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Crédito: Carina Zaratin / Divulgação

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Entrevista | Nasi (Ira!) – “essa é a melhor formação do Ira!”

O Ira! está de volta. Após 13 anos sem lançar um álbum de inéditas, o grupo retorna com formação nova e o melhor disco desde os anos 1980. O intervalo entre um disco e outro contou com várias situações, como um hiato entre 2007 e 2014 e o lançamento do Folk, projeto intimista que ganhou força nos teatros pelo Brasil afora.

“Como somos artistas independentes hoje, sem pressão de contrato, a gente deixou que fluísse naturalmente. Um disco com nova formação, após uma separação, teria que ser algo muito bom”, justifica Nasi, que conversou com o Blog n’ Roll, por telefone.

O vocalista é muito sincero na hora de falar sobre o que mudou entre Invisível DJ (2007) e o álbum novo, homônimo.

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Invisível DJ é um álbum irregular, um disco que fizemos em clima de dissolução. Fizemos esse disco por causa de pressão, devíamos um álbum por contrato ao Rick Bonadio, já tinha uma discussão sobre uma parada na banda. Para você ter uma ideia, deixei a banda gravando as músicas e fui para a praia. Pedi para enviar as músicas para mim e voltei só para gravar as vozes. É um disco que não tem a alma que esse tem. O novo álbum foi feito com tesão, com a intenção de mostrar algo bom para o público”.

Surto criativo

Efeito Dominó e Mulheres à Frente da Tropa mostram que o grupo paulistano segue forte nas composições e nas melodias. São dois dos grandes momentos do novo álbum.

“Algumas músicas começaram a surgir instrumentalmente em passagens de som. Até a hora que o Edgard teve um surto criativo e tudo saiu. Algumas músicas ele já tinha de trabalhos solos dele que não foram aproveitadas”.

Apesar de reconhecer que os artistas contemporâneos preferem trabalhar as canções de outra forma, lançando seus trabalhos como singles, Nasi ainda aposta no formato de álbum cheio.

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“Nós adoramos o conceito do álbum. Se a gente se satisfizesse dessa maneira, já teríamos lançado antes, mas o tesão que nós temos é construir um álbum completo, com músicas que conversam entre si. Essas músicas estão no Spotify no formato que vamos lançar de lado A e lado B no vinil”, explica.

Facilitou bastante o entendimento dos músicos com a produção já que o responsável pela função foi Apolo 9, que trabalhou com o Nasi em todos os álbuns solos desde 2006.

“É um cara que já conhece o Edgard. É um produtor legal que produz coisas bem diversas, vai de Rita Lee ao Nação Zumbi, Seu Jorge ao Ira! Ele dá todas as condições para o artista ser o que é”.

Soma-se ao time dois integrantes que Nasi rasga elogios: Johnny Boy (baixo) e Evaristo Pádua (bateria).

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“Sem nenhum demérito aos outros integrantes, mas essa é a melhor formação do Ira! Reconheço que todas foram importantes para o Ira! ser o que é hoje, mas essa é a melhor”.

Confira abaixo outros assuntos conversados com Nasi

Protagonismo feminino

A gente vive uma guinada do reacionário no mundo muito forte. Eu, esses dias, com bastante nojo, vi esse documentário que tem no Netflix sobre o Jeffrey Epstein (Poder e Perversão). É o cara que se matou na cadeia, amigo do Bush. Mas eu não tinha a dimensão que foi através dele que começou o movimento Me Too.

E realmente a gente vive num mundo tão machista, principalmente no sentido das instituições. Eu já tive uma namorada que, por questões que não vem ao caso por briga com a família por espólio, foi estuprada. Um estupro a mando de terrorismo, extorsão.

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Eu acompanhei com ela toda a situação. E vi o calvário, pois existem dois estupros: aquela que a mulher enfrenta e a que vai enfrentar na hora de denunciar. Eu vi como foi o tratamento dentro de uma delegacia, vi como é o tratamento da sociedade, às vezes até de mulheres.

Se a mulher não se unir através desses mecanismos, como as redes sociais, elas vão ficar entregues ao desprezo das autoridades policiais, ao questionamento reacionário e machista de muitas pessoas da sociedade.

O John Lennon falava que a mulher era o negro do mundo (Woman Is the Nigger of the World). É realmente isso. A mulher precisa lutar, lutar. A luta feminina já está na história desde as sufragistas. Mas ainda é um campo que precisa ser muito desenvolvido e muito apoiado por nós homens. Querendo ou não, todos nós somos um pouco machistas funcionais.

Nós temos que observar hoje coisas que eram consideradas naturais, inocentes, piadas, mas não são.

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Paixão pelo rap

Outro dia fiz uma live discotecando alguns vinis de rap. Como não estou conseguindo me encontrar com o Edgard, estou fazendo isso. Minhas coisas de rap são old school, anos 1970 e 1980. Aí uma hora começou gente me cobrar lá: “não tem mulher?” Aí me toquei e expliquei: “sabe o que é? O rap feminino só começou com Queen Latifah, no início da década de 1990. Eu tenho Queen Latifah, mas só em CD, não em vinil. Na hora fiquei constrangido, só estava colocando homem lá.

Eu sou fã de rap pra caralho, mas o rap old school. Depois peguei um pouco de bode do rap americano quando ele começou a caminhar para o gangsta. E o gangsta que gerou o que a gente chama hoje de pancadão. Em geral, é um discurso muito sexista, machista. Não deveria combinar com o rap, o porta-voz dos excluídos, da periferia. Precisa de uma mensagem política forte e contundente.

Ira! lançar álbum sem shows

É bem frustrante, mas procuro ver o lado bom das coisas. O lado bom é que o público já vai ter conhecido bem esse álbum quando os shows voltarem. Geralmente lançamos um disco e já vamos para a estrada, lançando em alguma capital. Isso causa um pouco de estranhamento dos fãs.

No último disco de inéditas do Ira!, em 2007, nem lembro se já existiam as plataformas digitais. As pessoas tinham que comprar o disco, ouvir o disco, ir no show. As coisas mudaram muito.

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Estou em uma quarentena bem rígida, estou aqui na minha casa há mais de dois meses. Saí só para tomar uma vacina e outra para ir na farmácia. A novidade na minha vida é que entrei no mundo das redes sociais, algo que era muito avesso. Tinha um Instagram bem profissional, gravava vídeos chamando o público para os shows.

Mas agora comecei a fazer isso, faço lives de bate-papo, discotecando, trocando ideia com o público. Estou nesse ritmo do Feitiço do Tempo, que todo dia é igual. 8h30 acordo, faço o mesmo café da manhã pra mim, ligo a Globo News, leio a Folha de São Paulo, acompanho o programa de esportes da hora do almoço, que nem mostra esportes. E assim vai, um dia após o outro, sempre igualzinho.

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