Em duas passagens por Santos, Bad Religion vestiu a 10 do Peixe, enfrentou apagão e deixou legado

De todas as lendas internacionais que pisaram em Santos, nenhuma criou uma conexão tão profunda e passional quanto o Bad Religion. A banda e o público santista guardam com muito carinho tudo o que rolou por aqui nas duas turnês que passaram pela cidade, em 1999 e 2014. A primeira passagem foi tão surreal que parece roteiro de filme de ficção, a ponto de merecer destaque na biografia oficial da banda, Do What You Want: The Story of Bad Religion. A segunda, 15 anos depois, foi a coroação de uma história de amor entre os reis do punk melódico californiano e a capital do hardcore no Brasil. Em resumo, esta é a história das duas noites em que Greg Graffin e seus comparsas descobriram, na prática, o que significa ser a “Califórnia Brasileira”. ATO I: 1999 – Apocalipse na “Floresta Tropical”, a primeira vez do Bad Religion em Santos O dia 11 de março de 1999 tinha tudo para ser uma noite histórica na extinta casa Jump (ex-Reggae Night), no Morro da Nova Cintra. A produtora da banda, Michelle Ceasan, havia convidado os locais do White Frogs para abrir os trabalhos, e mais de 4 mil ingressos haviam sido vendidos. O êxtase dos músicos locais, que pegaram até equipamentos emprestados do pessoal do Altered Mind para a grande noite, logo se transformou em desespero. A chuva começou sem aviso prévio antes mesmo de qualquer instrumento ser tocado. O vocalista Greg Graffin relatou os bastidores de terror: “Nós estávamos no nosso backstage, uma mini-cabana, desfrutando uma caipirinha, quando um estrondoso trovão e raio desceram dos céus e colidiram com o nosso telhado”. A situação escalou rapidamente. “Se há uma coisa que aprendemos é esta: se os habitantes começam a olhar preocupados, as coisas podem rapidamente azedar”. Um apagão generalizado tomou conta da cidade. O promotor do evento entrou no camarim em pânico, sugerindo que a banda fugisse: “É melhor sair daqui, os fãs estão furiosos, eles certamente irão matá-los”. Com o som mecânico cortado e o público cantando e assobiando no escuro, o Bad Religion até cogitou um set acústico, mas percebeu que a bateria ensurdecedora de Bobby Schayer abafaria as guitarras sem energia. Retorno inesperado A banda voltou para o hotel com a certeza de que o show estava cancelado. João Veloso Jr., do White Frogs, sentiu a tristeza do cancelamento iminente, pois a banda americana tinha voo cedo no dia seguinte. Mas o improvável aconteceu. “Era meia-noite e a tempestade havia passado. A energia ainda estava desligada, por isso foi à luz de velas e um telefone celular que recebemos a ligação em torno de 1h: ‘Vocês devem voltar para o local agora, nós temos energia’”, relembrou Graffin. O retorno ao morro foi digno de um cenário pós-apocalíptico. Sem semáforos ou iluminação pública, as ruas estavam caóticas. Punks descontentes que já desciam a montanha faziam o retorno imediato ao ouvirem no boca-a-boca que o show iria continuar. No palco, a redenção. O White Frogs foi convocado às pressas para subir e tocar enquanto o público retornava à Jump. E, às 2h da manhã, com a casa ainda lotada, o Bad Religion entregou um espetáculo inesquecível, tocando pérolas raras como Anesthesia. “Tocamos um show inteiro e tivemos o tempo de nossas vidas”, cravou Graffin. “O caos, entusiasmo, emoções oscilantes e a floresta tropical, tudo conspirou naquela noite para nos oferecer uma experiência incrível. Não vamos esquecer tão cedo dele”. ATO II: 2014 – Redenção, açaí e camisa do Peixe no segundo show Quinze anos depois, o Bad Religion era anunciado para retornar a Santos, desta vez na Capital Disco, no dia 7 de fevereiro de 2014. A cidade entrou em polvorosa e os ingressos esgotaram rapidamente. O responsável por trazer o grupo foi Celso Bernardes, fundador da produtora Rock Show e, coincidentemente, um dos “sobreviventes” do apagão de 1999. Celso viveu a saga não apenas como produtor, mas como fã devoto de sua banda favorita. Os bastidores dessa segunda passagem foram marcados por um clima muito mais amistoso e curioso do que o apocalipse climático de 99. O baixista Jay Bentley desceu ao palco de chinelos para o reconhecimento do terreno e, em poucas palavras trocadas com Celso, perguntou sobre açaí. A resposta do produtor foi exagerada: ele mandou buscar um fardo de dez quilos do produto para o camarim. O nível de fanatismo do produtor chegou à pele. Em uma sala ao lado do camarim, antes do show, Celso tatuou o famoso logo da “Crossbuster” no braço esquerdo. O barulho da máquina atraiu Brian Baker, Jay Bentley e o baterista Brooks Wackerman, que ficaram honrados com a atitude. Greg Graffin chegou em seguida, surpreendeu-se com a homenagem e posou para fotos com o produtor tatuado. Bayside Kings, NLO e o caldeirão na Capital Disco Na madrugada de sábado, a casa noturna ferveu com o encontro de gerações de fãs. Quem abriu os trabalhos foi o Nem Liminha Ouviu (NLO), liderado pelo radialista Tatola Godas. A banda apresentou versões nostálgicas como O Concreto Já Rachou (Plebe Rude) e Surfista Calhorda (Replicantes). Em seguida, a prata da casa: o Bayside Kings. Recém-chegados de uma turnê bem-sucedida na Argentina, a banda liderada por Milton Aguiar incendiou o moshpit. O setlist brutal, mesclando faixas dos discos The Way Back Home e Warship, incluiu ainda um cover furioso de Cyco Vision, do Suicidal Tendencies. O Bayside Kings provou estar pronto para ser uma das principais representantes do hardcore santista. À 0h30, ao som de música clássica, o Bad Religion assumiu o palco. Com 35 anos de carreira e 16 álbuns nas costas, os californianos engataram um show coeso, técnico e empolgante, descarregando 30 canções em uma hora e meia. Eles abriram de forma agressiva com Fuck You, puxando logo na sequência uma quadra de clássicos absurda: I Want to Conquer the World, New America, Stranger Than Fiction e Los Angeles Is Burning. Pista e palco viraram uma verdadeira piscina de suor. O clima era de tanta interação que o baixista Jay Bentley até
Capacetes em chamas e pistola de raios alfa: a abdução do Man Or Astro-man? em Santos, em 1999

Considerada uma das maiores bandas de surf music do mundo, com repertório praticamente inteiro instrumental, o Man Or Astro-man? visitou Santos em sua segunda turnê ao Brasil, em 26 de setembro de 1999. A apresentação histórica aconteceu na extinta casa noturna Millenium (Av. Ana Costa, 554B, no Gonzaga), com abertura do Garage Fuzz e do Sonic Sex Panic. Menos de um ano antes, a banda do Alabama (EUA) havia feito sua primeira turnê no Brasil. O rolê foi tão bem-sucedido que eles não pensaram duas vezes antes de retornar, e o motivo era uma verdadeira paixão pelo país. Em entrevista para a Folha de Londrina, em 1999, o baterista e membro-fundador Brian Teasley (o Birdstuff) declarou que o Brasil era o seu país favorito. O músico fez questão de exaltar a energia local: “Nos Estados Unidos e na Europa, as pessoas sentam em suas poltronas e ouvem música de forma muito polida, muito correta. Vocês (brasileiros) aí vivem a música, todo mundo tem banda e parece que a música é uma parte significativa das vidas de vocês”. A ligação da banda com o país foi além das palavras. Revelando admiração por Mutantes e Chico Science, Birdstuff foi poético: “Minha vida não estaria completa se não fosse o Brasil. Funcionou como uma inspiração para nós, por isso gravamos o disco aí”. De fato, a segunda turnê, que passou por 12 cidades brasileiras, serviu para divulgar o nono álbum da banda, Eeviac, gravado no estúdio móvel deles (o Zero Return) em Belo Horizonte durante a primeira passagem pelo país. Risco do Garage Fuzz e a gafes da imprensa Apesar do status cult da banda, o show em Santos quase não aconteceu. Segundo resenha da época feita pelo fanzine Surfcore, assinada por Marco Casado e Victor Martins, se não fosse pelo esforço do pessoal do Garage Fuzz, o público da Baixada teria que “subir a Serra de novo”. O Surfcore detalhou que o aluguel dos espaços de shows estava muito caro e que a Millenium, local escolhido para o evento, era novata no ramo de rock, enchendo apenas “de vez em nunca de funkeiros ou playboys”. Isso fez com que os donos da casa duvidassem do sucesso do evento, mas a aposta do Garage Fuzz e a boa divulgação lotaram a discoteca, surpreendendo os proprietários. A ironia do evento, no entanto, ficou por conta da imprensa. O fanzine relatou, com indignação, que a rádio, os jornais e os cartazes trataram o gigantesco Man or Astro-man? como uma banda de suporte para o Garage Fuzz. “O jornal apenas dizia ‘uma banda bem legal que toca vestida de uniformes da Nasa’ e o resto do texto todo falando do GF”, destacou a publicação. Skate rock, mosh e os “roadies alienígenas” do Man Or Astro-man? A noite começou quente com o Sonic Sex Panic. A banda entregou um HC melódico e agressivo, definido pelo zine como “skate rock”, tocando músicas novas em português que retratavam problemas pessoais, uma possível influência do novo baixista, Medina (também do Sociedade Armada). O Garage Fuzz subiu na sequência, misturando os clássicos do primeiro CD com faixas mais recentes. A resenha pontuou, com certa irritação, que os fãs exaltados atrapalharam: “Mais uma vez os idiotas do stage diving atrapalharam o show”. Essa invasão repetiria-se no show principal, mas em menor escala, pois a “maioria dos chatos” já havia ido embora. A longa espera para a atração principal justificou-se pela complexidade do palco. “Os integrantes travestiram-se de funcionários de usina nuclear com macacões e capuzes brancos com máscara de oxigênio e óculos escuros”, relatou o Surfcore sobre a equipe técnica. Os “roadies alienígenas” montaram um verdadeiro laboratório sonoro, espalhando projetor de imagens super-8, um laptop ligado ao P.A., samplers e inúmeras mangueiras pelo palco da Millenium. Abdução: macacões da Nasa e espetáculo classe A Do nada, Birdstuff (bateria), Blazar the Probe Handler (guitarra), Trace Reading (guitarra) e Coco the Electronic Monkey Wizard (vocal e mentor) surgiram vestindo macacões vermelhos da Nasa. Para o Surfcore, o que se viu a seguir não foi um show, mas um espetáculo “Classe A”. Com movimentos robóticos enquanto tocavam, os integrantes entregaram um setlist focado no futurista Eeviac, mas recheado de faixas do aclamado Destroy All. Embora tenham deixado de fora clássicas como Popcorn Crabula, a destruição sonora foi garantida com músicas como Reverb 10,000, a viajante Bermuda Triangle Shorts, Bombora e Destination Venus. Os pontos altos da noite uniram técnica e insanidade. A plateia foi ao delírio quando Coco e Blazar dividiram o mesmo baixo de dois braços para tocar, e o choque foi total quando Coco incendiou seu “capacete combustível”, repleto de mangueiras, em cima da própria cabeça. Para resumir o nível daquela noite alienígena em Santos, o fanzine fechou sua resenha pegando emprestada uma frase do jornalista André Barcinski: “Quem perdeu este show merece ser dizimado por uma pistola de raios alfa”.
Frutas, stage dives e “my mame is Dangerous”: a apoteose krishnacore do Shelter em Santos, em 1996

O ano era 1996 e o hardcore dominava a MTV Brasil. Se você ligasse a TV em qualquer tarde daquele ano, era questão de tempo até o clipe de Here We Go invadir a tela com sua energia contagiante. A faixa catapultou o álbum Mantra (1995) e transformou o Shelter, banda americana liderada por Ray Cappo (ex-Youth of Today), em um fenômeno global. A sonoridade agressiva contrastava com a mensagem pacifista e espiritual de orientação hindu, criando um subgênero próprio: o krishnacore. E foi exatamente no auge dessa febre, em junho de 1996, que a banda desembarcou no Brasil para uma turnê histórica. Além de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, a rota incluiu uma parada obrigatória na Baixada Santista. O resultado? Um dos shows mais caóticos, divertidos e inusitados da história de Santos. Palco improvável e a ironia do destino do Shelter em Santos A ironia de uma banda estritamente vegetariana tocar em um antigo restaurante chinês não passou despercebida. O relato histórico do fanzine santista Surf Core detalhou perfeitamente a atmosfera daquela noite. O Cadillac Café, na Avenida Conselheiro Nébias, 788, provou ser um cenário impecável para o hardcore: com dois andares, palco na altura ideal e duas caixas de som gigantes, a estrutura parecia ter sido feita sob medida para os stage dives. A abertura foi uma celebração à parte. O Cólera, com o saudoso Redson, subiu ao palco em formato power trio e entregou um set rápido e agressivo. Em seguida, o Garage Fuzz, que estava há tempos sem tocar em casa por conta da composição de novas músicas, matou a saudade e fez “todo mundo pogar”, com o então vocalista Alexandre Sesper (Farofa) dedicando o show a todos os animais que haviam sido sacrificados ali no passado. O Blind fechou o suporte mostrando sua forte influência do punk rock dos anos 80. Quando o Shelter finalmente assumiu os instrumentos, a catarse foi imediata. Para Marco Casado Lima, fã que esteve presente, a escolha do local refletia a essência da cena na época: “Punk/HC é foda… sempre que um lugar abria espaço, é porque já tava ruim das pernas. Era tipo a última cartada dos donos desesperados”. Quando o Shelter subiu ao palco, a catarse foi imediata. “A galera dava stage dive do mezanino, aquilo me impressionou. Me senti num show do Bad Brains em Nova York no início dos anos 80”, relembra Marco. Camarim vegano para o Shelter em Santos e a ajuda divina Para o produtor do show, Alexandre Macia, o Pepinho, a noite marcou sua estreia com atrações internacionais. “Foi super bem-sucedido, deu sold out. Foi fácil de vender porque Here We Go estava tocando não só na MTV, como nas rádios de rock. Acabaram os ingressos e ainda tinha gente querendo”, conta. Mas se os números de bilheteria eram de rockstars, o rider (lista de exigências) do camarim pegou o produtor de surpresa. Acostumado a comprar cerveja e uísque para bandas de metal, Pepinho se viu em um cenário diferente com os devotos de Krishna, que na época contavam com ninguém menos que Roy Mayorga (que depois brilharia no Soulfly e Stone Sour) na bateria. “Os caras só queriam fruta! Eu fiz a feira pela primeira vez na minha vida graças ao Shelter, comprando mamão papaya, banana… E os caras eram muito gente fina, de boa”, diverte-se o produtor. A logística ainda contou com uma “intervenção divina”: “O templo Hare Krishna de Santos fez questão de levar a banda para almoçar no dia do show. Isso foi uma maravilha, economizei um bom dinheiro de rango!” “Hi, my name is Dangerous” O clima amigável de Ray Cappo rendeu uma das histórias mais hilárias dos bastidores santistas. Pepinho havia prometido ao seu funcionário da loja Metal Rock, apelidado de “Perigoso” e fã do Shelter, que o apresentaria ao ídolo. Durante a montagem do palco, Cappo pediu para tomar uma água de coco. Pepinho topou, com a condição de passarem na loja primeiro. “Quando eu entro na loja com o Ray Cappo, o Perigoso quase desmaiou”, relembra o produtor. Tomado pela emoção e querendo impressionar o ídolo em inglês, o fã cometeu um erro de tradução fatal na hora de se apresentar. “O Perigoso, em vez de falar o nome, traduziu o próprio apelido. Ele soltou um: ‘Hi! My name is Dangerous!’. O Ray Cappo chorou de rir de encostar na parede. Ele ria e falava: ‘Ok, sorry, you are dangerous!’. Puta, coitado do Perigoso”, gargalha Pepinho. Caos no mosh, cusparada e a debandada dos “modistas” O sucesso estrondoso de Here We Go nas rádios e na TV cobrou seu preço na pista. Se o produtor Pepinho celebrou o sold out, o fanzine Surf Core relatou o que isso significou na prática: foram mais de mil ingressos vendidos para um espaço que, teoricamente, não comportava aquele volume de pessoas. “Não cabe isso tudo, mas coube”, resumiu a publicação. Essa superlotação misturou a velha guarda do punk com o público novato atraído pela MTV, gerando atritos. A empolgação com os saltos do mezanino e invasões de palco fugiu do controle. Em determinado momento, os “babacas de plantão” invadiram tanto o espaço da banda que uma das músicas do Shelter acabou sendo tocada de forma quase totalmente instrumental, pois Ray Cappo mal conseguia cantar. O clima, que era de festa, atingiu um pico de tensão com uma atitude inaceitável. Sempre pregando o pacifismo e o respeito, o vocalista parou o show e ameaçou não continuar após um fã dar uma cusparada na intérprete que estava no palco tentando traduzir as mensagens da banda para o público. Apesar do estresse, a apresentação teve um “filtro” natural. Assim que o super hit Here We Go foi executado, ocorreu um fenômeno clássico dos anos 90 relatado pelo fanzine: os “modistas” deram a noite por encerrada e foram embora para casa. Foi só a partir desse momento, com a pista respirando um pouco mais, que os fãs reais de krishnacore puderam absorver a agressividade musical do Shelter
Rodox encerra jejum de 22 anos em Santos com Arena Club lotado e bênção do Charlie Brown Jr.

Foram mais de 22 anos de separação entre o Rodox e Santos, mas, com o retorno recente da banda liderada por Rodolfo Abrantes, o público caiçara enfim pôde assistir a uma apresentação do grupo. Na noite de sexta-feira (15), o Rodox se apresentou no Arena Club lotado. A noite teve direito a dois integrantes da formação clássica do Charlie Brown Jr. na plateia: Marcão e Pelado, que foram celebrados por Rodolfo no palco como “a maior banda de rock do Brasil”. O momento foi emblemático e fechou um ciclo: foi em Santos, afinal, no M2000 Summer Concerts de 1994, que um jovem Chorão ficou na grade do show de Rodolfo e o entregou a primeira fita da banda santista. Confesso que a primeira fase do Rodox não me atraía quando lançaram os dois primeiros álbuns, no início dos anos 2000. Muito provavelmente por infantilidade da minha parte, eu era adolescente, e por não entender o real motivo do fim do Raimundos da forma que conhecíamos. >> LEIA ENTREVISTA COM RODOLFO ABRANTES (RODOX) O documentário Andar na Pedra, dirigido e roteirizado por Daniel Ferro (disponível no Globoplay), ajudou muito a quebrar essa resistência com o Rodox, pois humanizou o “vilão” do fim dos Raimundos. Rodolfo realmente precisava romper com aquele momento, foi necessário ir para outro extremo e viver uma nova vida até encontrar o atual equilíbrio. Santos, inclusive, testemunhou suas dores mais profundas, como a tragédia de 1997 no lançamento de Lapadas do Povo, ferida que quase o fez abandonar a música e que só começou a cicatrizar após o abraço acolhedor dos familiares das vítimas na cidade. Ver o Rodox ali, décadas depois, é a prova de que o tempo cura. E quem ganha com isso são os fãs. Afinal, quem aqui não gostaria de ver um grande ídolo, que muitos perderam para a overdose, vivo até hoje, fazendo shows e sendo feliz? Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Blog n' Roll (@blognroll) No palco, o Rodox ao vivo entrega uma energia absurda, reflexo de um reencontro que começou despretensioso para 2026, mas que virou um renascimento criativo com promessa de disco de inéditas. Rodolfo segue com muita atitude, cantando bem e acompanhado por um timaço: Fernando Schaefer (baterista de uma cacetada de bandas), Patrick Laplan (baixista original do Los Hermanos) e Pedro Nogueira (guitarrista do Wacky Kids, uma das melhores bandas de hardcore melódico do Brasil). O guitarrista Victor Pradella, que foi sideman na fase musical de Rodolfo após o término do Rodox, também compõe o time na tour. O time que acompanha Rodolfo, inclusive, também é muito festejado pelo vocalista. Após pedir palmas para Chorão, Champignon, DJ Bob e Canisso, todos com muitos elogios, o frontman disse que é importante homenagear os amigos em vida também. O setlist, idêntico ao de todas as apresentações da atual turnê e sem espaço para novidades, passeia pelos dois álbuns da banda, deixando de fora apenas faixas muito datadas: foram nove canções do disco homônimo e sete de Estreito, além de dois covers (Exodus, de Bob Marley, cujo álbum Kaya é uma das grandes influências da vida de Rodolfo, e Alive, do P.O.D.). Para quem ainda tem resistência ao grupo, recomendo dar uma chance às ótimas faixas apresentadas nessa tour, como De Costas Para o Mar, Beach Punx, Foi Bom Esperar, De Uma Só Vez, Dia Quente e Olhos Abertos. Diferente de boa parte dos shows da banda, Rodolfo não pulou nos braços do público durante Alive. Mas a faixa contou com a participação especial de Wander Ruas, vocalista da banda Alva, responsável pela abertura do show, que já havia cantado também Olhos Abertos. O líder do Rodox preferiu terminar a apresentação no palco, deixando claro que o que era para ser apenas uma turnê curta de reencontro já virou um plano para o ano inteiro, para a alegria dos fãs que não o abandonaram mesmo após tantos anos. Setlist Segue a linha De costas para o mar Cego de Jericó Mais e mais Incinerador Beach Punx Horário nobre Foi bom esperar De uma só vez Iluminado Dia quente Inflexível 1000 megatons Olhos abertos BIS Quem tem coragem não finge Três reis Exodus (Bob Marley cover) Alive (P.O.D. cover)
Entrevista | Rodox – “Santos testemunhou minha transformação. Vamos levar algo que ainda não mostrei na cidade”

Santos sempre foi uma bússola na trajetória de Rodolfo Abrantes. Foi no palco do M2000 Summer Concerts, em 1994, que ele viu sua vida mudar ao dividir o line-up com gigantes mundiais e conhecer um jovem Chorão na grade do show. Foi também na cidade que ele enfrentou seu momento mais sombrio, após a tragédia durante o lançamento da turnê Lapadas do Povo, em 1997. Agora, mais de duas décadas depois, o ciclo se fecha, e se renova. O Rodox, banda que marcou o início dos anos 2000 com uma mistura explosiva de hardcore, nu metal e letras viscerais, está de volta. O que começou como uma ideia de turnê pontual de reencontro para o segundo semestre de 2026, transformou-se em um renascimento criativo. Com a química restabelecida e a promessa de um novo álbum de inéditas, Rodolfo e seus companheiros desembarcam nesta sexta-feira (15) no Arena Club. Ainda há ingressos à venda. Nesta entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, o vocalista abre o jogo sobre as cicatrizes do passado, a energia da fase atual e o que esperar de um show que promete lavar a alma dos fãs santistas com a potência característica de uma das bandas mais emblemáticas do rock nacional. * O retorno do Rodox é pontual para esses shows ou você já pensa em gravar um álbum de inéditas? Quando tivemos a ideia de voltar com a turnê, pelo tempo todo que ficamos longe, sem nos vermos, a gente teve que se conhecer de novo, né? Por mais que existisse o carinho, tivemos que nos redescobrir. Então, a princípio, antes de tudo começar, a ideia era fazer alguns shows só de reencontro mesmo no segundo semestre. A questão é que a gente se reencontrou, cara, e todo mundo se amou. Meu, a gente está hoje muito melhor do que já foi algum dia, entre a gente, né? Então a coisa tomou outra proporção: o que era para ser só o primeiro semestre já virou o ano inteiro. E a gente só pensa em gravar músicas novas, estamos doidos para curtir esse momento. Talvez seja um reencontro do público com as músicas antigas, mas percebemos que estamos muito mais afiados. O entendimento do que a banda é e de onde queremos chegar está muito mais claro na cabeça de todo mundo. Então, sim, vai ter álbum novo. A gente quer fazer um retrato, um registro do que está vivendo hoje. Tem sons guardados da primeira fase da banda ou pretendem começar do zero? Já tem faixa nova pronta? Seria algo com composições completamente inéditas. Existem aquelas músicas que rolam na internet, como Taco Bell e Psychobilly, mas aquilo foi sobra de estúdio. Foram faixas que gravamos e achamos que não tinham muito a ver com o álbum na época, então as deixamos de fora e elas acabaram indo para a internet. Temos um carinho por elas, principalmente pelo carinho que as pessoas têm com essas músicas, mas queremos fazer algo que seja um registro deste momento da nossa vida. Como você define o som do Rodox nessa nova fase? O que você tem escutado de som e tem influenciado você no dia a dia? Uma das coisas mais legais sobre o som do Rodox é que ele é muito eclético. Não temos nem como rotular ou dizer que é uma banda de nu metal ou de hardcore, porque tem nu metal, tem hardcore, tem punk rock, tem hardcore melódico, hardcore berrado… tem ska, tem música alternativa, tem balada… Enfim, acho que quando conquistamos isso, passamos a ter uma liberdade absurda para fazer o que quisermos. Mas de uma coisa você pode ter certeza: é a energia que estamos vivendo ao vivo. Essa é uma banda de verdade, não é uma banda de estúdio que vai levar uma coisa pronta para o palco. Não, estamos fazendo aquele caminho natural de experimentar ao vivo para registrar isso depois em estúdio. Você tem uma relação muito marcante com Santos em vários sentidos. Qual é o sentimento de retornar a Santos, que foi palco de muitas alegrias e uma tristeza marcante na sua carreira? A cidade de Santos é uma daquelas no Brasil que me viram em todas as minhas fases, né, cara? Desde o começo da minha carreira, sempre estive passando por aqui. A cidade foi testemunhando a minha transformação ao longo do tempo. Então, vai ser incrível poder retornar com o Rodox agora, sendo que, ok, é uma banda que existiu há mais de 20 anos, mas é uma banda completamente nova. O que a gente vai levar para o público santista é algo que realmente ainda não mostrei em Santos. Em Santos, o Raimundos fez um dos seus primeiros shows, no M2000 Summer Concerts, em 1994. O que você recorda desse show? Tem alguma história curiosa desse show com o Rollins Band, Mr Big e Lemonheads? Eu me lembro que foi o primeiro show gigante que a gente tocou, né? Tinha um ônibus para levar a gente de São Paulo para Santos e depois trazer de volta. Ficamos em um hotel, meu… top! Tudo isso era um absurdo de novo para nós naquela época. Ver o Henry Rollins tocando, eu era muito fã dele e do som dele, e ver aquilo acontecendo ao vivo foi muito didático. Aprendi muita coisa. Lembro que caiu uma chuva terrível naquela noite, que alagou a cidade toda. E tem uma coisa muito interessante: quando eu saí do palco, foi a primeira vez que encontrei o Chorão. Ele estava ali na grade com o pessoal, ouviu o som da minha banda e me deu um CD do Charlie Brown, quando o Charlie Brown ainda era bem metal. Foi muito legal. Essas coisas não saem da memória, não. A tragédia em 1997, no lançamento da turnê do Lapadas do Povo, certamente foi um dos momentos mais tristes da sua carreira. Como foi superar a tristeza daquele momento e seguir em frente? Realmente acho que foi o pior momento da minha vida. Aquele acidente
Entrevista | DZ Rock – “Nossas letras conseguem trazer um tom desse lance caiçara que o grunge não explora”

Eu já tinha finalizado a entrevista e fechado o meu caderno, quando comentei com Roger DZ e Gabriel Panza (vocalista e baterista da DZ ROCK, respectivamente) que o segundo álbum da banda de grunge caiçara, A Vida é um Rolê dos Bons me lembrava o som do Charlie Brown Jr. Foi instantâneo: Panza riu olhando para Roger, que fazia uma espécie de negação com a cabeça, brincando. “É que a gente não gosta muito de ser comparado ao Charlie Brown Junior, a gente tenta não ir por esse caminho”, disse Roger. Mas, se você é caiçara – ou apenas um(a) grande admirador(a) de Charlie Brown Jr -, calma! Os veteranos são uma das maiores inspirações para a DZ Rock (leia até o final do texto, e você vai ver). Afinal, é possível admirar e querer seguir uma outra direção, não é mesmo? Com dois álbuns lançados, shows que agitam a cena noturna de Santos e região e projetos solos que estão a caminho, confira abaixo a entrevista de Roger DZ e Gabriel Panza para o Blog n’Roll. Voilà: Grunge Caiçara A DZ Rock é formada por Roger DZ (vocal), Júlio Peruca (guitarra), Julio Navajas (guitarra), Wagner Miyashiro (baixo) e Gabriel Panza (baterista e produtor). Autodenominada grunge caiçara, a banda nasceu em 2020, em plena pandemia. Segundo Panza, o logo apresenta um símbolo de radioatividade porque surgiu naquele período, portanto, “todas as pessoas eram radioativas demais pra estarem perto uma da outra”. Por muito tempo, Roger deixou na gaveta (literalmente) letras que nunca saíram dali. Porém, estava na hora delas serem materializadas em músicas e apresentadas ao mundo. E foi logo depois de sua união com Gabriel Panza que tudo começou. Além de baterista, Panza também é proprietário do Estúdio Wave, que atualmente fica localizado no Gonzaga, coração de Santos. Em seguida, os outros integrantes chegaram para formar a DZ Rock e, em 2022, o primeiro álbum independente da DZ era lançado: “Não Confie em Tudo Mas Não Duvide de Nada”. “Eu acho o primeiro álbum muito mais grunge do que o segundo. A Música ‘Quem Errou’ é introspectiva, fala de alguém que passou na sua vida, pisou na bola e é bom reconhecer o erro. Ali é o grunge do grunge, bebido na fonte. Do primeiro álbum, essa é a música que eu mais gosto”, comenta Roger. E Panza complementa: “Nossas letras conseguem trazer um tom desse lance do caiçara que o grunge não explora”. A Vida é um Rolê dos Bons Lançado em novembro de 2025, A Vida é um Rolê dos Bons tem 11 faixas autorais e músicas mais enérgicas, como “Feinho Nota 10” e “Grunge Caiçara”. “Além do grunge, a gente tem muita coisa do hardcore, do new metal, que sempre foram fontes que a gente bebia, mas não conseguia trazer pro nosso som. Então nesse segundo álbum, a gente se sentiu um pouco mais livre pra trazer essas canções que são mais enérgicas e têm até um pouco de humor em alguns casos. Então conseguimos trazer essa nova ‘cara’ pra banda”, explica Panza. Das 11 músicas, duas contam com participações; “Coletividade é a Evolução”, juntamente com a SKASU, e “Suor e o Dom” com a Dinossaurus. E para futuros projetos, podemos esperar por muitas collabs com bandas caiçaras: “Eu pago pau pra galera da região, não tem jeito. Adoraria gravar com o Fildzz [Aliados], BaySide Kings e até artistas de outras vertentes que eu admiro, como o Diego Alencikas [forró e MPB]”, diz Roger. DZ Rock em festivais? A DZ Rock agita a noite santista e já se apresentou em diversas casas de show. Além disso, a banda também já se apresentou na capital de São Paulo, abrindo shows para bandas como CPM 22. Quando questionados se sentem vontade de tocar em festivais, Panza diz que adoraria estar no line-up de eventos como Lollapalozza, Rock in Rio e João Rock; “A gente sabe montar um show pra festival”. Por outro lado, Roger não descarta a possibilidade da criação de um festival com bandas autorais e independentes da região. Inclusive, ele é o fundador do Rolê das Tribos, evento que fomenta a cena caiçara com apresentações de bandas e artistas regionais. E a próxima edição já está chegando: acontecerá na sexta-feira (01), feriado. Projetos solos O álbum acústico Paz de Espírito será o primeiro projeto solo de Roger e está na reta final de produção. Com 8 faixas ao todo, a obra mesclará rock, reggae e samba. De antemão, ele adianta: “não tem nada a ver com a DZ Rock”. Antes de tudo, diferente do que costuma ser feito, o artista não lançará single por single. Assim, o álbum será lançado de uma só vez e chega às plataformas digitais no dia 05 de junho. E não é só o vocal da DZ que tem um projeto paralelo! Gabriel Panza está a frente do Água e Sal junto com a sua irmã, Isabela Panza. Os irmãos tocam o projeto com cuidado, propósito e não cedem à pressa do mercado para produzir suas canções: “Temos de 3 a 4 músicas para serem lançadas em 2026 e existe todo um contexto audiovisual, com significado”, conta Panza. Entre as músicas, estão Amor de Irmãos, em colaboração com o cantor Gabriel Elias, e uma nova versão da música Desacelera – dessa vez mais zen, com instrumentos de meditação. 1 álbum pelo resto da vida Finalmente, vamos as referências da dupla entrevistada. Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden, Puddle of Mudd, Tad e Gruntruck entram nessa lista. E claro: muita veia de música caiçara! “Se vocês pudessem escolher apenas um álbum para ouvir pelo resto da vida, qual seria?”, perguntei. Roger respondeu Audioslave (2002), álbum homônimo de estreia da banda, e Preço Curto, Prazo Longo (1999) do Charlie Brown Jr. E Charlie Brown Jr. também foi a escolha nacional de Panza, com o álbum Transpiração Continua Prolongada (1997). Já para álbum internacional, o baterista e produtor musical respondeu Dookie (1994), da banda Green Day. Por fim, a DZ Rock se apresenta na próxima
Santos celebra os 50 anos do Iron Maiden com show e documentário

Se existe uma banda que faz parte do DNA de qualquer fã de heavy metal, essa banda é o Iron Maiden. Em 2026, o grupo liderado por Steve Harris completa meio século de uma trajetória que mudou a história do rock. Para celebrar esse marco, o Cine Roxy 5, em Santos, preparou um evento especial para o dia 8 de maio: o Up the Roxy! Aquecimento com a Flight of the Maiden A programação começa cedo, às 20h, no foyer do cinema. A banda santista Flight of the Maiden, conhecida pela fidelidade técnica ao repertório dos ingleses, fará um show gratuito para o público. No setlist, hinos que atravessam décadas como The Trooper, Fear of the Dark, Run to the Hills e Wasted Years. Estreia: Burning Ambition Na sequência, às 22h, o foco se volta para a Sala 5 com a exibição do documentário oficial Iron Maiden: Burning Ambition. Lançado mundialmente em maio de 2026, o longa revisita os 50 anos da Donzela de Ferro. O filme traz: Serviço: Up the Roxy! – Iron Maiden 50 Anos
Hilda Maria leva a renovação do choro contemporâneo ao palco do Chorinho no Aquário

O tradicional e democrático projeto Chorinho no Aquário, em Santos, recebe neste dia 28 de março a cantora, compositora e pesquisadora Hilda Maria, que desembarca no litoral para apresentar o repertório do seu mais recente álbum, Choro Cantante. A apresentação gratuita ao ar livre marca a chegada da nova turnê da artista à Baixada Santista, após passagens elogiadas pela Capital e pelo interior paulista. 25 anos de estrada e a paixão pelo choro Com mais de duas décadas de dedicação à música popular brasileira e integrando os vocais da aclamada Orquestra Mundana Refugi, Hilda Maria encontrou no choro a sua verdadeira casa artística há cerca de 10 anos. O novo disco, Choro Cantante, é o ápice dessa imersão. O trabalho reúne 10 canções inéditas que fogem do saudosismo: são “crônicas choronas” que refletem a linguagem e as vivências da vida moderna. Para construir essa sonoridade, Hilda dividiu as composições com nomes de peso da nova geração da música instrumental e do choro contemporâneo, incluindo parceiros como Hércules Gomes, Camila Silva, Maiara Moraes, Caetano Brasil, Javiera Hunfan, Leandro Tigrão e Thadeu Romano. No palco da Praça Luiz La Scala, o público pode esperar uma performance que une o rigor técnico do gênero a uma interpretação vocal profunda e atual. 🎫 Serviço: Chorinho no Aquário apresenta Hilda Maria O evento é aberto ao público e sujeito às condições climáticas (em caso de chuva forte, a apresentação costuma ser remarcada).
Entrevista | Pennywise – “Muitas pessoas usam Bro Hymn em funerais e nem precisa ser punk para se conectar com ela”

A edição de 2026 da We Are One Tour chega à América do Sul com o Pennywise como um de seus grandes protagonistas. Referência absoluta do skate punk e do hardcore melódico desde os anos 1990, a banda californiana lidera a turnê ao lado do Millencolin e Mute em uma sequência de shows que passa por cinco cidades brasileiras após iniciar a rota em Santiago e Buenos Aires. Em São Paulo, a procura foi tão grande que a primeira apresentação esgotou em apenas três dias, levando ao anúncio de uma data extra na Audio, no dia 31 de março. O line-up ainda conta com a banda paulistana The Mönic na abertura. O Pennywise ainda retorna em maio para o Porão do Rock em Brasília. Formado em 1988 em Hermosa Beach, na Califórnia, o Pennywise se consolidou como uma das forças do skate punk nos anos 1990, ao lado de nomes como Bad Religion, NOFX e The Offspring. Com riffs rápidos, refrões feitos para o coro coletivo e letras que misturam atitude positiva e crítica social, o grupo construiu uma carreira de mais de três décadas. A formação atual reúne Jim Lindberg (vocal), Fletcher Dragge (guitarra), Byron McMackin (bateria) e Randy Bradbury (baixo). Antes da passagem pelo país, o guitarrista Fletcher Dragge conversou com o Blog n’ Roll sobre a evolução do Pennywise desde os primeiros shows em festas de quintal na Califórnia, comentou o peso político do clássico “Fuck Authority” no atual cenário dos Estados Unidos e relembrou o impacto de “Bro Hymn”, homenagem ao baixista Jason Thirsk que se transformou em um dos maiores hinos do punk. A entrevista encerra a série especial do Blog n’ Roll com os headliners da We Are One Tour 2026. Anteriormente falamos com o Mute e o Millencolin. Pennywise tem mais de três décadas de história. Como você vê a evolução da banda de Hermosa Beach para palcos ao redor do mundo? Uau! Sim, muita história. Obviamente começamos em Hermosa Beach, uma pequena cidade da Califórnia. Surfávamos, nadávamos e o punk rock chegou por volta de 1979, 1980. Tínhamos bandas como Black Flag, Red Cross, Descendents e Circle Jerks tocando na nossa cidade, muitas vezes em festas de quintal. Crescer vendo essas bandas nos primeiros anos da nossa adolescência foi muito legal. Quando começamos o Pennywise, também tocávamos em festas de quintal. Depois fomos tocar no Arizona, depois em Tijuana. Ai lançamos nosso disco e alguém disse para irmos para a Europa. Então fomos para a Europa, depois para a Austrália e para a América do Sul. Foi tudo muito rápido, né? Foi louco perceber que nossa música estava indo para fora de Los Angeles. Quando começamos a ver fãs em lugares como Brasil, América do Sul, Austrália, Europa e Japão, graças à Epitaph Records e a bandas como Bad Religion abrindo caminho, foi surreal. Pensar que alguém no Brasil estava ouvindo um disco do Pennywise e dizendo “vocês precisam vir tocar aqui”. Demorou muito tempo para chegarmos ao Brasil, e eu nunca fiquei feliz com essa demora. Sempre havia planos, mas a vida acontecia. Quando finalmente fomos, foi incrível. As pessoas sabiam todas as letras, estavam enlouquecidas. Isso mostra o quanto a música é poderosa. É, o Brasil é muito intenso nos shows… Exatamente. E eu sempre falo que às vezes você pergunta a um garoto qual é sua banda favorita e ele responde Slayer. Aí você pergunta quem é o vice-presidente dos Estados Unidos e ele não sabe. Muitas vezes a música é mais importante para os jovens do que política ou escola. As bandas se tornam parte da identidade deles. Então ter influência no mundo todo, inclusive no Brasil, e ouvir pessoas dizendo que a música ajudou em momentos difíceis da vida, é algo enorme. Quando alguém diz que estava passando por um momento muito duro e que um disco do Pennywise ajudou a seguir em frente, isso é uma evolução gigantesca para nós como músicos. É uma honra saber que pessoas em todo o mundo se conectam com o que fazemos. Vocês sempre trouxeram política para a música. Como é ter o hino “Fuck Authority” em um cenário atual de tendências autoritárias nos Estados Unidos? É incrível, porque você pode subir ao palco e dizer “foda-se essa administração, foda-se Trump, foda-se o ICE” e tocar “Fuck Authority”. O público sabe exatamente o que fazer. Essa música foi escrita sobre um sistema policial abusivo em Los Angeles que estava envolvido em corrupção, assassinatos e tráfico de drogas. Quando isso veio à tona, foi a inspiração para a música. Todos ajudaram a escrever, mas a ideia começou ali. No fim das contas, todos têm alguém abusando de autoridade. Pode ser polícia, pais, professores ou governo. Muitas pessoas usam o poder que têm para explorar os outros, e é disso que a música fala. Agora, com o que está acontecendo nos Estados Unidos, a música parece ainda mais relevante. É como “Killing in the Name”, do Rage Against the Machine. Essas músicas continuam importantes porque sempre haverá pessoas lutando contra abuso de poder. Realmente é muito atual, minha irmã também mora na Califórnia e ela está bem preocupada com a atuação do ICE. Olha, eles falam sobre pegar criminosos e estupradores e toda essa merda. Primeiro de tudo, nem todos são criminosos e nem todos são estupradores. É assim que o Trump tenta classificar todo mundo e isso é besteira. Ninguém vai reclamar se você pegar criminosos. Mas quando você pega o cara que trabalha na construção, o cara que trabalha no restaurante, as mulheres que trabalham em hotéis ou os caras que trabalham no campo, aí estamos falando de pessoas muito trabalhadoras. Eu cresci na construção civil e metade dos trabalhadores comigo eram indocumentados. E eles eram as melhores pessoas: ótimos pais de família, pessoas muito honestas. São trabalhadores muito fortes. Atacar essas pessoas na rua é doentio. É simplesmente doentio. É fascista. Se você vier na minha casa, bater na minha porta usando máscara e sem identificação, vai ter