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Pega a Visão - Isabela dos Santos

Conheça Wescritor, o rapper tupinambá na Baixada Santista

Crédito: gabimatos

Weslley Amaral dos Santos, o Wescritor, tem 24 anos e é um tupinambá na Baixada Santista. O rapper aborda pautas indígenas e reverbera ancestralidade nas rimas. Transita entre letras de resistência, reflexivas, sobre amor e sentimentos. Nascido e criado em São Vicente, aos 18 anos mudou-se para Santos, onde mora atualmente. 

Rapper Wescritor. (Foto: @wallaaceamaral)

O artista se jogou de cabeça no mundo da música em 2019 e desde então, além de singles, coleciona os seguintes trabalhos solo: EP Corpos Laranjas, Mixtape T.R.A.P, Mixtape Comunicação e o EP Dela.  Além da qualidade dos sons, Wescritor já possui clipes marcantes, como Caos Indígena, Modificado e Exemplo

As letras dele ecoam forte para o ouvinte, principalmente para quem tem afinidade com a causa indígena. Mas nem sempre ele entendeu de fato sua ancestralidade. O Weslley de 17 anos, até então, não compreendia o significado disso. E só após compreender, foi a virada de chave.

“É que são meus parentes, brancos incompetentes nunca vão entender que foi invasão e não por permissão”, canta o artista em Grito Ancestral.

Virada de chave

Wescritor passou por uma mudança interna intensa em 2019 quando no início do ano visitou a Aldeia Itapoã, Tupinambá de Olivença, onde vive o seu avô, José Ramos Amaral, mais conhecido como Ancião Amaral, de 76 anos. “Eu reconheci o espaço, a história, a vivência e senti na pele o que é a causa”, explica. 

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Wescritor se reconectou com sua ancestralidade. (Foto: @wmarxs)

O artista comenta que sabia que o avô era indígena, tinha casa na aldeia, mas até então não tinha sido tocado daquela forma pela sua ancestralidade.

“Vem mudando meu ser. Você vai olhando pra trás e se conectando, isso vai te fortalecendo no agora e no amanhã”. Wescritor

EP Corpos Laranjas

Muito significativo, 2019 foi um ano de grande importância para ele, tanto pela viagem e suas descobertas, quanto para mergulhar dentro de si. Dos três meses que ficou na Bahia, alguns dias e semanas foram dedicados a ficar na aldeia. Daí, surgiram algumas letras do primeiro EP Corpos Laranjas.

“Escrevi Caos Indígena, Tupinambá (tanto a poesia quanto o som) a fala do meu vô e captei na aldeia. Resistir também foi lá”. 

Wescritor define Caos Indígena como resultado de um chamado da ancestralidade.

Ele foi lançando singles ao longo de 2019 até se tornar o EP Corpos Laranjas que foi lançado em 20 de dezembro do mesmo ano. “Foi o primeiro projeto compilado, foi especial, sendo a melhor construção que eu fiz. Consegui investir um dinheiro, ter material profissional. O clipe Caos Indígena foi fluido, foi lindo e rolou da melhor forma, como tinha que ser”. 

A produção musical, mixação e masterização de Caos Indígena ficou a cargo de Léo Ost.

YBY Festival

Ainda em 2019, Wescritor participou do YBY Festival, o festival de música indígena contemporânea do Brasil.

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Wescritor se apresentando no Festival YBY e seu avô assistindo ao show. (Foto: Divulgação YBY Festival)

“Pra mim é muito sensível o que aconteceu em 2019. Foi muito importante a presença no YBY. Meu avô veio da Bahia para São Paulo assistir. Ele era o ancião mais antigo do festival, foi muito impactante ver ele no palco, honrando todo o povo Tupinambá. Por causa de um movimento que eu fiz… É algo muito forte. A família acredita e eu acredito muito”.    Wescritor

Wescritor e seu irmão Wallace com o avô no YBY Festival. (Foto: Divulgação YBY Festival)

Ritmo e Poesia

Apesar de ter sido 2019 o ano que Wescritor foi a fundo no rap, ele já tinha contato com o gênero musical e com a poesia. 

Desde pequeno ele escuta rock e rap, por influência de seu irmão mais velho e atualmente seu empresário Wallace Amaral, de 30 anos. “Escuto há muito tempo, Racionais e todos os grandes das antigas”. 

Wescritor se apaixonou pela poesia antes de começar a fazer rap. (Foto: @wmarxs)

Ingressou no teatro em 2014, conhecendo a literatura mais a fundo. “Em 2015, comecei a escrever muitas poesias, foram dois anos assim. Me apaixonei pelo Fernando Pessoa, é meu mestre, minha base”, afirma.

Na virada de 2017 para 2018, ele começou a experimentar o rap, colocando suas poesias na batida lofi. Passou o ano de 2018 inteiro escrevendo até que em 2019 foi o seu alavanque, se jogando para o mundo da música.

Mixtape T. R. A.P (Tem Rap, Amor e Poesia)

Lançada em abril de 2020, a Mixtape T. R. A.P (Tem Rap, Amor e Poesia) foi mais sentimental para o artista. A música Modificado rendeu a ele novos ouvintes, tanto que ganhou um clipe. Ele conta que até ficou receoso de expor esse projeto, pensando que poderia ser julgado por estar fazendo algo mais “comercial”. No final das contas, como ele mesmo diz, ampliou o seu trabalho.

Clipe Modificado é sensível e sentimental. Música foi mixada e masterizada por Léo Ost.


Sobre a mixtape de sete faixas, ele abre o coração. “Foi um processo muito importante. Eu sempre fui um cara sentimental, amoroso. E surgiu da necessidade íntima de impor meu lado musical, cantado, que fala de amor e envolve corações. Queria que me olhassem e me sentissem dessa forma”. 

Mixtape Comunicação

Da necessidade de se firmar novamente, Wescritor lançava a Mixtape Comunicação em 7 de dezembro de 2020, com seis faixas. “Surgiu da necessidade de me firmar novamente, trazer o rap de mensagem, sentimental, emocional e também de força. Eu gosto de equilibrar as coisas”. 

Wescritor para o clipe Exemplo. (Foto: @iisahansen)

Desse trabalho, nasceu o clipe de Exemplo e para ele, como o clipe Caos Indígena e Modificado, foi outro marco em sua carreira. Gravado no Centro de São Paulo e em alguns trechos de Santos, em monumentos históricos, o artista quis visibilizar os indígenas em contexto urbano. O clipe foi dirigido pela artista visual Isa Hansen.

“Foi algo espiritual, veio a intuição de investir ali, movimentar pessoas. O que Exemplo representa eu vejo como muito explícito. É realista aquela poesia, eu tô falando as palavras na lata. Entender hoje a importância e o significado que está tendo, como a representatividade e a quebra de estereótipo, acompanhar esse retorno é gratificante”.Wescritor

EP Dela

O mais recente trabalho de Wescritor é o EP Dela, lançado em 29 de março de 2021. As três faixas falam de amor e foram inspiradas em uma pessoa. 

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“Eu digo que é uma música só. O EP tem um sentimento intenso. Por mais que as faixas variem, elas conversam ao mesmo tempo”.

O trabalho foi mixado e masterizado pelo New Hippie, músico, cantor, produtor da Baixada Santista e integrante da banca SOS. A arte ficou a cargo da  artista visual Isa Hansen.

SOS

Com os artistas Caiqueira e Bia Giupponi, Wescritor também compõe o SOS (Somos Oque Somos). Além de parceiros de música, são seus amigos e ele conta que estiveram muito presentes no ano de 2019.

“A gente fez muito som, foi um ápice de criação. Iniciamos cada um na carreira individual, mas estamos sempre juntos. Eles são meus irmãos de alma, de vida e de arte. Sempre estiveram comigo, são minha base. Lançamos o EP Somos Oque Somos no final do ano passado. Mas é uma banca, além de nós três, há outros artistas”.  

Caiqueira e Bia Giupponi e Wescritor.

Expondo o lado 013

Para o futuro, Wescritor conta que mais um projeto está por vir e será muito ligado à Baixada Santista. A intenção é expor seu “lado caiçara”, com toda produção e participação composta por artistas da região

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“Vai carregar meus poemas antigos, contar com muita participação de gente da Baixada, em toda a produção e feats. Vai ser meu maior projeto em questão de faixa. Vou trabalhar com paciência e calma e construir algo bem forte“. Wescritor

Wescritor quer valorizar seu lado caiçara no próximo trabalho. (Foto: @gabimatos_)

Palavrando

Wescritor pertence ao selo musical Palavrando, que começou como uma página digital. Ele é muito agradecido pelo seu irmão e atual empresário, Wallace Amaral, pois foi a primeira pessoa para quem mostrou sua poesia. O irmão acreditou em seu potencial e criou um site, surgindo o Palavrando, para o artista escrever. 

“Irmão, é pra todos aqueles que se sentem grato por ter um”, palavras de Wescritor.

“A maioria dos meus trabalhos são feitos na Pala Record´s (Home Estúdio), a continuidade do Palavrando. É um espaço muito importante pra mim. Outros artistas já gravaram lá, foi construído para as pessoas. Mês que vem vamos deixar aberto”. Inclusive, ele ressalta que a Baixada Santista tem inúmeros artistas gigantes, muitos ainda sem trabalhos lançados.

Indígena em contexto urbano

Wescritor, que com sua arte, busca visibilizar a ancestralidade, também compartilha que não é um processo fácil ser um indígena em contexto urbano. Mas que de alguma forma, consegue ser resistente

“É um processo muito delicado, de muita resistência interna e de pensamento. Não é fácil mesmo! Eu tenho relatos do quão difícil é dentro dessa energia de caos, desse mundo capitalista, se manter com a sua conexão ancestral. Mas de uma forma ou de outra sempre conseguimos buscar algo que já vem de dentro”. Wescritor

Wescritor conta as dificuldades de ser um indígena em contexto urbano, mas consegue resistir e manter a ancestralidade viva. (Foto: @wmarxs)

Ele sente que, por mais difícil que seja, estar na cidade é onde ele deveria estar. Dessa forma, ele pode cumprir seu papel como indígena em contexto urbano. 

“Quanto mais você se aprofunda na sua busca, seja ela em qual causa for, isso reflete muito na sua aparência, na sua força interna e externa. Na rua,  o pessoal olha estranho para mim e para o meu irmão. Estar forte é mesmo difícil, mas é a resistência. Ser exemplo na cidade me permite tirar uma dúvida, passar uma mensagem sobre. Meu papel na cidade é esse”. Wescritor

O rapper também tem parcerias com artistas indígenas como Ian Wapithana, Oxossi Karajá, Kaê Guajajara e Nelson D, ambos na música Vênus em Câncer. Ele ainda afirma que outros feats virão e ressalta a importância das pessoas escutarem artistas indígenas, pois eles têm um ensinamento para passar, cada um a sua maneira. 

O trabalho de Wescritor pode ser acompanhado pelo Spotfy, Youtube e Instagram.

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