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Entrevista | Blind Pigs – “São Paulo Chaos já tinha letras que atacavam a extrema-direita”

Na última sexta-feira (3), o Blind Pigs anunciou o relançamento de São Paulo Chaos, primeiro álbum de estúdio da banda de punk rock. Há 25 anos, o disco foi lançado pela gravadora Paradoxx Music e produzido por Jay Ziskrout, ex-baterista do Bad Religion. Além disso, a obra também foi distribuída pelo selo Grita! nos EUA, Europa e Japão.

A princípio, a banda era composta por Henrike, Gordo, Mauro, Fralda e Arnaldo e, para ambos, o lançamento do álbum foi uma experiência única e um divisor de águas em suas carreiras, já que pela primeira vez, os paulistas entravam em um estúdio para trabalhar com um produtor experiente.

E para celebrar os 25 anos desse disco tão importante, São Paulo Chaos ganhou uma edição limitada de 250 cópias. Em resumo, a nova versão conta com vinil colorido, capa gatefold, encarte com fotos inéditas da época do lançamento e, também, masterização do Jay Ziskrout.

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Desta vez, o lançamento é assinado pela gravadora norte-americana Pirates Press Records. Além disso, a banda também lançou um cartão postal que toca a faixa Verão de 68, que aborda os tempos de luta contra a ditadura militar brasileira.

Para falar mais sobre o relançamento de São Paulo Chaos, o Blog n’ Roll conversou com o vocalista da Blind Pigs, Henrike Baliú. Além do LP, o artista também relembrou momentos especiais da trajetória da banda paulista, além de comentar sobre a banda Armada.

Por fim, Henrike também lamentou a atual situação política brasileira e deixou um recado: “Fora Bolsonaro”.

São Paulo Chaos permanece um álbum provocativo, mesmo 25 anos após o seu lançamento. Em tempos de um Brasil que flerta com o fascismo, é possível afirmar que a obra é ainda mais provocativa hoje, do que em 1996?

Eu considero sim várias músicas do São Paulo Chaos super atuais, apesar de terem sido feitas há 25 anos. Você pega, por exemplo, Conformismo e Resistência e é uma música que sempre será atual, já começa por aí. E você vê também que no São Paulo Chaos, a banda já tinha letras que atacavam a extrema-direita.

Aliás, o disco já começa com Fuck The TFP (Foda-se a TFP, sociedade brasileira em defesa da tradição, família e propriedade). Então desde a época das demos do Blind Pigs, eu já escrevia letras que atacavam o neofascismo brasileiro. Então sim, todos os discos do Blind Pigs têm um “quê” de atualidade. São músicas que você vai poder tocar toda hora e elas sempre vão ser atuais.

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Quais foram os aprendizados mais valiosos ao longo desta trajetória?

O Blind Pigs não existe mais desde 2015, mas é engraçado que a formação que gravou o São Paulo Chaos (eu, Gordo, Fralda, Mauro e Arnaldo), quando o Blind Pigs chegou ao fim, na formação estávamos eu Gordo, Mauro e o Arnaldo. Então foi legal que a Blind Pigs acabou com quatro integrantes que gravaram o São Paulo Chaos, que foi o primeiro álbum da banda.

Cada integrante deve ter aprendido alguma lição (risos). Não sei que lição aprendi, talvez musicalmente falando, aprendi a abrir um pouco mais os horizontes musicais, escutar outras coisas (não só o punk rock) e até flertar com outros estilos, assim como hoje faço com o Armada.

Os processos criativos e produtivos passaram por alterações com a maturidade dos integrantes? Atualmente, de que forma ocorrem esses processos (composição, gravação, produção) em seus projetos solos?

Dentro do Blind Pigs variava muito. Ou o Gordo vinha com um riff, uma melodia pra eu colocar a letra em cima. Ou eu vinha com uma letra já inteira pronta, pra ele colocar uma música em cima. De vez em quando o Mauro vinha com uma música e uma letra mais ou menos pronta e eu inseria a letra. Depende, a gente nunca seguiu uma linha de composição, como por exemplo: “tem que ser assim, assim que nós fazemos músicas”. Não, sempre foi diferente, cada um sempre teve a sua doideira.

A letra de Verão 68 relata as vivências de Margô, uma jovem de classe média que decide lutar na guerrilha urbana contra a ditadura militar brasileira. Qual é a sua sensação ao se deparar com os eleitores fanáticos do presidente Jair Bolsonaro reivindicando pela volta da ditadura, em pleno 2021?

Acho um extremo absurdo, patético e ao mesmo tempo assustador, ver pessoas flertando com esse neofascismo tupiniquim. Achei que a ditadura tinha ficado para trás, né? Tanto é que em 2000, o Blind Pigs lançou a música Órfão da Ditadura, que também é super atual. Então, acho assustador e ao mesmo tempo patético, é uma mistura de emoções. Vamos ver o que o 7 de setembro aguarda pra nós, brasileiros.

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Já existem projeções para um retorno aos palcos em 2022? E um possível show especial para celebrar o LP comemorativo de 25 anos do primeiro álbum?

Como a banda não toca desde 2015, não existem planos para fazer nenhum show comemorativo do Blind Pigs, nem nada assim. Por enquanto, a gente só está conversando entre si sobre esses lançamentos, que estão sendo bem bacanas. Mês que vem a Pirates Press Records lança mais um disco do Blind Pigs; vai ser um picture disk do Blind Pigs bem bacana chamado The Last Testament [O Último Testamento]. Mas a Blind Pigs não tem planos de ressuscitar, por enquanto.

São Paulo Chaos foi responsável por tornar a Blind Pigs reconhecida não só no Brasil, mas também em outros países. Qual é a relação de vocês com o público estrangeiro?

Eu lembro que quando saiu o São Paulo Chaos em CD pelo Grita!, no mundo inteiro, foi muito interessante, porque no CD tinha o endereço da caixa postal do Blind Pigs E aí eu ia toda semana lá na caixa postal e estava sempre abarrotada de cartas do mundo inteiro. Então era muito louco. Uma vez eu recebi uma carta de um detento americano no Texas, que tinha o CD. Recebi algumas cartas de Cuba, olha que interessante!

Também recebi muitas cartas de países da América Latina, especialmente do México. Algumas cartas também de Hong Kong e até do Japão, onde acabei fazendo trocas de discos com o pessoal que era fã do Blind Pigs; eles me mandavam material de banda punk rock japonesa, que eu pirava na época e eu mandava o material do Blind Pigs em troca (risos). Também recebemos bastante carta da Alemanha.

Naquela época era carta mesmo, não tinha e-mail, então a gente fazia tudo na base do papel e da caneta. Então era muito bacana chegar toda semana lá na caixa postal, abrir, e ter esse tipo de surpresa (cartas vindo ao redor do mundo). Foi uma época muito bacana.

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As redes sociais exerceram um importante papel na vida dos artistas, durante o período pandêmico. Vocês se aproximaram mais dos fãs, por passarem mais tempo conectados? E qual a adesão dos fãs brasileiros mais novos, como os millenials, que cresceram imersos na tecnologia?

Olha, eu acho que para se aproximar do fã de verdade, é um show ao vivo, né? E mais do que show ao vivo, o Blind Pigs, quando existia, sempre fazia questão de ficar no meio da galera, antes ou depois do show, tomando uma cerveja, trocando ideia com a molecada (legião de inconformados, como a gente chama o pessoal que curte a banda). Então sinto falta disso, isso realmente é um contato.

Você fazer uma live, contatos pela internet, tudo isso é legal e válido. Mas nada bate aquele lance de você estar tomando uma cerveja e vem um cara: “Porra, e aí Henrike? É do caralho que você tá aqui na minha cidade, Blind Pigs mudou minha vida”. Esse contato é muito bacana, eu sinto muita falta disso. Molecada subir no palco, cantar as músicas junto, você dá aquele show onde o moleque sai todo suado.

Mas mesmo antes da pandemia, eu já via essa diferença. Até indo em shows de outras bandas, você via a molecada mais “domada”, hoje a galera não está tão ensandecida como era nos anos 1990 e começo dos anos 2000 (as pessoas iam nos shows e saíam ensanguentadas, encharcadas de suor e de cerveja).

Por experiência própria, nos shows antes da pandemia, eu via pessoas mais preocupadas em registrar o show no iPhone, do que curtir. Mas é a nova geração, né? E a nova geração vai substituindo a antiga. E por aí vai.

Além da divulgação do LP comemorativo de São Paulo Chaos, quais são os planos da Blind Pigs para o último trimestre de 2021? Existe a possibilidade de uma reunião com a formação original? Ou o foco está no Armada e O Preço?

A banda tem falado bastante com a Neves Records, uma gravadora independente, para relançar o que falta de discografia, como por exemplo, as fitas demos do Blind Pigs. Mas o foco mesmo é na Armada e O Preço.

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Por exemplo, na Armada, estamos com o disco pronto. Falta adicionar as vozes (ainda não consegui inserir por conta da pandemia, mas acredito que ainda esse ano eu consiga colocar).

O Preço acabou de lançar um EP, pela Neves Records e pela Detona Records (um EP em vinil, bem bacana). Então o foco, no momento, e na Armada e O Preço.

Eu e o Gordo não sentamos e falamos: “vamos voltar com o Blind Pigs!”, a gente tá curtindo esses relançamentos. E também com a pandemia, nem a Armada e nem O Preço estão tocando. Falar de show em plena pandemia é difícil.

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