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Against Me! em São Paulo é um pé na bunda da intolerância

Fotos: Drico Galdino / Divulgação

Resenhar o show do Against Me! em São Paulo poderia ser mais uma missão como outras, tal como foi cobrir um festival, um grande nome da música pop ou uma revelação debutando na Capital. O foco exclusivo na música, mas esse não seria um texto correto. A banda norte-americana não é apenas mais um nome em solo brasileiro. Longe disso.

A vocalista e guitarrista é Laura Jane Grace, uma transsexual anarquista. O cenário é São Paulo, a maior cidade brasileira, coração financeiro do País. Quando nos deparamos com as estatísticas, não tem como não transformar o evento do último sábado, no Carioca Club, em um dos mais emblemáticos dos últimos anos. Foram 868 travestis e transsexuais assassinados no Brasil entre 2008 e 2016, segundo estudo da ONG Transgender Europe (TGEu). É mais que o triplo de assassinatos do segundo colocado, o México, que contabilizou 256 mortes. O último dado, de 2017, mostrou 179 assassinatos, o que dá uma média de uma morte violenta a cada 48 horas no País.

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E não para por aí. Quem frequenta os shows do cenário punk/hardcore há décadas, sabe que o preconceito sempre foi muito latente nessa área. Mulheres não podiam pular do palco (stage dive), como os caras faziam, pois poderiam ter suas bundas ou seios apalpados por um bando de marmanjos que conseguia ver graça nisso. Gay quase inexistia, mas quando aparecia algum, era alvo fácil de piadas pejorativas.

Felizmente, o jogo parece que virou, pelo menos no ambiente do punk/hardcore. O Carioca Club, em Pinheiros, recebeu um grande público, Laura Jane foi reverenciada de forma até cansativa. Os fãs subiam ao palco, mandavam beijos, davam abraços, um deles chegou a ficar de joelhos para a cantora, demonstrando muita emoção com o ato.

Entre tantas subidas ao palco, uma atividade bem com cara de cena comédia pastelão chamou a atenção. Foram mais de 20 palhetas furtadas pela plateia (que sempre pedia licença para a cantora). Em certo momento, três pessoas subiram para deixar palhetas pessoais para repor as perdas. Tal ato rendeu muitos aplausos, mas logo elas foram furtadas também. A banda parecia se divertir com as fugas.

O repertório
A primeira vez do Against Me! em São Paulo acabou por priorizar a fase inicial da carreira da banda. Foram 18 canções do período em que Laura Jane ainda se chamava Thomas James Gabel, ou seja, faixas de 2002 até 2010.

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O leitor que não conhece a obra dos norte-americanos pode estar se perguntando o motivo de Laura ter dado tanta atenção para as composições anteriores a transição. Mesmo que aborde sua transformação nas músicas mais recentes, a essência do Against Me! é a mesma do início da carreira. Faixas do álbum New Wave, de 2007, o mais presente no show, com sete, seguem atuais e refletem o posicionamento de Laura.

O debute da banda, Reinventing Axl Rose, de 2002, também teve presença destacada, com cinco músicas.

Da fase pós transformação, o Against Me! priorizou Transgender Dysphoria Blues (2014), o sexto álbum da carreira, primeiro depois da transformação de Laura Jane, que surgiu com cinco canções no set.

Mas foi com 333 (Shape Shift With Me, de 2016) e I Was Teenage Anarchist (White Crosses, de 2010) que o público foi às lágrimas. Muita gente se emocionou enquanto segurava a sequência de mergulhos dos mais alucinados, que saltavam nos braços da plateia.

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Ao término da apresentação, Laura Jane não escondia a emoção de ter sido tão bem recebida pelos fãs de São Paulo. Agradeceu e atendeu o público que pedia por selfies e autógrafos na frente do palco. Na rua, mais pedidos carinhosos e, novamente, retribuídos pela líder.

Laura Jane e São Paulo se reencontram na quinta, às 18h, no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1.000), para sessão de autógrafos do seu livro Tranny e um show do seu projeto paralelo, Laura Jane Grace and The Devouring Mothers. O ingresso custa entre R$ 20,00 e R$ 40,00.

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