Entrevista | Carla Mariani – “É nossa obrigação, mas uma obrigação boa e prazerosa”

Com mais de 13 anos de carreira, Carla Mariani vem se reinventando a cada projeto. Com muitas canções autorais e releituras de grandes artistas do jazz e blues, ela é conhecida por seu timbre, no qual coloca todo o sentimento em pauta ao enfrentar novos projetos em tempos de pandemia. Vem disco por aí? Após três anos desde o último EP, Time, a cantora diz que tem buscado novas estratégias para alcançar o seu público. “Tenho trabalhado em lançar singles, pois chamam mais atenção do público. Parece que hoje em dia as pessoas não têm muita paciência para escutar várias músicas novas de uma só vez”. Coronavírus e seus desafios Com a chegada inesperada da covid-19, muitos músicos tiveram que arrumar novos meios de conseguirem renda para manter-se vivos. Para Carla Mariani não foi diferente. A cantora tem buscado se reinventar dentro de seu estilo musical, buscando sempre ter um perspectiva positiva desse período de isolamento. “Tem sido muito difícil, né? Eu ainda dou aulas de canto, então inicialmente consegui manter pelo menos metade da minha renda, mas muitos de nós não. Mas tenho tentado enxergar esse período da forma mais positiva possível e estou tentando me reinventar, e acredito que seja esse o caminho. Eu, por exemplo, tenho estudado muito sobre produção musical, estou fazendo cursos sobre mixagem, para poder fazer as minhas coisas sem precisar sair. Montei um home studio com ajuda de amigos, como o Jota do Lobo Estudio e o Suzuky, e tenho lançado vídeos de diversos estilos, para não cair no esquecimento”. Novas vertentes musicais Ano passado tivemos o lançamento de At Last, single autoral em parceria com Yan Cambiucci. Questionada se manteria a parceria, disse que a parceria está confirmada. E, além de Yan, Heittor Jabbu também está incluso. Ademais, afirmou que tem escutado bossa nova e jazz, e que esses estilos musicais devem influenciar em suas próximas composições. Juntos Pela Vila Gilda Confirmada no Juntos Pela Vila Gilda, junto com a companheira Letícia Alcovér, Carla considera o evento de extrema importância. Acredita que todos os artistas possuem o dever de ajudar quem possui necessidades, e que a solidariedade dos artistas locais é extremamente necessária para que através da arte, possam estar arrecadando verbas para os necessitados. “É nossa obrigação, mas uma obrigação boa e prazerosa”, finaliza.

Entrevista | Wiseman – “Arte é vida. Arte é política e bem-estar”

A programação do Juntos Pela Vila Gilda tem vários nomes independentes que merecem sua atenção. Um deles é a banda paulistana Wiseman, que possui uma sonoridade carregada de influências de alto nível dos anos 1990. Composta por Thiagones (voz e guitarra), Luiz Chagas (bateria) e Paulo Sepúlvida (baixo), a banda nasceu em meados de 2013. Lançou a primeiro demo Reflex em 2014 e também um EP promocional em 2016. Apesar de carregar a influência de Nirvana, Seaweed, Quicksand, Farside e outras, o som do Wiseman não soa datado. Ao contrário, a banda trabalha bem as influências para entregar algo original. “Não queremos fazer músicas tipo banda X ou Y. Montamos, arranjamos, compomos os sons da forma que achamos que irão soar bem”, diz Thiagones. “As influências fazem parte da gente e obviamente estarão em nosso trabalho, mas não buscamos soar similar a elas, sabe?”, complementa. O álbum Mind Blown Em 2018, o Wiseman lançou seu primeiro álbum, Mind Blown, trazendo à tona um som denso, pesado e consideravelmente “sujo” e distorcido com vocais transitando entre belas melodias, gritos rasgados cheios de fúria e agressividade. O álbum possui dez faixas gravadas em inglês e a temática de não tolerar qualquer tipo de preconceito, como também não mais se submeter aos velhos preceitos e dogmas. O vocalista Thiagones reflete sobre as questões que englobam o mundo nos dias de hoje. “A vida é feita de ciclos. Estes ciclos acabam se repetindo principalmente quando não aprendemos com o passado. O que acontece no Brasil (especificamente, pois é aonde temos a vivência) é meio que isso. O país nunca enfrentou o passado da ditadura, nunca puniu ninguém, ou corrigiu os rumos que a escravidão deu às vidas dos descendentes do povo negro. Nunca. Sempre foi no jeitinho”. “Aboliram a escravidão. Deixaram os escravos à própria sorte, enquanto os colocavam sistematicamente à margem da sociedade. O resultado disso é esse populismo frouxo e tosco, que hoje flerta com o fascismo”. Thiagones, vocalista e guitarrista do Wiseman Para ele, nunca houve uma educação realmente libertadora, que proporcionasse um direcionamento sobre o que é cidadania para o povo, bem como ensinasse senso de comunidade. O vocalista acredita que enquanto o país se negar a aprender e corrigir os problemas do passado, não teremos um futuro. Por fim, Mind Blown contou com a produção e mixagem de Ali Zaher Jr e Thiago Babalú. Sua masterização foi feita em Los Angeles por Nick Townsend, que já trabalhou com bandas renomadas como Paramore. Ouça Factory Floor: Wiseman e os desafios da pandemia Antes da pandemia causada pelo novo coronavírus, a banda tinha iniciado seus trabalhos para o desenvolvimento do novo álbum. Entretanto, com o presente momento, estão replanejando não somente o cronograma do grupo, como também suas vidas pessoais. Sendo assim, a banda acredita que a retomada aos palcos deve começar a acontecer nos próximos meses, visando 2021. “O problema vai ser: as pessoas ainda estão interessadas em shows underground? Esse é um questionamento que vem desde muito tempo. Shows vazios, cenário com pouca rotatividade de atrações em eventos de maior porte”, comenta Thiagones. “Esse vai ser o grande desafio do underground em 2021: atrair pessoas para esse rolê independente. Talvez as coisas migrem em parte para o ambiente virtual. Veremos…” Wiseman no Juntos Pela Vila Gilda Para o Juntos Pela Vila Gilda, a banda está preparando dois sons épicos de épocas diferentes, mas que possuem a mesma energia – claro, em um formato homeoffice e acolhedor. Em síntese, eles acreditam que a participação e união dos artistas é algo muito importante para a causa. “Arte é vida. Arte é política e bem-estar. Neste momento que o país atravessa, com essa quadrilha que está (des) governando o país, mais do que nunca somos nós por nós. Se não fizermos, eles não farão. Logo, se cada banda, artista, performer puder fazer um pouco, juntando tudo, será muito”, finaliza Thiagones.

Entrevista | Slick – “A música é uma ferramenta de transformação”

O rapper Slick, de Guarujá, é uma das atrações confirmadas para a ação Juntos Pela Vila Gilda, do Blog n’ Roll. Como artista, ele vê o evento como uma forma de contribuição. A iniciativa busca receber doações para arrecadar cestas básicas às pessoas de baixa renda da região. Isso porque muitas foram afetadas pelas consequências da pandemia. “É de máxima importância, todo artista deve contribuir com a sua arte, principalmente para ações como essa. A música é uma ferramenta de transformação, então devemos usá-la para o bem”, diz Slick. Arte e pandemia Recentemente, Slick lançou o single Renascimento. Ele diz que pretende dar uma inovada no repertório, mas sem perder a sua essência. O rapper está criando projetos musicais nesse período, embora esteja sendo difícil ver tudo o que está acontecendo devido a covid-19.  “Tá sendo bem difícil, toda a preocupação que a pandemia gera. As vidas que estão sendo levadas por causa desse corona, dói. Também pra gente que trabalha com a arte tá sendo complicado, a renda financeira tá super baixa pra nós artistas independentes. Mas, seguimos fazendo o que a gente pode até essa pandemia acabar. Tenho criado muitos projetos musicais, tô estudando muito produção musical, o que tá rolando na cena. Isso para lançar meus próximos sons com uma melhor qualidade”.  Slick Família é motivação para Slick A família está muito presente nas inspirações de Slick nos últimos lançamentos. E nesse momento de pandemia, destaca que está sendo de extrema importância. “Esse período que passamos mais tempo juntos em casa, só deixa nossa conexão mais forte. Tenho mais tempo para passar com minha filha e minha esposa, o que vai unindo mais nossa família”. Motivado por sua família e seu sonho, Slick pretende alcançar com sua arte o máximo de vidas. “E de alguma forma ajudar cada pessoa a nunca desistir dos seus sonhos e sempre se esforçar para ser uma boa pessoa. Também quero viver 100% da minha música, poder pagar minhas contas com a música”. Vamos Juntos! Juntos Pela Vila Gilda vai ao ar no dia 25 de julho, no YouTube do Blog n’ Roll. Na ocasião, haverá um QR Code para pessoas e empresas fazerem suas doações. Slick será um dos mais de 100 artistas confirmados no evento. No entanto, a lista completa de artistas só será revelada no dia 13 de julho.

Entrevista | Pilar – “Você tá doando porque está recebendo e vice-versa”

Campo-grandense de nascimento e radicada em São Paulo, a cantora Pilar, de 24 anos, tem vivido um momento especial. Do ano passado para cá, ela se apresentou no Brazilian Day de Estocolmo (Suécia) e no Festival Mundo Psicodélico, em São Paulo. Gentilmente foi o single que impulsionou a carreira da cantora. Mas foi com o EP de estreia, Confluir, lançado em maio, que Pilar consolidou o grande momento. O trabalho conta com seis músicas autorais, incluindo uma parceria com Zeca Baleiro (Favela City). A ligação de Pilar com a música, no entanto, é muito mais antiga. Desde os cinco anos, ela se viu incentivada pelos pais. “Desde cedo fui muito conectada com a música e posso dizer que meu gosto musical também era bem eclético, desde nova. Minhas primeiras referências eram Tribalistas, Buena Vista Social Club e Elis Regina, mas ao longo dos anos fui escutando de tudo que é gênero possível. Eu tive várias fases e sei que a minha musicalidade vem dessa influência mesmo, dessa fusão de todos os ritmos e gêneros que gosto de escutar”. Parceria com Zeca Baleiro A ligação com Zeca Baleiro veio pelo produtor, Adriano Magoo, que também é tecladista do maranhense há anos. Coincidentemente, no dia em que ele escutava a mix de Favela City, tinha uma gravação agendada com Zeca. “Ele ouviu e se interessou, gostou da música. E tinham oito compassos que estavam só instrumental e aí acabou acontecendo essa parceria. Foi uma experiência única, o Zeca é um puta artista, puta compositor, admiro muito o trabalho dele, então, foi um enorme privilégio poder gravar uma música com ele”. Paixão pelo jazz Do Zeca Baleiro ao Buena Vista Social Club, ou da Elis Regina ao Bob Marley, Pilar não perde a mão na hora de trabalhar seu caldeirão de influências. Passeia pelo reggae, pop, jazz, soul, mas todos com uma boa roupagem de MPB.  “Me sinto mais à vontade no jazz. Eu gosto muito de cantar jazz, tudo que envolve usar mais a extensão vocal, brincadeira de improviso de voz, essas coisas, me sinto numa zona de conforto”. Pilar em vários idiomas Outra característica da obra de Pilar é cantar em vários idiomas. No EP de estreia, ela canta em português, espanhol e inglês. Para a artista, a questão de chegar ao mercado internacional é mais um benefício do que o propósito em si. “Como minha base de estudo musical foi o canto lírico, sempre tive esse hábito de cantar em italiano, espanhol, latim. Então, já tinha essa coisa como cantar em outros idiomas e era algo que tinha muita vontade de trazer para as minhas composições, essa pluralidade mesmo”. Um dos grandes destaques de Confluir é a divertida Namastreta, com o refrão: a vontade mesmo, era mandar você se fuder, mas eu digo, namastê. A vontade mesmo, era mandar você pra aquele lugar, mas te desejo paz de Jah. “Eu escrevi ela muito espontaneamente, não foi nem com o intuito de produzir, gravá-la. Só que ficou tão legal que no fim o produtor falou a gente tem que gravar essa música”.  A inspiração para a canção não teve nenhuma pessoa em especial como inspiração. “Foi uma semana que estava tudo dando errado. E eu sou uma pessoa que busco ter esse equilíbrio emocional, ter essa conexão com o espiritual, não me deixar abalar tanto pelas coisas que acontecem no dia a dia. Mas querendo ou não, a gente é humano, né? E tem horas que é muito difícil a gente não se deixar levar pelas emoções. Namastreta acabou saindo como uma forma de desabafo mesmo”. Pilar no Juntos Pela Vila Gilda Confirmada no Juntos Pela Vila Gilda, Pilar acredita que a ação social é um ciclo de energia. “Você tá doando porque está recebendo e vice-versa. É algo que quanto mais a gente pratica, mais a coisa se torna automática e inerente nossa”. “A ação achei muito legal. É realmente usar essa visibilidade que a gente tem pra tá levando isso a mais pessoas, trazendo essa consciência de ajudar e tentar fazer nosso papel ali, faz uma diferença gigante”.