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Pega a Visão - Isabela dos Santos

De Facção Central à MC Choice: nostalgia, crescimento, novas influências e mudanças no RAP

ISABELA DOS SANTOS

Comecei a ouvir RAP quando criança, não me lembro a idade ao certo e nem como foi. Lembro da minha amiga escutar Ao Cubo e eu gostar. Comecei com a música Cinderela e achava fascinante poder ouvir um depoimento daquela forma. De repente, estava escutando Facção Central e a realidade na letra Eu não pedi pra nascer me encantava ao mesmo tempo que chocava. Como alguém poderia viver naquela situação? Pensei eu. O RAP foi uma das formas de me conectar com outras realidades.

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No meio disso, comecei a escutar também Gabriel o Pensador. Adorava Estudo Errado e me sentia a maior crítica do ensino quando colocava pra tocar. Nessas músicas se encontram relatos, narrativa linear de uma história com começo, meio e fim. Tinham de cinco à oito minutos (muitas vezes, até mais), o que nos dias atuais pode ser considerada “longa” ou algo muito bom “pra tudo isso”. Não sei exatamente quando isso mudou, mas de repente eu estava escutando RAP sem histórias, com muitas rimas, verdades ditas, mas sem a mesma linearidade. Estava se falando sobre tudo, várias punchlines, as músicas estavam mais curtas, diferentes no conteúdo. A influência de novos sons nos beats e as diferentes entonações na voz marcava esse modo de fazer RAP.

O álbum do Criolo Nó na Orelha, de 2011, é uma representação bem significativa e logo se tornaria referência. No início, Bogotá tem influências de vários sons. A segunda faixa, que eu ouço constantemente até hoje, Subirusdoistiozin já começa na revolta, o beat pesado e o tal “flow” do artista dominando o som. A terceira é Não existe amor em SP é o puro desabafo de uma cidade triste, composta de pessoas tristes. A emoção em sua voz, a tristeza na batida e o clima totalmente diferente da música anterior tornou a faixa mais especial, se diferenciava de tudo na cena. Tocava os ouvintes, têm resquícios dos RAPs antigos, porém algo totalmente original. Tornava-se referência. A grande mídia também aplaudiu a criação.

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Logo veio a explosão de artistas como Projota, Emicida, Rashid. Inclusive, Criolo e Emicida ganharam, em 2011, prêmios no VMB da MTV, dando mais visibilidade para o RAP Nacional. E dali em diante se tornaram referências na boca do povo. As batalhas de RAP pelo Brasil também conquistaram espaço devido às novas influências. Exceto Criolo, os outros três rappers citados são crias de batalhas. Começava assim, a intensificação dos encontros de freestyle. Isso interferiu diretamente em como esses novos rappers se manifestariam em suas músicas.

No ambiente de batalha, muitas rimas são lançadas em curto período de tempo e com a prática, mais palavras vem na cabeça para rimar e isso ajuda na composição das músicas. A criatividade nas letras aumentou, as referências aumentaram. As batalhas (levadas a sério) exigem um grau de estudo e as referências na ponta da língua. É um leque de novas possibilidades, de rimar. Dá pra falar do mesmo assunto de diversas formas. Os beats mudaram e as músicas não tem uma história narrada com começo meio e fim. Os frutos das batalhas mesmo sem perceber, modificaram um pouco o modo de fazer.

Os álbuns sendo substituídos por EP, várias situações sendo despejadas de uma vez só. Também tem o lado ruim: o crescimento de indiretas em cypher, disstrack, o papo de “eu sou o melhor” devido a rivalidade com outros MCs de batalha é levada para o estúdio. O que faz o RAP Game queimar um pouco da cena. Mas enfim. Não é de todo mal. O RAP está acompanhando as mudanças e cada MC tenta inovar da maneira que consegue. E o que estou vendo é a ascensão dos MCs de batalha e as mudanças que eles tem provocado na cena.

Choice é um desses. O Super Hip Hop ou o Rei Rubi como o próprio se intitula. E eu escuto muito o som dele, assim como eu escutava os de antigamente. É estranho comparar com Facção Central e Ao Cubo. São totalmente diferentes. Fala-se de tudo em apenas três minutos. No primeiro eu me sentia mais reflexiva e atenciosa a letra, ouvindo os MCs atuais eu tenho vontade de agir e cantar junto. Claro, tem aquela diferença, as influências do Trap e tudo mais. Porém isso não desqualifica como corrente do RAP.

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Eu me sinto super representada com Jovens Campeões, a música que saiu no Rap Box. Você dá play na música e parece que ela já acabou, dá vontade de repetir de novo e de novo. É viciante. Agora pega os primeiros artistas que gravaram no canal. Não é questão de estilo de cada MC e sim de influências daquela época. E não foi tão longe assim, começou em 2012. A cena mudou drasticamente e está se adaptando.

Como citado, o lado ruim das expansões das batalhas e do próprio RAP em si é o tal do RAP Game, que envolve muita briga entre rappers e letras atacando uns aos outros. Mas por exemplo, a existência da Cypher pode ser usada a favor da cena. Quem é que não lembra quando o RAP Box divulgou a primeira cypher da Quebrada Queer, rappers LGBTs.

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Foi estouro, preconceituosos sendo atacados, a sociedade recebendo um recado. As próprias minas que são muito menosprezadas dentro da própria cena. O que seria de Machocídio se não fosse a existência da cypher? Não teria o mesmo impacto se fosse mais uma música que falasse sobre machismo no geral. Elas fizeram do beat um direito de resposta. E arrepia.

Há muitas opiniões sobre o futuro do RAP. Pessoas decepcionadas, gente apostando na cena, aqueles que querem a volta das antigas, aqueles que só escutam TRAP. Tem os atuais MCs que não querem se encaixar em algo, como é o caso de Baco do Exu. Na minha opinião tem para todos os gostos. Eu só fico impressionada com o quanto mudou e em pouco tempo. Curiosa para saber como estará em 2025.

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