construir a trajetória do grupo. Essa mistura de períodos funcionou como um retrato amplo da evolução do Memphis May Fire. “Bleed Me Dry”, “Somebody” e “Misery” mantiveram o equilíbrio entre agressividade e refrões melódicos, enquanto “Left for Dead”, “The Other Side”, “Infection” e “Overdose” reforçaram a abordagem mais moderna e direta da banda. Matty Mullins, que esteve recentemente no Brasil liderando o Amberlin no Emo Vive, esteve seguro durante toda a apresentação, transitando entre vocais limpos e rasgados sem deixar que a intensidade comprometesse a execução. Na pista, entretanto, precisão era a última preocupação. Dois pontos diferentes de mosh pit se formaram ao longo da apresentação, criando núcleos de movimentação que cresceram conforme o show avançava. O Carioca Club respondeu especialmente bem aos breakdowns, com aquela dinâmica característica do gênero em que alguns segundos de expectativa são suficientes para abrir espaço antes da explosão seguinte. “Make Believe”, “Versus” e “Love Is War” conduziram o bloco final antes do encore. A volta trouxe primeiro “Miles Away”, oferecendo um raro respiro emocional em uma noite dominada pelo impacto físico. Era apenas a preparação para a reta final. “Blood & Water”, uma das músicas mais fortes da fase recente do grupo, recolocou imediatamente a pista em movimento. Foi em “Chaotic” que a noite encontrou sua imagem definitiva. Os dois mosh pits que até então ocupavam partes diferentes da pista se transformaram em uma grande roda, tomando uma parcela considerável do Carioca Club. Em vez de simplesmente terminar o show com mais uma música pesada, o Memphis May Fire conseguiu fazer o público produzir o clímax visual da apresentação. Blessthefall e Memphis May Fire entregaram propostas suficientemente próximas para dividir a mesma noite, mas com identidades bem definidas. O primeiro fez da proximidade física com os fãs uma das principais armas de sua apresentação; o segundo construiu um set que percorreu diferentes momentos da carreira até desembocar no caos coletivo de “Chaotic”. Com execução impecável no palco e uma pista em movimento quase permanente, a passagem das duas bandas por São Paulo mostrou que, quando o metalcore encontra o público certo, o espetáculo acontece dos dois lados da grade.

Com referências “do Canal 1 ao 7”, banda santista Bayside Kings lança álbum Atlas

O Bayside Kings, um dos nomes de maior destaque do hardcore nacional, lançou o álbum, Atlas (Deck), junto com o clipe da faixa de abertura Só Eu Sei e Mais Ninguém. O título remete ao titã Atlas, condenado por Zeus a sustentar o peso dos céus. “Todo mundo tem um pouco de Atlas na própria vida. Todo mundo carrega alguma coisa e tem suas próprias responsabilidades, e só cada um sabe o peso delas”, explica o vocalista Milton Aguiar. Ao longo de 14 faixas e 28 minutos, Atlas fala sobre atravessar fronteiras, não apenas geográficas, mas também sociais e emocionais, e dialoga com a relação da Bayside Kings com a Baixada Santista, onde o grupo surgiu. Isso aparece já em Só Eu Sei e Mais Ninguém, cheia de referências a Santos, como no verso “do 1 ao 7”, que faz alusão aos canais que atravessam a cidade. “Antes de falar sobre os limites que queremos romper, fazia sentido começar dizendo de onde a gente veio”, diz Milton. O clipe foi gravado no píer de Mongaguá num domingo de manhã, antes da chegada dos banhistas. Com 16 anos de carreira, a banda descreve Atlas como um retrato do momento atual do grupo: “mais maduro, mas não menos inquieto”, com mais melodia, groove e, pela primeira vez, duas guitarras. “A gente vem da praia. A gente faz hardcore e é totalmente caiçara”, ele resume. O álbum marca uma nova fase da banda, com o retorno do guitarrista Marcão após oito anos afastado. A formação atual é Milton Aguiar (vocal), Teteu (guitarra), Manolo (baixo) e David Gonzalez (bateria). O show de lançamento será no dia 6 de setembro, no Rock in Rio.

Roberto Verta, do pós-punk de Santos à curadoria de um dos palcos do Rock in Rio

Seja operando os toca-discos nos tradicionais clubes caiçaras do fim dos anos 1970, revolucionando o underground nacional com a banda Harry na década seguinte, ou encabeçando as maiores turnês internacionais que o Brasil já viu, a bússola de Roberto Verta sempre apontou para o mesmo norte: a música. Hoje, o publicitário e produtor santista, com mais de 40 anos de indústria fonográfica, é o grande nome por trás da curadoria do Palco Supernova, no Rock in Rio. Esbanjando a energia de quem acabou de começar, Verta traçou um caminho inédito. Saiu da Baixada Santista aos 19 anos como um fã obstinado para se tornar um executivo de ponta, com passagens marcantes por gravadoras como RCA, BMG, Universal e Sony Music, além da produtora T4F. Nas últimas oito edições do Rock in Rio no Brasil, ele esteve presente nos bastidores, gerenciando gigantes como Guns N’ Roses e Oasis. Mas afinal, como um pioneiro do pós-punk santista chegou à cadeira de cocriador e curador de um dos palcos mais disputados do maior festival de música do país? Engenharia por trás do Palco Supernova Desde 2019, o Supernova nasceu de uma parceria estratégica entre a Sony Music e o Rock in Rio para ser uma vitrine de novos talentos e projetos especiais. O palco cresceu e, para a edição atual, espera receber até 10 mil espectadores por dia, com uma escalação que vai do rap e trap ao hardcore e MPB. Com uma lista inicial que passa dos 150 nomes, Verta precisa equilibrar o instinto artístico com a precisão dos algoritmos. Mas engana-se quem pensa que o engajamento digital é o fator decisivo para a escalação. “O mais importante não é isso (número de seguidores). O mais importante é a música. Antes de mais nada, tem que ser legal”, crava Verta, explicando como garimpa atrações que, independentemente do tamanho atual de suas redes sociais, entregam qualidade no palco. “Depois de alguns anos trabalhando nesse negócio, a gente consegue sacar quem é de verdade”. O número de seguidores entra na equação em um segundo momento, principalmente para garantir o posicionamento e o horário correto do artista dentro do festival. “A gente quer que o artista toque para um público legal. Então, procuro me colocar no lugar do fã, imaginando a experiência que vou ter ali naquela noite com aquela sequência de shows”. Olhar estratégico para a Baixada Santista Mesmo trabalhando com nomes do mainstream pop latino, como o fenômeno argentino Milo J, Roberto Verta não tira a Baixada Santista do radar. Nas edições anteriores, o curador já havia aberto as portas da Cidade do Rock para expoentes da região, como as bandas Zimbra, Surra, Bula e Dani Vellocet. Na edição deste ano, o hardcore pesado e a tradição caiçara retornam ao festival com o Bayside Kings. A escolha, segundo Verta, passa pela verdade e pela potência que o grupo entrega ao vivo. “Eu coloquei o Bayside Kings porque é foda pra caralho, é uma maior energia… hardcore total. E é meio que um herdeiro dessa cultura de praia que tem aqui”, ressalta. “Eu procuro sempre ajudar sempre que eu posso a galera de Santos, porque acho que tem gente muito legal aqui”. Pioneirismo vanguarda e as raízes no Harry A bagagem que Verta utiliza hoje para avaliar um artista em desenvolvimento foi forjada na prática. Antes de virar executivo, ele sentiu na pele os desafios de criar música alternativa no Brasil. Na juventude, rodou clubes santistas como Heavy Metal, Sírio Libanês, Caiçara e Clube XV trabalhando como DJ. Em 1977, com a explosão do punk rock e sua energia bruta, a vontade de tocar guitarra falou mais alto. Foi nesse cenário efervescente que conheceu Johnny Hansen, César e Renato Grilo, formando a banda Harry. A banda marcou época e moldou uma estética que o Brasil ainda engatinhava para compreender. “Não existiam muitas bandas nesse momento pós-punk que faziam o que a gente fazia no Brasil. Cantar em inglês naquele momento, misturar o punk com instrumentos eletrônicos…”, relembra. A introdução dos sintetizadores no som da banda veio de uma epifania de Verta. “Eu conheci uma banda chamada Tubeway Army, e uma música chamada Are Friends Electric?… Aquilo me endoidou por sintetizadores”. Sendo responsável pela produção das primeiras demos e dos dois primeiros discos do Harry, ele começou a entender que seu futuro também estava atrás da mesa de som. “O meu negócio era música. Aí um dia eu achei no jornal um anúncio pra ser auxiliar de escritório na RCA Victor, em São Paulo. Falei: ‘Bom, auxiliar de escritório é uma merda, mas pelo menos eu tô perto da música’”. Daquele anúncio, aos 19 anos, Verta foi redirecionado por falar inglês ao departamento internacional, dando início ao seu império nos bastidores. Bastidores tem histórias com Oasis e Madonna Essa imersão na indústria fonográfica rendeu a Verta transições pelas grandes mudanças de formato, do vinil ao CD, do CD aos downloads pagos inventados por Steve Jobs, e finalmente à era do streaming. Como produtor de shows internacionais pela T4F entre 2007 e 2013, o santista assinou as passagens de U2 (360 Tour), Madonna e Roger Waters pelo país. O relacionamento próximo com grandes artistas o colocou em situações que até hoje rendem boas histórias, como conseguir entrevistas exclusivas (e separadas) com os geniais e imprevisíveis irmãos Noel e Liam Gallagher, do Oasis, durante a última turnê da banda, na Venezuela, e acompanhar as peculiaridades de Noel em recusar táxis de gravadoras para usar o transporte público de Londres. “Os caras são muito loucos, né? Mas muito loucos todos eles são. Agora, o Noel Gallagher é um puto de um talento, sabe? Um puta gente boa”, pontua. Retorno ao lar Em setembro de 2020, impulsionado pela mudança na dinâmica de trabalho durante a pandemia, Roberto Verta decidiu voltar a morar em Santos com a família. O retorno à Baixada não diminuiu seu ritmo. Em seu estúdio caseiro, além de focar na mixagem de faixas inéditas do Harry, celebrando a memória do saudoso vocalista Hansen, ele segue ditando os rumos da música contemporânea no Brasil. Seja revelando

Lenda do Vulcano, Angel alça voo solo com banda paraguaia e abre o jogo sobre o mercado da música

Ângelo Cantalupo de Maria, ou simplesmente Angel (e Uruka, para os clientes de tatuagem), está prestes a completar 63 anos, mas a energia gutural que ajudou a moldar o heavy metal extremo na América do Sul segue intacta. Após décadas como frontman do Vulcano, banda santista que é referência mundial no estilo, Angel agora escreve um novo capítulo: uma carreira solo que já nasceu cruzando fronteiras. O pontapé inicial dessa nova fase aconteceu no início deste ano. Após uma participação especial com o Vulcano em um show com a banda americana Obituary, em São Paulo, o telefone tocou. Era um produtor de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, maravilhado com a performance e interessado em levar o vocalista para um show. “Eu falei: ‘Bom, vou te dar uma opção. Eu posso ir solo, mas vou precisar de uma banda de apoio’”, relembra Angel. A solução veio de Assunção, no Paraguai, com a banda Atomic Curse. Formada por músicos que já eram fãs declarados do Vulcano, a química foi instantânea. Com passagens pagas para ensaiar no país vizinho, o vocalista se surpreendeu com o preparo dos paraguaios. “Tudo de primeira, cheguei a ligar as aparelhagens. De primeira ali, os caras já… foram nove músicas do Vulcano, baseadas no Live! até o Bloody Vengeance. No outro dia tocamos, tudo perfeito. Até hoje estou impressionado e agradecido de ter encontrado eles”. O projeto engrenou. O primeiro show oficial ocorreu em maio, em Assunção. Logo na sequência foi a vez da Bolívia, em Santa Cruz de La Sierra. Para 2027, Angel já possui alguns shows agendados na Europa. E a nova formação, que viaja sob o nome Angel, já planeja o lançamento de um EP conjunto, com quatro composições inéditas do vocalista e faixas do Atomic Curse. Nascimento da voz de Angel e a influência sobre o Sepultura Nascido em Montevidéu, no Uruguai, e registrado em Porto Alegre, Angel desembarcou na Baixada Santista ainda pré-adolescente. Seu primeiro contato com a música pesada foi com a banda Satanic, de Praia Grande, no final dos anos 1970. Mas foi em 1984 que a história mudou. Convidado inicialmente apenas para participar de uma foto por conta de seu visual roqueiro (“tinha o cabelão na cintura”), ele acabou fazendo um teste para o Vulcano. Foi durante esse ensaio, improvisando em cima de uma base pesada do guitarrista Johnny Hansen e do líder Zhema, que a identidade vocal de Angel surgiu. “Ó, vou tocar aqui na guitarra e você canta o que você quiser”, disseram a ele. “Já comecei a botar uma gutural lá, umas coisas assim bem gutural. Aí parou, cinco minutos, um olhou para a cara do outro. O Zhema falou: ‘Amanhã a gente começa a ensaiar’”. Essa voz marcou o disco Bloody Vengeance (1986), considerado um clássico do metal extremo. A sonoridade chamou a atenção de um jovem Max Cavalera. Segundo Angel, Max chegou a declarar que aquela era a música mais pesada que já havia escutado. A conexão com os mineiros, aliás, é um orgulho para a cena santista. “O Zhema sempre estava como promotor para promover o Vulcano. Não foi nem um, nem dois, foram três shows que eles (Sepultura) foram convidados, até então nunca tinham tocado em São Paulo. O Zhema proporcionou o empurrãozinho no início do Sepultura”. O impacto não parou no Brasil. A brutalidade do Vulcano atravessou o oceano e forjou a base do black metal no norte da Europa, influenciando gigantes da Dinamarca, Finlândia e Noruega. Lendas, ossos e igrejas em chamas No rock, a música caminha lado a lado com a mística, e a trajetória de Angel é repleta delas. Uma das maiores polêmicas envolveu um ensaio fotográfico para a Revista Veja, em um cemitério de São Paulo. A banda levou ossos humanos reais, emprestados de uma faculdade de medicina por um amigo. O problema? A matéria foi publicada com uma frase inventada, afirmando que os ossos haviam sido “surrupiados de um cemitério de Mongaguá”. A brincadeira virou caso de polícia. O baterista Laudir Piloni chegou a ser indiciado. Para evitar um flagrante, a banda tomou uma medida drástica. “Pegamos, martelamos ele, quebramos tudo e jogamos no canal lá na Praia Grande. O Laudir quis falar que era de plástico. Ninguém ali era caçador de ossos! Mas fez barulho. E rock’n’roll é isso, vocês fazem barulho e se projeta”, diverte-se o vocalista. Outra lenda famosa envolve a capa do disco Bloody Vengeance (1986), que trazia uma igreja e um padre em chamas. Poucos anos depois, a onda de incêndios criminosos em igrejas varreu o norte da Europa, capitaneada por membros da cena black metal. O álbum do Vulcano chegou a ser censurado no continente europeu, saindo com uma capa preta. Angel teria inspirado os crimes? “Os caras olharam a capa e pensaram: ‘Que ideia legal, como a gente não pensou em queimar uma igreja?’. Não confirmo nem desminto. Deixa como lenda, né? Cada um tire sua conclusão”. Uruka, arte na pele e na estrada Paralelamente aos palcos, Angel construiu uma sólida carreira como tatuador. Sob a alcunha de Uruka, ele empunha máquinas desde 1981. Apesar de lamentar a atual crise de desvalorização do mercado da tatuagem no Brasil, ele encontrou uma forma de unir suas duas paixões na atual turnê. “É juntar o útil ao agradável. Inclusive nesses locais que eu tô indo, eu tô levando a máquina de tatuagem, já tem uma pré-divulgação para os fãs e conhecidos que quiserem tatuar comigo. Chego um ou dois dias antes do show e uso os dias que antecedem”.