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Entrevista | Val Santos – “O heavy metal nunca saiu de mim”

Recentemente, o guitarrista e produtor Val Santos lançou o primeiro álbum solo da carreira. Conhecido pelo trabalho de anos dentro do Viper, Vodu e Volkana, ele diz que o disco 1986 foi feito especialmente para traduzir o amor pelo heavy metal. Claro, de maneira muito pessoal e com parcerias especiais.

O projeto é mais do que uma homenagem para a década que firmou os maiores artistas do gênero. Metallica, Megadeth e Iron Maiden foram inspirações para as letras e melodias datadas. Uma verdadeira viagem no tempo para os apaixonados que vivenciaram esse período de revolução musical, mas um meio também de conquistar os mais jovens que acabaram de entrar neste universo.

Projeto antigo

Todo o processo de criação começou há nove anos, quando o músico baiano passou a compor músicas de heavy metal e decidiu guardar em seu portfólio de canções. O guitarrista é o principal compositor da banda de rock alternativo Toyshop, mas confessa que sentia falta do estilo histórico que o conquistou ainda na adolescência.

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“Crio para minha banda também que é mais pop punk e pop rock. Mas o heavy metal nunca saiu de mim, foi onde comecei. De lá para cá fiquei compondo e guardando. Foi em 2015 então que pensei em fazer um disco com essas músicas. Fui separando as que achava mais legais e notei uma cara dos anos 1980. Aí veio a ideia de fazer uma homenagem, já que foi onde comecei”.

Neste longo processo de composição, 20 músicas foram concebidas, mas ao final apenas dez foram para o disco. Três delas, releituras de criações antigas do disco All My Life, do Viper, lançado em 2007. Cross the Line, Miracle e Dreamer foram repaginadas e regravadas, ganhando acordes ainda mais trabalhados. O álbum ainda conta com o cover Allied Forces da banda canadense Triumph, que fez parte da juventude do músico.

Homenagem aos anos 1980

Por curiosidade, a ideia do nome do disco foi uma sugestão do amigo de longa data Felipe Machado, guitarrista e fundador da Viper, onde Val começou como baterista na década de 1980.

E não era para menos, 1986 foi um ano icônico para a música e também para a carreira de Val. Discos como Master of Puppets, do Metallica, Reign in Blood, do Slayer, Somewhere in Time, do Iron Maiden, e Peace Sells… but Who’s Buying, do Megadeth, foram lançados neste ano. Além disso, foi a data em que Cliff Burton, baixista do Metallica, faleceu em um acidente durante uma turnê da banda na Europa, fato que marcou a adolescência de Val.

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365 dias de altos e baixos para o heavy metal, mas a principal lembrança para o músico foi o ponta pé com a primeira música composta por ele, cheia de significados e finalizando o álbum de maneira épica.

“Eu tinha 16 anos na época, quando compus a Warriors of Metals, canção que fecha esse disco. É claro que eu dei uma repaginada, me baseando em uma música do Helloween, Walls of Jericho. Se você pegar ela tem certa semelhança. Com tanta coisa, tinha tudo a ver colocar 1986 no nome do disco. O Felipe sacou muito bem essa ideia”, comenta.

Álbum dos sonhos de Val Santos

Apesar de o disco ser todo inspirado na década do heavy metal e em um ano tão especial quanto 1986, o álbum ainda conta com um estilo diferenciado, mesclando trash metal e hard rock também. Por isso, o guitarrista tomou cuidado ao escolher quem participaria. Cada música pedia uma atmosfera diferente e assim, colaborações distintas de quem conhece cada melodia.

No single de abertura Fire, Val convidou Yohan Kisser para o segundo solo da faixa. Inspirada no som pesado de Battery, do Metallica, o guitarrista da banda Sioux 66 não poderia ter ficado de fora e entregou um resultado excepcional junto do músico Alexandre Grunheidt, da Ancestral, aprimorando a agressividade do vocal.

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Felipe Machado também não deixaria de participar, já que tem uma amizade forte com o guitarrista desde 1984, em uma longa trajetória musical compartilhada. Ele aparece em Dead Words, uma das músicas mais pesadas do projeto, ao lado de Leandro Caçoilo, vocalista do Viper.

E um convite especial que não chegou a ser realizado foi à parceria com André Matos, amigo de infância de Val. O músico participaria da música Miracle, mas faleceu em 2019 devido a um infarto agudo do miocárdio. Como homenagem, o guitarrista chamou Bruno Sutter, vocalista da banda Massacration, que era um grande fã de André.

Convidados especiais

Nomes como Fabiano Carelli, guitarrista da Capital Inicial, e Marcos Kleine, do Ultraje a Rigor, estão no disco. Além disso, Rob Gutierrez, do Hollowmind, Pompeu, da Korzus, o guitarrista Thiago Oliveira, o vocalista Brunno Mariante, Marcos Naza, da Skyscraper, o baterista da Vodu, Sérgio Facci, o músico e produtor de Santos, Rodrigo Alves, o baixista Rodrigo Ferrari e vocalista Mauro Coelho, também deixaram uma marca registrada no projeto, contribuindo para o resultado final tão esperado por Val.

“Por causa deles esse disco ficou muito bom. Cada um ia me mandando suas partes pela internet e eu ficava ‘cara, olha esse solo’ ou ‘olha como esse cara cantou’, então as músicas iam ganhando mais vida com a participação de cada um. Fiquei feliz da vida. Foi o disco dos sonhos para mim”, revela o músico.

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Paixão por filmes e universo geek

Tanta emoção na produção, criação e concepção do álbum de uma vida, que Val não deixaria de colocar a mão na massa até nos mínimos detalhes. Das composições aos convites, o músico revela que teve o prazer de idealizar tudo, dentro e fora do disco. E o principal, inspirado por um filme de 1983. Novamente, a década que o marcou.

“A capa foi feita por mim. Sabe Scarface? Tem o DVD assim. Preto, branco e com o vermelho representando sangue. Fiz me baseando nisso. O mais engraçado é que eu tenho amigos que são fotógrafos que fazem trabalhos excelentes e me criticaram por não estar tão boa. Eu sei disso, mas a intenção é que eu fizesse tudo para ficar a minha cara. O disco inteiro está do meu jeito, fiquei muito satisfeito”, diz bem-humorado.

E para quem não sabe, o guitarrista além de cinéfilo, tem um lado geek que transcendeu para a música. Fã de animações, da franquia Star Wars e dos filmes inspirados nos quadrinhos da Marvel e DC, Val fez a música Superheroes em homenagem aos mais aficionados por esse universo nerd.

“Eu não sou um hard geek, mas tenho coleções, por exemplo. Se entrar no meu quarto parece uma Disneylândia dos bonecos. Tenho quadros do Star Wars e um boneco grande do Darth Vader. Tudo que vou ganhando, guardo com carinho, os fãs também me mandam coisas porque sabem que gosto. Foi assim que pensei em fazer uma música em tributo aos desenhos antigos”.Val Santos

Lançamento durante a pandemia

Cada uma das faixas desse projeto é como um filho para o compositor. Quando questionado qual delas seria a favorita, a indecisão paira pelo ar. Mesmo gostando muito da música Fire, que foi composta quase sem querer quando o guitarrista estava passando o som de outra canção, ele confessa que regravar Cross the Line foi um presente.

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“É a música que compus para o Viper e que gosto muito. Fãs vieram me falar que eu melhorei muito ela, porque a gravação da época não ficou do jeito que eu esperava. Eu buscava algo mais pesado e não consegui naquele tempo. Agora ela ficou do jeito que eu queria”.Val Santos

Segundo o músico, oito clipes estão sendo preparados para o lançamento. 6 deles são lyric vídeos e dois presenciais que serão gravados em setembro, após a segunda dose da vacinação da covid-19. O primeiro da faixa Fire e o segundo de Miracle, que vai contar com a participação de Bruno Sutter e do baterista do Viper, Lary Marshall.

Mesmo com a pandemia, Val sentiu um retorno positivo dos fãs quanto ao álbum. Com mais de 15 mil visualizações do álbum no Spotify nos primeiros dois meses de lançamento, a internet foi aliada para que a estreia fosse possível. Mesmo ainda em quarentena por conta do isolamento social, o músico deu um jeitinho de finalizar as composições em parceria com os colegas.

“As gravações fiz em home estúdio. Meus amigos iam enviando as músicas gravadas. Nesse caso a internet ajudou muito. Eu posso fazer collabs, cada um faz da sua casa e fazemos os vídeos no final. Assim, vamos conseguindo nos virar. A internet ainda ajudou para continuarmos criando, foi uma ajuda de cem por cento, ou ficaríamos loucos”, brinca.

Nova geração dentro do rock por Val Santos

Mesmo com a paixão pelos anos 80 e as bandas mais antigas dentro do segmento de heavy metal, Val não tem preconceitos com os músicos mais jovens. Segundo ele, muitos grupos bons estão surgindo, partindo do punk até o pop rock. Com conteúdo interessante, ele sempre escuta algo novo no fone de ouvido e compartilha com os amigos.

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“Gosto de bandas que são criativas, que não ficam fechadas em um estilo só e que principalmente fazem música boa. O rock em geral voltou para o underground, mas tudo bem, desde que as pessoas continuem compondo”.Val Santos

E se a turma mais velha gosta de criticar os novos talentos do rock n’roll, o músico vai à contramão. Para ele a qualidade e técnica estão muito melhores e os instrumentistas jovens não perdem nesta competição.

“Os músicos estão tocando bem melhor hoje em dia, no sentido da técnica. O Eloy, baterista do Sepultura é um ET, por exemplo. Nunca vi gente tocar no mundo assim, com tanta agilidade. Mas no geral, mesmo os bateristas de bandas que são mais pops, são muito melhores, mais estudados do que a nossa geração. Estava conversando com um amigo da minha idade e falei ‘ouve esses moleques tocando, não conseguimos mais tocar desse jeito não’. Estão dando de dez a 0 na gente”, brinca.

Novo álbum de…Forró

Engana-se quem pensa que apenas o heavy metal influenciou Val Santos. O guitarrista apesar de ser um eterno apaixonado por este estilo, também foi marcado por outras melodias um tanto quanto diferentes. Nascido na Bahia e filho de um sanfoneiro, o músico cresceu ouvindo o Rei do Baião.

“Desde criança escuto Luiz Gonzaga, isso graças ao meu pai. Em 1986 fui no show dele, isso com apenas 16 anos. Lá na Bahia, subi ao palco com ele. Tenho que dizer que minha primeira influência foi o forró”.

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Mesmo assim, Val foi fisgado pelo som de uma banda de hard rock dos Estados Unidos que explodiu na televisão brasileira nesta mesma época.

“O Kiss é a minha banda religião, foi a primeira coisa que ouvi e falei ‘quero ser roqueiro’. Quando eles vieram pela primeira vez ao Brasil, em 1983, passou no Fantástico em entrevista. Só que eu tinha 13 anos e meu pai não me deixou ir no show. Mas foi aí que percebi de fato que o vírus do rock tinha me pegado e estou até hoje contagiado”.Val Santos

Com tantas influências, o músico promete mais duas partes desse álbum. A segunda já está prevista para o próximo ano, dando continuidade ao heavy metal e incluindo os amigos que ficaram de fora da primeira etapa.

As composições continuam, mas Val já tem dez músicas separadas que não foram para a primeira leva de canções do projeto. Dentre essas, ele adianta que terá também hard rock e uma em especial inspirada na banda Journey.

Parte três é desafiadora

A parte três é a mais impensável. Como bom eclético que é, indo de Luiz Gonzaga a Metallica facilmente, o guitarrista pretende mesclar forró, rock e reggae. Já imaginou? Calma, que tem mais. As possíveis participações já estão anotadas: Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, para uma canção pop rock, o próprio pai de Val tocando sanfona em um forró pé de serra, além da banda Leões de Israel para o som roots.

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“Cada música vai ter um estilo diferente. Disco music, pop rock, hard core, punk e música brega. Vai ter de tudo. Será o disco mais desafiador, mas o mais divertido também. É difícil compor estilos tão diferentes. Heavy metal é natural por que é de onde eu parti, mas como ouço tudo, adoro música no geral, essa terceira parte vai ser um desafio”.Val Santos

Mesmo com as dificuldades enfrentadas com a pandemia, o músico pretende lançar a terceira parte em 2022, um ano após a segunda. Para isso, ele não para. Continua compondo a cada mês e estudando as possíveis colaborações.

“O que demora também é que lanço as músicas para os artistas que eu convido e às vezes demora um pouco pra eles me mandarem de volta. Cada um tem seu trabalho e suas coisas, então tenho que compor rápido, porque sei que essa parte demora um pouquinho mais. Mas a ideia é lançar um disco por ano para completar minha trilogia Val Santos”, finaliza.

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